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31 de Outubro de 2006   Lógica

Questões fundamentais

Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos
Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos
direcção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes
São Paulo: Martins Fontes, 2006, 803 pp.
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Esta enciclopédia abrange, de maneira introdutória mas desejavelmente rigorosa, uma diversidade de conceitos, temas, problemas, argumentos e teorias localizados na área relativamente recente de "estudos lógico-filosóficos". O território teórico abrangido nesta área é extenso e de contornos por vezes difusos; inclui um conjunto de questões fundamentais acerca da natureza da linguagem, da mente, da cognição e do raciocínio, bem como questões acerca das conexões destes com a realidade não mental e extralinguística. Por um lado, estes estudos são filosóficos em virtude do elevado grau de generalidade e abstracção das questões examinadas (entre outras coisas); por outro, são lógicos em virtude de serem logicamente disciplinados, no sentido de se fazer um uso intenso de conceitos, técnicas e métodos provenientes da lógica.

Esta é uma edição revista e aumentada do volume publicado em 2001 (Lisboa: Gradiva), e que agora se publica no Brasil e em breve em Portugal. A edição original resultou de um projecto de investigação desenvolvido na Sociedade Portuguesa de Filosofia durante os anos de 1994 a 1996, financiado pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica no âmbito do seu Programa Estímulo para as Ciências Sociais e Humanas (PCSH/C/FIL/502/93).

Esta nova edição foi generosamente financiada e apoiada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual decorreu a investigação que lhe deu origem, com o nome "Projecto Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, Nova Edição" (2002-2004).

Da edição original mantiveram-se todos os artigos, dos quais se eliminaram muitas gralhas tipográficas e infelicidades de estilo. Alguns artigos foram ligeira ou substancialmente revistos, tendo-se acrescentado cerca de cinquenta remissões e artigos inteiramente novos. A enciclopédia conta agora com 606 artigos. Entre os artigos novos contam-se os seguintes:

a priori
analítico
argumento de autoridade
argumento ontológico de Gödel
argumentos bayesianos a favor da crença religiosa
argumentos sobre a existência de Deus
atomismo lógico
behaviorismo radical
definição
filosofia analítica, história da
juízo
lógica dialógica
lógica informal
lógica paraconsistente, história da
lógica paraconsistente, sistemas de
modalidades
número
paradoxos epistémicos
proposição, teorias da
quase-verdade
sofisma
teoria da relatividade

Excerto

Esta enciclopédia abrange, de uma forma introdutória mas desejavelmente rigorosa, uma diversidade de conceitos, temas, problemas, argumentos e teorias localizados numa área relativamente recente de estudos, os quais tem sido habitual qualificar como “estudos lógico-filosóficos”. De uma forma apropriadamente genérica, e apesar de o território teórico abrangido ser extenso e de contornos por vezes difusos, podemos dizer que na área se investiga um conjunto de questões fundamentais acerca da natureza da linguagem, da mente, da cognição e do raciocínio humanos, bem como questões acerca das conexões destes com a realidade não mental e extra-linguística. A razão daquela qualificação é a seguinte: por um lado, a investigação em questão é qualificada como filosófica em virtude do elevado grau de generalidade e abstracção das questões examinadas (entre outras coisas); por outro, a investigação é qualificada como lógica em virtude de ser uma investigação logicamente disciplinada, no sentido de nela se fazer um uso intenso de conceitos, técnicas e métodos provenientes da disciplina de lógica.

O agregado de tópicos que constitui a área de estudos lógico-filosóficos é já visível, pelo menos em parte, no Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, uma obra publicada em 1921. E uma boa maneira de ter uma ideia sinóptica do território disciplinar abrangido por esta enciclopédia, ou pelo menos de uma porção substancial dele, é extrair do Tractatus uma lista dos tópicos mais salientes aí discutidos; a lista incluirá certamente tópicos do seguinte género, muitos dos quais se podem encontrar ao longo desta enciclopédia: factos e estados de coisas; objectos; representação; crenças e estados mentais; pensamentos; a proposição; nomes próprios; valores de verdade e bivalência; quantificação; funções de verdade; verdade lógica; identidade; tautologia; o raciocínio matemático; a natureza da inferência; o cepticismo e o solipsismo; a indução; as constantes lógicas; a negação; a forma lógica; as leis da ciência; o número.

