Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos
18 de Fevereiro de 2007 ⋅ Lógica

Explicações precisas

Décio Krause
Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direcção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes
São Paulo: Martins Fontes, 2006, 803 pp.
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Em boa hora aparece, editada pela Livraria Martins Fontes Editora, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. Trata-se da primeira edição brasileira, que revisa e aumenta uma primeira edição portuguesa publicada pela Gradiva, em Lisboa, em 2001. Os dois primeiros editores são portugueses, e o terceiro é brasileiro. O volume consta de 606 verbetes escritos por 45 especialistas nos variados tópicos que cabem no assunto do título (reconhecido pelos editores como abrangente). Como dizem os editores no Prefácio, esta enciclopédia "abrange, de forma introdutória, mas desejavelmente rigorosa, uma diversidade de conceitos, temas, problemas, argumentos e teorias localizados numa área relativamente recente de estudos, os quais têm sido habitualmente qualificados como "estudos lógico-filosóficos"". Pura verdade. Os temas selecionados são interdisciplinares e de grande atualidade, porém de uso algo incomum em nossos cursos de filosofia (que via de regra dedicam-se mais à história da filosofia), matemática, e ciências (que raramente tratam de questões filosóficas relacionadas aos seus assuntos), todos eles com adequadas referências bibliográficas atualizadas, nas quais o leitor pode aprofundar os estudos.

Nesta enciclopédia podemos encontrar explicações precisas, porém não demasiadamente técnicas, para assuntos os quais, sem um mínimo conhecimento, é difícil entender como se pode adentrar a vários dos temas da filosofia do século XX e da filosofia da ciência dos dias presentes e futuros. Hoje em dia, a interligação entre as disciplinas se faz patente, e em particular nas discussões filosóficas sobre a ciência. Assuntos como computação (máquinas de Turing, prova de teoremas por computadores, várias formas de computação), biologia (evolução, biologia molecular, clonagem), matemática (teoria das categorias, as várias teorias de conjuntos, os fundamentos das mesmas, o conceito de número), física (mecânica quântica, relatividade, teorias das cordas), psicologia, dentre outros, abundam e se mostram de tal importância que não se pode esperar qualquer discussão sensata sobre a filosofia do que se faz neste início de século sem ao menos um contato razoável com os temas abordados por esta enciclopédia.

Verbetes como "Funções Recursivas", "Hipótese do Contínuo", "Lógica Dialógica", "Paraconsistência", "Regras de Dedução Natural", "Números de Gödel", "Lógica Intuicionista", "Gramática de Montague", "Predicativismo", "Teoria dos Conjuntos", bem como noções sobre várias lógicas não-clássicas, como a relevante, os sistemas polivalentes, paraconsistentes, modais, temporais, e por aí em diante, estão presentes, abrangendo praticamente todas as noções e princípios básicos dessa disciplina. Aliás, o volume é particularmente relevante e bem distribuído na área de lógica. São assuntos que raramente podem ser encontrados em conjunto, o que faz deste volume algo de inestimável valia principalmente para alguém em início de formação, uma vez que os temas aqui reunidos podem ser encontrados somente de forma esparsa em textos especializados. O volume, no entanto, é igualmente útil ao especialista, face à variedade dos assuntos e à sua atualidade. A enciclopédia, porém, não se resume à lógica, tratando igualmente de temas mais gerais como a existência de Deus (falando sobre os argumentos mais relevantes a este respeito, desde os argumentos clássicos até o menos conhecido "argumento ontológico" de Gödel), a distinção entre intensão e extensão, falácias, paradoxos, contendo verbetes como "Compromisso Ontológico", "Atitude Proposicional", "Consciência", "Verdade", etc.

