Como Havemos de Viver?
14 de Fevereiro de 2007 ⋅ Ética

Qual é o sentido da vida?

Desidério Murcho
Como Havemos de Viver? A Ética numa Época de Individualismo, de Peter Singer
Tradução de Fátima St. Aubyn
Lisboa: Dinalivro, 2006, 424 pp.
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Algumas pessoas não conseguem evitar a sensação de que a sua vida é algo vazia — independentemente do bem-estar e riqueza que possam ter atingido. Este é o tipo de sensação que algumas pessoas têm no auge da sua carreira; noutras, ocorre quando morre um ente querido e dão consigo a perguntar-se que sentido terá tudo isto; noutras ainda, ocorre quando os seus negócios ou projectos falham estrepitosamente. Em todos estes casos, as pessoas enfrentam o que Peter Singer chama uma "escolha última". Estamos perante uma escolha última quando "o que fica em primeiro plano são os próprios valores fundamentais a serem objecto de análise" — isto é, quando nos interrogamos sobre que tipo de valores queremos adoptar, e não quando nos limitamos a escolher os melhores meios para alcançar os valores que já adoptámos.

A resposta de Singer ao problema do sentido da vida é simples: se tivermos uma vida ética, podemos ter uma vida com sentido. A este respeito, Singer está peculiarmente próximo dos filósofos gregos antigos. Apesar de existirem diferentes teorias éticas (o utilitarismo, a ética deontológica de Kant e a ética aristotélica das virtudes são as três mais importantes), todas concordam com uma ideia fundamental: a de que a perspectiva ética exige aquilo a que R. M. Hare (1919-2002) chamava a "universalizabilidade", e que Immanuel Kant (1724-1804) procurou captar numa das suas formulações do famoso "imperativo categórico". A ideia de Hare é muito simples: qualquer raciocínio ou decisão ética tem de ter em conta todos os seres moralmente relevantes afectados pelas nossas decisões, e tem de avaliar imparcialmente os interesses de todos esses seres. Assim, apesar de ser uma excelente ideia, do ponto de vista do Dr. Pato-Bravo, que ninguém excepto ele possa fugir aos impostos, esta ideia é imoral porque é arbitrária: não há qualquer razão para colocar o interesse do Dr. Pato-Bravo acima dos interesses de todas as outras pessoas. Do "ponto de vista do universo", como Henry Sidgwick (1838-1900) lhe chamava, os interesses do Dr. Pato-Bravo têm de ser imparcialmente comparados com os interesses dos outros.

Porque somos sociais, temos sentimentos altruístas naturais pelos nossos filhos, família, vizinhos, bairro e país, aproximadamente por esta ordem. Porque somos racionais, temos dificuldade em deixar de "olhar por cima do nosso ombro", isto é, temos tendência para olhar para nós de um ponto de vista objectivo. A angústia existencial acontece quando, ao olhar para nós desse modo, compreendemos que a nossa vida só tem valor para nós mesmos. E por mais valor que tenha para nós mesmos, o facto de não ter valor de um ponto de vista universal ou objectivo deixa-nos um amargo de boca. Peter Singer defende que uma vida ética dá sentido à nossa existência porque satisfaz simultaneamente a nossa natureza social e as exigências da nossa racionalidade.

Note-se que o título da obra não é "Como Devemos Viver?" mas sim "Como Havemos de Viver?" — a diferença é subtil, mas importante. A primeira pergunta seria desadequada, dado que se trata já de uma pergunta ética — trata-se de saber como temos de viver a vida se queremos ter uma vida ética. Mas esta pergunta pressupõe que já queremos ter uma vida ética, o que é em si uma escolha última. Daí que o livro tenha por título a segunda e não a primeira pergunta, pois trata-se de saber que opções últimas é uma boa ideia adoptar — e o que o autor procura mostrar é que há boas razões para optarmos por uma vida ética. Também neste aspecto a posição de Peter Singer é singularmente subtil, sobretudo nos dias que correm. Culturalmente muito influenciados pela ética de Kant e pelas religiões do livro (os teísmos judaicos e cristãos, sobretudo), a mundividência ocidental tornou a vida ética uma opção contra os nossos melhores interesses. É assim que há a ideia de que quem opta por viver uma vida ética é um papalvo, pronto a ser explorado pelos Patos-Bravos. Peter Singer procura mostrar que estas são concepções erradas da vida ética, que não é uma espécie de vida austera e ascética, mas antes uma vida que satisfaz a nossa humanidade mais profunda, dando um sentido palpável à nossa existência.

Para muitos leitores, uma resposta ética ao problema do sentido da vida pode parecer algo insípida. Isto acontece porque nos tempos que correm a vida privada e familiar adquiriu uma importância exacerbada. Em grande parte, todavia, é precisamente o fechamento de horizontes provocado pela atribuição de uma importância exacerbada à vida privada e familiar que provoca a angústia existencial contemporânea. Qualquer resposta sólida ao problema do sentido da vida tem de propor a ultrapassagem do fechamento da vida contemporânea na egocêntrica esfera privada e familiar.

Não se pense, contudo, que se trata de uma obra académica maçuda, exigente e difícil de ler. Pelo contrário. Peter Singer é um autor que tem o dom de tornar tudo tão claro e aparentemente simples que o leitor sente que está apenas a ter uma boa conversa com uma pessoa reflectida. Contudo, por detrás da aparente simplicidade, há uma solidez filosófica que raramente está presente em obras que tratem de forma não académica o problema do sentido da vida. Traduzido já na Alemanha, Japão, Suécia, Espanha e Coreia, este livro demonstra que é falsa, e fruto de ignorância, a ideia de que a filosofia contemporânea se tornou "escolástica" e tecnicista. Esperemos que o público receba esta obra com o entusiasmo que merece, o que tornará possível que se traduza outras obras deste género, tanto de Peter Singer como de outros filósofos contemporâneos — obras apropriadas para o leitor comum, e que dão uma ideia fidedigna do que é a filosofia hoje. Sobre o mesmo tema, a obra What is Good? The Search for the Best Way to Live, de A. C. Grayling, é outra leitura fundamental, que abrange aspectos diferentes dos tratados na obra de Peter Singer.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (15 de Setembro de 2006)
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