Deste modo, a área de estudos lógico-filosóficos abrange não apenas aqueles segmentos da lógica propriamente dita (liberalmente concebida) que são directa ou indirectamente relevantes para a investigação filosófica sobre a natureza da linguagem, do raciocínio e da cognição (incluindo, por exemplo, aspectos da teoria dos conjuntos e da teoria da recursão), como também um determinado conjunto de disciplinas filosóficas — ou melhor, de segmentos disciplinares – cuja relevância para aqueles fins é manifesta e que se caracterizam pelo facto de serem logicamente disciplinadas (no sentido acima aludido). Entre estas últimas contam-se as seguintes disciplinas: a) aquelas que foram originariamente constituídas como extensões da lógica, ou seja, disciplinas como a filosofia da linguagem executada na tradição analítica, a filosofia da lógica, a filosofia da matemática, alguma da filosofia da mente mais recente, etc.; b) aquelas cujo desenvolvimento foi de algum modo motivado ou estimulado por desenvolvimentos surgidos no interior da lógica, como certas secções da actual metafísica, ontologia, teoria do conhecimento, etc.

Com respeito à lógica propriamente dita, é bom notar que houve uma preocupação central no sentido de que a enciclopédia abrangesse de uma forma exaustiva as noções e os princípios mais elementares ou básicos da disciplina. Muito em particular, a exigência de completude deveria ser naturalmente satisfeita com respeito ao material nuclear — conceitos, princípios, regras de inferência, etc. – da lógica clássica de primeira ordem (e também da chamada “lógica tradicional” ou “aristotélica”); ilustrando, coisas como as leis de De Morgan, o princípio ex falso quod libet, os paradoxos da implicação material e a falácia da ilícita menor não poderiam obviamente deixar de ser aqui contempladas. Pensamos que esse desideratum foi, em termos gerais, realizado; com efeito, temos um número substancial de artigos dedicados a esse fim e não parece haver lacunas significativas na área. Em relação ao restante material de lógica, o guia utilizado para a sua inclusão foi o da relevância ou significado, directo ou indirecto, do material para a investigação filosófica (ou melhor, para a investigação lógico-filosófica na acepção anterior). Assim se explica, por exemplo, a quantidade substancial de artigos dedicados à teoria dos conjuntos; e assim se percebe como a enciclopédia contém artigos extremamente técnicos mas cujas conexões filosóficas são evidentes, como os artigos sobre as relações recursivas e o problema da paragem. O guia utilizado está bem longe de constituir um critério preciso: é certamente vago, admite certamente graus, autoriza certamente um grande número de casos de fronteira; mas nem por isso deixou de ser útil para o efeito.

Uma característica importante desta enciclopédia é a sua dimensão interdisciplinar. Com efeito, as conexões existentes entre o território teórico por ela abrangido e os domínios de muitas outras disciplinas científicas são bastante estreitas, fazendo a área de estudos lógico-filosóficos ser, por excelência, uma área vocacionada para a investigação pluridisciplinar. Basta reparar que muitos dos segmentos da área são naturalmente convergentes com disciplinas que têm contribuído decisivamente para o estudo de aspectos importantes da linguagem, da mente, do raciocínio e da cognição humanos; esse é, em especial, o caso das chamadas “ciências cognitivas”, de disciplinas como a linguística teórica, a psicologia cognitiva e do desenvolvimento, as ciências da computação, a inteligência artificial, etc. A convergência em questão é, em muitos casos, bidireccional, com a investigação nas outras disciplinas simultaneamente a alimentar e a ser alimentada pela investigação lógico-filosófica.

