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15 de Maio de 2007 ⋅ Filosofia Pública

Condições da arte

O Que é a Arte? A Perspectiva Analítica, org. de Carmo D'Orey
Tradução de Vítor Silva e Desidério Murcho
Revisão da tradução de Maria José Figueiredo
Lisboa: Dinalivro, Abril de 2007, 138 pp.

A questão acerca da natureza da arte é antiga. Nasceu com Platão e daí para cá não tem deixado de, uma ou outra vez, inquietar os filósofos. Mas na segunda metade do séc. XX esta questão impôs-se como inadiável, em grande parte devido às surpreendentes e filosoficamente perturbantes mutações que iam acontecendo na prática artística. A perplexidade era compreensível. Até aí, quase toda a gente sabia como decidir se um objecto era ou não uma obra de arte porque a diferença entre as obras de arte e os outros objectos era explicitamente exibida nas próprias obras pela via de propriedades de forma e conteúdo. Por exemplo, era uma condição necessária, para que uma coisa fosse uma pintura ou uma escultura, que fosse uma imagem, a duas ou três dimensões, de um objecto ou acontecimento, real ou fictício. Aquilo a que hoje chamamos arte abstracta não seria admitido como arte por não satisfazer este requisito. A música combinava sons de acordo com regras respeitantes à harmonia, melodia e ritmo, e modalidades estabelecidas, como a sonata, a fuga e a sinfonia. Assim, as obras de Cage ou Stockhausen não teriam cabimento nesse domínio. A literatura, o teatro e a dança obedeciam também a regras próprias e não havia qualquer lugar no sistema das artes para realidades como os happenings, os objects trouvés, os ready-made ou a arte conceptual. "Objecto ansioso" foi a expressão inventada pelo crítico de arte Rosenberg para designar a espécie de criação artística que visa deliberadamente manter-nos na incerteza sobre se é ou não uma obra de arte. O mais célebre de todos foi A Fonte, de Duchamp, mas outros apareceram depois dele que continuaram a dividir os filósofos quanto à posição que deviam tomar a seu respeito.

No que respeita à estética como disciplina filosófica, o que de mais significativo se produziu, nessa segunda metade do século, teve origem em dois grupos que se podem distinguir, em termos de língua, mas também de método, estilo e programas de pensamento, como estéticas alemã e anglo-saxónica. Por razões históricas, geográficas e afectivas, a França privilegiou a primeira e tem praticamente ignorado, até há relativamente pouco tempo, a segunda. Como também, pela mesma espécie de razões, Portugal foi dominado desde o fim do séc. XVIII pela cultura francesa, a nossa exígua paisagem estética reflecte a influência indirecta da cultura alemã. Qualquer estudante que se inicia nesta disciplina filosófica conhece, pelo menos de nome, Nietzsche, Adorno, Heidegger ou Benjamin, todos com pelo menos uma obra traduzida para português. Mas ignora totalmente a existência de Beardsley, Weitz, Stolnitz, Dickie e, até há pouco tempo, a de Danto e Goodman. Ora, o que de mais interessante se escreveu no domínio preciso da caracterização ou definição de arte é da responsabilidade exclusiva deste último grupo. O objectivo da presente antologia é pôr à disposição do público português a discussão do problema prioritário da estética através de alguns textos, hoje já clássicos, dos filósofos anglo-saxónicos que a protagonizaram.

A utilidade prática desta colectânea talvez não seja inferior ao seu interesse teórico. Utilizada na docência, pode constituir uma excelente ocasião para desenvolver nos alunos o hábito de debate intelectual, a capacidade de análise crítica, o rigor na utilização dos conceitos e na formulação dos raciocínios, a agilidade argumentativa, a perspicácia crítica e o gosto pela subtileza. Os textos que dela fazem parte foram seleccionados como os mais significativos no debate sobre a natureza da arte. Inter-relacionados entre si, constituem um tecido de reenvios conceptuais e reconstruções temáticas dos quais resulta a unidade do todo.

Sobre a organizadora

Carmo d'Orey doutorou-se na Universidade de Lisboa em 1992, com uma tese sobre Nelson Goodman intitulada A Exemplificação na Arte. Leccionou Estética, Filosofia da Arte e outras disciplinas afins na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Criou e coordenou o mestrado em Estética e Filosofia da Arte e foi co-coordenadora do Projecto de Estética no Centro de Filosofia de Lisboa. É autora de diversos ensaios publicados em revistas e colectâneas da especialidade.

Índice

Introdução Carmo D'Orey

  1. A Hipótese Estética Clive Bell
  2. A Atitude Estética Jerome Stolnitz
  3. O Papel da Teoria na Estética Morris Weitz
  4. O Mundo da Arte Arthur C. Danto
  5. O Que é a Arte? George Dickie
  6. Quando há Arte? Nelson Goodman

Sobre os autores

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