Introdução à Estética
3 de Junho de 2006 ⋅ Estética

De um ponto de vista estético

Desidério Murcho
Introdução à Estética, de George Dickie
Tradução de Vítor Guerreiro
Revisão científica de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, 2008, 276 pp.

A filosofia da arte é provavelmente a disciplina da filosofia que conheceu um desenvolvimento mais exuberante nos últimos cinquenta anos. Apesar de todas as disciplinas da filosofia terem conhecido um desenvolvimento imenso no mesmo período, nota-se mais no caso da filosofia da arte precisamente porque era uma área pouquíssimo cultivada até muito recentemente. O mesmo se pode dizer da estética. Esta última aborda problemas que ultrapassam o âmbito da filosofia da arte, como a natureza e valor da beleza em geral (e não apenas artística) e do juízo estético em geral (e não apenas o juízo estético sobre as artes).

George Dickie é um dos mais importantes filósofos da estética do séc. XX. Até recentemente professor na Universidade de Illinois, Chicago, é autor de Art and the Aesthetic: An Institutional Analysis (1974), The Art Circle: A Theory of Art (1984), Evaluating Art (1988), The Century of Taste: The Philosophical Odyssey of Taste in the Eighteenth Century (1996) e Art and Value (2001). Mas Dickie deu-se também ao trabalho de escrever esta pequena introdução à estética, que é um excelente complemento à Filosofia das Artes, de Gordon Graham, e à Introdução à Estética, de Dabney Townsend, em boa hora publicadas entre nós pelas Edições 70. Quando um filósofo escreve sobre uma área para a qual contribuiu decisivamente, o resultado é, salvo raras excepções, de altíssima qualidade. É este o caso do livro de Dickie. O livro apresenta de forma sucinta, mas muito informativa, uma história da estética filosófica desde a antiguidade clássica até ao séc. XX, além de um conjunto de capítulos temáticos muitíssimo bem estruturados. A perspectiva histórica é importante para que se perceba a conexão que as discussões actuais têm com as discussões do passado — que por isso são vivas e actuais.

O livro divide-se em quatro partes. Na primeira, apresenta-se uma história de várias áreas da estética, até ao séc. XX. Começando com a teoria do belo de Platão, Tomás de Aquino, Hume, Kant e Schopenhauer, entre outros, esta parte inclui ainda capítulos sobre a atitude estética e a teoria do juízo desinteressado, concluindo com uma perspectiva histórica sobre o problema da definição de arte — de Platão e Aristóteles aos nossos dias, incluindo portanto Clive Bell, Suzanne Langer e Morris Weitz, entre outros. A segunda parte é inteiramente dedicada ao séc. XX: à teoria institucional da arte (de Dickie) e aos desenvolvimentos mais significativos da disciplina. Finalmente, as partes III e IV são dedicadas a várias áreas centrais da estética actual, incluindo o simbolismo, a metáfora e a expressão, assim como os instrumentalismos de Beardsley e de Goodman.

Os dezasseis capítulos são curtos e acessíveis, mas rigorosos e informativos. Com uma linguagem simples e directa, Dickie apresenta os principais problemas, teorias e argumentos da estética. Servida por uma boa tradução, esta obra seria sem dúvida não apenas do interesse do grande público, como também de artistas e críticos de arte — além de absolutamente imprescindível para professores e estudantes de filosofia, nomeadamente do secundário e do superior, onde estas matérias são (mal) tratadas. A estética, enquanto disciplina filosófica, é uma área fascinante, e este pequeno livro faz jus à sua verdadeira natureza.

Desidério Murcho
Texto publicado no jornal Público (21 de Janeiro de 2006)
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