Outra característica importante da enciclopédia, ou do modo de encarar a filosofia que lhe está subjacente, é uma maior atenção dada ao valor intrínseco das teorias, argumentos e problemas examinados, e uma concomitante menor atenção dada a quem propõe a teoria, o argumento ou o problema, ou às circunstâncias históricas e pessoais em que o fez. Isto explica em parte o facto de esta ser uma enciclopédia de termos, e logo uma enciclopédia primariamente acerca de conceitos (os conceitos associados a esses termos). Por conseguinte, nela não estão incluídas os habituais artigos sobre personalidades e grandes figuras do pensamento lógico e lógico-filosófico. Todavia, note-se que o facto de não conter qualquer artigo sobre uma dada figura (por exemplo, Gottlob Frege ou Willard Quine) não impede de forma alguma que as principais ideias e teses dessa figura sejam contempladas (por exemplo, uma das mais célebres distinções de Frege, a distinção função/objecto, é o tema do artigo “conceito/objecto”; e um dos mais célebres argumentos anti-essencialistas de Quine, o argumento do matemático ciclista, é também contemplado). A outra razão para a exclusão de nomes é inteiramente contextual: o projecto não foi, desde o início, concebido nesse sentido; em particular, as competências a reunir para o efeito seriam outras. Na verdade, o plano inicial previa um modesto glossário, onde os termos fundamentais seriam definidos com brevidade. Mas o entusiasmo dos autores cedo ultrapassou em muito aquilo que estava previsto e muitos artigos constituem verdadeiros ensaios onde o estado actual da discussão de um tópico ou problema é minuciosamente descrito. A propósito, a extensão dos artigos varia enormemente, podendo ir de poucas linhas a muitas páginas; mas a desproporção é em geral justificada, uma vez que resulta muitas vezes da natureza ou da importância actual do conceito ou tópico tratado.

Terminamos, em primeiro lugar, com algumas palavras sobre os antecedentes históricos da enciclopédia, e, depois, com observações sobre alguns aspectos práticos.

O volume que agora vem a público resulta na sua maior parte de um projecto de investigação desenvolvido na Sociedade Portuguesa de Filosofia durante os anos de 1994 a 1996. O projecto foi financiado pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica no âmbito do seu Programa Estímulo para as Ciências Sociais e Humanas e deu pelo nome de “Projecto Glossário Lógico-Filosófico” (PCSH/C/FIL/502/93). O Projecto Glossário reuniu, de uma forma que se veio a revelar inegavelmente frutífera, uma vasta equipa pluridisciplinar composta por investigadores provenientes quer de diversas instituições académicas nacionais (Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Universidade do Algarve, etc.) quer de diversas áreas e disciplinas científicas (a filosofia, a linguística, a matemática, as ciências da computação, etc.). A equipa foi dirigida por M. S. Lourenço e, durante mais de três anos, os seus membros foram redigindo o grosso da obra que agora vem a lume. O projecto permitiu também estabelecer contactos frutíferos com especialistas estrangeiros de elevada reputação oriundos das Universidades de Edimburgo, Oxford, Califórnia (Los Angeles), Londres, Nova Iorque, Maryland, Stirling e outras. Estiveram entre nós, nessa qualidade, pessoas como John R. Searle, Jerry Fodor, Hilary Putnam, Paul Horwich, Paul Boghossian, James Higginbotham, Timothy Williamson, Kit Fine, Mark Sainsbury, David Papineau, Christopher Peacocke, Susan Carey, Ned Block, Simon Blackburn e outros. Para ter uma ideia da importância desses contactos, observe-se que se a enciclopédia tivesse incluído artigos sobre autores, muitos dos nossos convidados dariam eles próprios origem a artigos separados. Para além de a enciclopédia ter beneficiado imenso com o intercâmbio, pois alguns desses especialistas acabaram por redigir artigos nela incluídos, a comunidade científica nacional na área também beneficiou imenso e a investigação na área recebeu assim um forte estímulo.

Quando o projecto terminou, no primeiro trimestre de 1997, ficou decidido que o seu produto seria transformado numa publicação. Para dirigir esses trabalhos nomearam-se as duas pessoas que agora o assinam como organizadores. A actividade de preparação do material para publicação decorreu durante os anos de 1997 e 1998 e consistiu nas seguintes tarefas (entre muitas outras): complementar os artigos existentes com novos artigos por nós julgados imprescindíveis, os quais assumiram muitas vezes a forma de artigos curtos; sugerir aos autores de artigos já disponíveis diversas correcções, ampliações, reformulações e melhoramentos (estilísticos e de outro género); pedir novos artigos aos colaboradores existentes, assim como a jovens investigadores (em especial, estudantes de cursos de pós-graduação na área); e elaborar um sistema razoável de remissões que permitisse ao leitor ter uma ideia das conexões entre os diversos conceitos e temas abrangidos. Parte do trabalho de Desidério Murcho foi generosamente financiado por uma bolsa da JNICT, atribuída em 1996 e com a duração de um ano. Além disso, mais recentemente, o trabalho de organização foi integrado no âmbito do Programa As Ciências da Cognição no Final do Século, tendo nessa qualidade beneficiado do apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