Os verbetes foram elaborados em uma linguagem acessível, devidamente adaptada principalmente ao leitor brasileiro, usando-se de pouco formalismo especializado, podendo ser lido por estudantes e demais interessados que tenham um conhecimento mínimo de lógica e de seus assuntos correlatos. Alternativamente, a leitura de alguns verbetes pode constituir-se em real tarefa de aprendizado dos assuntos, servindo este texto como adequado material de estudo introdutório propriamente dito. Deste modo, a enciclopédia constitui sem dúvida um instrumento indispensável de apoio a estudos de filosofia, mas enriquecerá igualmente estudiosos de outras áreas. Por exemplo, estudantes de matemática podem ter a oportunidade (quase única em nossa língua) de acessar temas como "Números e Conjuntos", "Programa de Hilbert", "Ordens", "Ordinal", bem como de uma descrição sucinta, mas bem feita, dos axiomas de algumas teorias de conjuntos.

Há verbetes longos, de várias páginas, como por exemplo "Existência", de 17 páginas, "Lógica Dialógica" (19 páginas), "Regras de Dedução Natural" (7 páginas), "Bayesianismo e Crença Religiosa"(7 páginas), "Pensamento"(9 páginas), "Sorites"(7 páginas), "Teoria da Relatividade" (7 páginas), "Tese de Church"(5 páginas), "Atomismo Lógico"(7 páginas), dentre outros, constituindo verdadeiros artigos explicativos e com muita referência complementar aos assuntos, trazendo muita riqueza ao tema, principalmente porque muitos dos verbetes foram escritos por quem contribuiu para o tema ou mesmo o originou. A linguagem é uniforme em todo o volume, tal como a simbologia, o que facilita muito a compreensão e familiaridade por parte do leitor.

Merece comentário a explicação dada pelos editores de por que não se encontram verbetes sobre uma dada figura, como "Frege" ou "Wittgenstein". Como dizem eles, uma característica importante da enciclopédia é "a maior atenção dada ao valor intrínseco das teorias, argumentos e problemas examinados, e a concomitante menor atenção dada a quem propõe a teoria, o argumento ou o problema, os às circunstâncias históricas e pessoais". No entanto, exposições sobre algumas das idéias dessas pessoas podem ser encontraras nos verbetes temáticos.

O editor brasileiro, em sua "Apresentação à Edição Brasileira", comenta sobre o progresso dos estudos em filosofia no Brasil, notadamente após a década de 1970. Como diz ele, "no Brasil, a filosofia profissional está em franco processo de institucionalização", e que tem por desafio "ganhar cada vez mais qualidade". Ele está coberto de razão. Para que se expanda e consolide essa tendência, poderíamos ainda falar da necessidade de ampliação das áreas de atuação típicas de nossos programas de doutoramento, no sentido de abordar temas contemporâneos, como aqueles relacionados à filosofia da matemática atual, da física, da biologia, das ciências humanas, da tecnologia. São ainda poucos os programas e pesquisadores que se dedicam a temas como esses; geralmente, quando alguém nos pergunta sobre o que fazemos, a questão vem no sentido de descobrir "quem é o autor" que estudamos. Este tipo de estudo, que chamarei aqui de "historiográfico", tem obviamente grande relevância e deve se continuado, pois não podemos de forma alguma perder a boa tradição que temos na área. Porém, o estudo e a dedicação a assuntos, como a filosofia da mecânica quântica (ou de aspectos da), a filosofia da inteligência artificial, filosofia da biologia, etc., são temas candentes da contemporaneidade, e igualmente devem ser incentivados e desenvolvidos em nossas universidades e programas. Nessa direção, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos vem dar uma contribuição fundamental pelos assuntos tratados em seus verbetes e pela especialização dos autores envolvidos.

Para não ser totalmente positivo, comento que senti falta de um índice dos verbetes e um que indicasse em que verbetes se pode encontrar os autores. Não obstante, não há dúvida que a contribuição dada à cultura de língua portuguesa por esta Enciclopédia é realmente algo de vulto e merece ser devidamente reconhecida.

Décio Krause
dkrause@cfh.ufsc.br
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
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