O Que é a Arte? O Que é a Arte?
5 de Maio de 2010 ⋅ Estética

O enigma da arte

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A arte pode ser estudada de muitos pontos de vista, além de poder obviamente ser pura e simplesmente fruída. No caso da filosofia, um dos problemas mais fundamentais é a questão de saber o que é afinal realmente a arte. Dois livros recentemente publicados dão aos leitores portugueses acesso a esta área fascinante da filosofia, e ambos têm o mesmo título: O Que é a Arte? Um deles foi publicado pela Bizâncio e é uma introdução elegante, clara e sintética, da autoria de Nigel Warburton, que tem o dom de escrever de modo absolutamente directo e claro. O outro é uma colectânea de textos organizada por Carmo D'Orey, uma das nossas mais eminentes especialistas em filosofia da arte e estética filosófica, e foi publicado pela Dinalivro. Em conjunto, dão ao leitor um acesso de ouro ao problema de saber o que raio é afinal a arte.

Classicamente, definia-se a arte em termos miméticos: a arte é uma imitação da realidade. Esta definição hoje é tida como insustentável precisamente por ser sumamente difícil aplicá-la a coisas como a pintura abstracta. De modo que nem a antologia de D'Orey nem a introdução de Warburton abordam este tipo de definição. Ambas começam pela chamada "teoria formalista", segundo a qual a arte se caracterizaria por ter uma forma significante. Esta teoria foi defendida por Clive Bell, presente na antologia de D'Orey, mas levanta dificuldades importantes, a mais importante das quais é o facto de parecer circular, pois Bell define aproximadamente a forma significante como o que é próprio da arte.

Outras tentativas de definir a arte incluem a teoria expressionista, defendida por Tolstoi e, numa versão mais sofisticada, Collingwood. Segundo esta teoria, a arte caracteriza-se por exprimir um certo tipo de emoções, e de um modo que lhe é próprio. Os poemas "Isto" e "Psicografia", de Fernando Pessoa, podem ser lidos como refutações irónicas da teoria expressionista da arte. Warburton consegue tornar extremamente plausível a teoria de Collingwood, e eu saí da leitura do livro com a impressão nítida de que a sua versão da teoria pode ser adequadamente desenvolvida, para resistir às objecções.

Uma reacção muito popular ao problema da definição da arte é declarar que a arte não pode ser definida, em parte por ser um conceito aberto. Esta tese foi defendida por Morris Weitz, baseando-se na noção de Wittgenstein de parecença de família, que este aplicou aos jogos, argumentando que não é possível definir tal conceito. Muitos filósofos hoje discordam de Wittgenstein, e consideram que se pode realmente definir o conceito de jogo, e consequentemente de jogo de linguagem, e muitos filósofos discordam também da ideia de que a arte não pode ser definida por ser um conceito aberto.

Todos parecemos saber perfeitamente bem o que é a arte, mas mal tentamos explicar o que ela realmente é, enredamo-nos em contradições e implausibilidades. É isto a filosofia: faz-nos pensar outra vez e revela perplexidades onde antes havia apenas banalidades.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (8 de Junho de 2008)
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