O sistema de remissões é com certeza claro. Os termos em versalete indicam a presença de artigos relevantes para o tema em causa, se bem que o verbete possa não ser exactamente igual ao termo destacado, mas uma sua variação. Por exemplo, apesar de o termo universais surgir em versalete em alguns artigos, não há um verbete “universais” mas sim “universal”, o que parece razoável.

O método de alfabetização merece também uma menção especial. A regra seguida foi esta: tudo o que surge a negrito, no verbete, antes da primeira vírgula (caso exista) é considerado como uma palavra. Assim, a priori surge depois de abdução, ao contrário do que aconteceria se considerássemos o “a” de a priori como uma palavra (que é, precisamente, o que fazem as rotinas de alfabetização dos computadores). Pela mesma razão, adequação, teorema da surge antes de adequação material, o que também não aconteceria caso a vírgula não fosse tomada em consideração.

Procurámos dar aos verbetes principais a sua designação mais comum, excepto quando uma inversão poderia ser informativa por agrupar várias definições (como é o caso dos paradoxos ou das teorias da verdade). Em qualquer caso, procurámos dar conta de todas as variações possíveis, remetendo para o local adequado. Todavia, o leitor que procura uma definição deve ser astuto na sua procura.

A importante distinção entre o uso e a menção de palavras merece uma nota. Em português usa-se por vezes o itálico, em vez das aspas, para falar de palavras e termos, grafando-se

A palavra filosofia tem 9 letras.

em vez de

A palavra “filosofia” tem 9 letras.

que é a prática corrente em língua inglesa. Nesta enciclopédia seguimos a convenção portuguesa, excepto nos casos em que poderiam surgir ambiguidades, situações em que recorremos às aspas. Um outro aspecto quanto ao uso e à menção diz respeito aos símbolos lógicos e matemáticos. Em geral, optámos por não usar aspas ao mencionar símbolos, pois raramente tal prática dá lugar a ambiguidades, e tem a vantagem de evitar que as linhas de texto fiquem horrivelmente carregadas de aspas. Assim, escreve-se em geral

A → é uma função de verdade.

em vez de

A “→” é uma função de verdade.

Uma vez que a → não pertence à língua portuguesa, não há o risco, geralmente, de se pensar que a esta está a ser usada quando estamos apenas a mencioná-la. Todavia, há situações em que tal ambiguidade pode surgir; nesses casos, recorremos às aspas.

É nossa esperança que esta enciclopédia seja um instrumento de trabalho útil a estudantes e professores das diversas disciplinas aqui representadas. Aliás, uma das motivações centrais que presidiram à sua composição e publicação foi a de contribuir para a fixação da terminologia científica portuguesa a utilizar pelas pessoas a trabalhar na área, especialmente aquela fatia substancial da terminologia que diz respeito à lógica propriamente dita. Note-se, a propósito, que esta é uma disciplina cultivada por muitas pessoas, de proveniências bem diversas: filósofos, matemáticos, informáticos, linguistas, psicólogos, etc. A fixação em português do vocabulário básico da área constitui, escusado será dizer, um passo fundamental em direcção ao incremento e reforço entre nós da investigação de qualidade na área; e a enciclopédia contribuirá certamente para realizar esse objectivo.

Como é óbvio, o conteúdo dos artigos é da estrita responsabilidade dos seus autores. Agradecemos a todos eles a ajuda e cooperação durante o processo de organização. Há dois agradecimentos especiais que gostaríamos de aqui deixar. Um vai para Fernando Ferreira, pela ajuda técnica preciosa dada relativamente ao material de lógica. O outro vai para M. S. Lourenço, pelo simples facto de ter, nos anos 70, introduzido em Portugal os estudos lógico-filosóficos e ter assim tornado possível o projecto.

As pequenas definições não assinadas são da responsabilidade dos organizadores do volume. Todas as sugestões e críticas são bem-vindas.