Crime e Castigo (pormenor), de Romeo Niram
12 de Junho 2006 ⋅ Estética

Quando há arte?

Nelson Goodman

Se as tentativas de responder à questão "O que é a arte?" terminam geralmente em frustração e confusão, talvez — como tantas vezes acontece na filosofia — essa seja a pergunta errada. Uma reconcepção do problema, juntamente com a aplicação de alguns resultados de um estudo da teoria dos símbolos, pode ajudar a clarificar questões polémicas como o papel do simbolismo na arte, o estatuto da arte do "objecto encontrado" e da chamada "arte conceptual".

Uma perspectiva notável da relação entre símbolos e obras de arte é ilustrada por um incidente causticamente relatado por Mary McCarthy1:

Há sete anos, quando dava aulas numa faculdade progressista, tinha uma bonita estudante numa das minhas turmas que queria ser uma escritora de contos. Ela não estava a ser orientada por mim, mas sabia que eu por vezes escrevia pequenos contos e um dia, sem fôlego e com um ar afogueado, veio ter comigo no corredor, para me dizer que tinha acabado de escrever uma história e o seu professor de escrita, um Sr. Converse, tinha ficado muito entusiasmado. "Ele acha que é muito bom", disse ela, "e ele vai ajudar-me a melhorá-lo para ser publicado".

Perguntei qual era o tema da história; a rapariga era um ser marcadamente simples, que gostava de roupas e de sair. A sua resposta não tinha um tom aprovador. Era sobre uma rapariga (ela própria) e uns marinheiros que ela tinha conhecido no comboio. Mas então o seu rosto, que por momentos pareceu perturbado, ficou alegre.

"O Sr. Converse vai trabalhar comigo na história e vamos colocá-la em símbolos."

Hoje, é mais provável que os estudantes de arte de olhos cintilantes oiçam os seus professores dizer-lhes, com igual subtileza, para tirar os símbolos; mas o pressuposto subjacente é o mesmo: que os símbolos, sejam benefícios ou distracções, são extrínsecos à própria obra. Uma noção relacionada parece reflectir-se no que tomamos como arte simbólica. Começamos por pensar em obras como O Jardim das Delícias, de Bosch, os Caprichos, de Goya, as tapeçarias de Unicórnio ou os relógios moles de Dalí, e depois talvez em pinturas religiosas, quanto mais místicas melhor. O que é notável não é tanto a associação do simbólico com o esotérico ou com o que não é deste mundo, mas antes a classificação de obras como simbólicas com base no facto de terem símbolos como tema — isto é, com base no facto de descreverem símbolos, e não de serem símbolos. Isto transforma em arte não simbólica não apenas as obras que nada descrevem, mas também retratos, naturezas-mortas e paisagens, desde que os temas sejam apresentados de forma directa, sem alusões arcanas, e desde que as próprias obras não sejam símbolos.

Por outro lado, quando escolhemos obras para serem classificadas como não simbólicas, ou arte sem símbolos, confinamo-nos a obras sem assunto; por exemplo, a pinturas puramente abstractas, decorativas ou formais, edifícios ou composições musicais. As obras que representam algo, seja o que for e por mais prosaica que seja a representação, são excluídas; pois representar é com certeza referir, estar em lugar de, simbolizar. Toda a obra representacional é um símbolo; e a arte sem símbolos restringe-se à arte sem assunto.

Pouco importa que as obras representacionais sejam simbólicas de acordo com um uso e não simbólicas de acordo com outro, desde que não se confundam os dois. O que importa muito, contudo, de acordo com muitos artistas e críticos contemporâneos, é isolar a obra de arte como tal do que ela de algum modo simboliza ou refere. Vou apresentar entre aspas, dado que o ofereço para consideração sem exprimir agora qualquer opinião sobre isso, uma afirmação complexa de um programa, política ou ponto de vista hoje em dia muito defendido:

"O que uma pintura simboliza é-lhe externo, e alheio à pintura como obra de arte. O seu assunto, se o tem, as suas referências — subtis ou óbvias — por meio de símbolos de um vocabulário qualquer mais ou menos reconhecido, nada tem a ver com a sua importância ou carácter estético ou artístico. Seja o que for que uma pintura refere ou representa de qualquer modo, explícito ou oculto, está para lá de si. O que realmente conta não é uma relação desse género com qualquer outra coisa, não é o que a pintura simboliza, mas o que é em si — as suas qualidades intrínsecas. Além disso, quanto mais uma pintura concentra a atenção no que simboliza, menos atenção damos às suas propriedades. Assim, qualquer simbolização presente numa pintura não é apenas irrelevante; é perturbadora. A arte verdadeiramente pura evita toda a simbolização, nada refere e deve ser tomada só pelo que é, pelo seu carácter inerente, e não por qualquer coisa a que esteja associada por via de uma relação remota como a simbolização."

Este manifesto é poderoso. O conselho para nos concentrarmos no intrínseco em vez de no extrínseco, a insistência na ideia de que uma obra de arte é o que é e não o que simboliza, e a conclusão de que a arte pura dispensa todo o tipo de referência externa, têm o ar definitivo do pensamento desempenado, e prometem extirpar da arte matagais cerrados de interpretação e comentário.

Mas somos confrontados com um dilema. Se aceitarmos esta doutrina do formalista ou purista, parece que estamos a dizer que o conteúdo de obras como O Jardim das Delícias e os Caprichos não tem realmente importância, sendo melhor deixá-los de fora. Se rejeitarmos a doutrina, parece que estamos a sustentar que o que conta não é apenas o que uma obra é mas muitas coisas que não é. Num caso, parece que defendemos a lobotomia de muitas obras de arte; no outro, parece que sancionamos a impureza na arte, dando importância ao que lhe é alheio.

Nelson Goodman

Notas

  1. "Settling the Colonel's Hash", Harper's Magazine, 1954; reimpresso em On the Contrary (Farrar, Straus and Cudahy, 1961), p. 225.
Tradução de Desidério Murcho
Retirado de O Que é a Arte? A Perspectiva Analítica, org. de Carmo D'Orey (Lisboa: Dinalivro, no prelo)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte