Julho de 2001   Filosofia

Convidar a discutir

Aires Almeida
Pense: Uma introdução à filosofia
de Simon Blackburn
Tradução de António Infante, António Paulo da Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Maria de Fátima St. Aubyn, F. J. Azevedo Gonçalves e Paulo Ruas
Revisão científica de Pedro Santos e Desidério Murcho
Gradiva, Junho de 2001, 320 pp.

A reflexão “não coze o pão nem põe os aviões no ar”. Nesse caso, pergunta Simon Blackburn, “por que razão não havemos de pôr as perguntas reflexivas de lado, e passar às outras coisas”?

A pergunta anterior, feita logo na introdução, imediatamente nos indica a quem se dirige este livro. Com ele o autor não pretende apenas atrair os que já estão convencidos. Dirige-se preferencialmente aos não especialistas e aos que pensam que a filosofia é uma coisa esquisita, demasiado abstracta e irremediavelmente estéril. E talvez pensem assim por não terem ainda tido a oportunidade de ler livros de filosofia como Pense — Uma contagiante introdução à filosofia.

Eis, pois, uma excelente oportunidade de verificar que a filosofia não só é inevitável, como é também fundamental para descobrir o que pode haver de errado nas nossas práticas, no intuito de as melhorar. Além disso, Blackburn consegue fazê-lo de modo a dar conteúdo ao título do livro, pois constitui um permanente estímulo à atitude crítica do leitor, apresentando alguns dos principais problemas da filosofia de forma verdadeiramente contagiante. Assim, este livro, que é já um sucesso em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, corre o risco de se tornar um clássico de introdução à filosofia, mostrando a quem o lê que a filosofia pode ser fonte de grande prazer intelectual.

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Simon Blackburn, que ensinou nas universidades de Oxford e da Carolina do Norte, é actualmente professor da Universidade de Cambridge, em Inglaterra. É autor de obras como o Dicionário Oxford de Filosofia, já traduzido para esta mesma colecção da Gradiva, e foi durante seis anos director da revista Mind, a mais prestigiada revista internacional de filosofia. Apesar do seu invejável currículo, Blackburn nunca procura intimidar o leitor com uma linguagem impenetrável, ou com argumentos de autoridade e receitas filosóficas prontas a consumir — o que, infelizmente, não é assim tão raro. Tudo o que aqui faz Blackburn é convidar o leitor a discutir criticamente, numa linguagem clara e directa alguns dos principais problemas, teorias e argumentos da filosofia. Só que, como começa por nos advertir, isso implica que tenhamos de questionar “conceitos, processos e convicções que habitualmente nos limitamos a usar”, o que exige destreza de pensamento e, por isso mesmo, pode ser bem ou mal feito. E não restam dúvidas de que Blackburn o faz bem, de forma rigorosa, inteligente e até com humor.

Assim, Blackburn convida-nos a encontrar resposta para perguntas sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre nós e o mundo, tais como: “o que sou eu?”, “o que é a consciência?”, “será que posso ter a certeza de que as experiências e sensações das outras pessoas são como as minhas?”, “será que agimos sempre em função do nosso interesse próprio?”, “será que sou uma espécie de fantoche, programado para fazer as coisas que penso fazer em função do meu livre-arbítrio?”, “por que razão é a natureza regular?”, “será que o mundo pressupõe um Criador?”, “como podemos ter a certeza de que o mundo é realmente como pensamos que é?”, “o que é o conhecimento, e que quantidade de conhecimento temos?”, “que métodos fidedignos usamos para distinguir a verdade da falsidade?”.

Estas e outras perguntas surgem logo no início de cada um dos oito capítulos em que Blackburn discute os problemas de algumas das principais disciplinas filosóficas: epistemologia, metafísica e lógica, mas também filosofia da mente, filosofia da religião e ética. Os oito capítulos que constituem o livro, intitulados Conhecimento, Mente, livre-arbítrio, O eu, Deus, Raciocínio, O mundo e O que fazer, surgem por esta ordem de forma natural, quase como se tratasse de uma história com princípio, meio e fim — aliás, o último tópico do livro intitula-se precisamente Despedida — impedindo-nos, assim, de ficar com a sensação de que cada capítulo nada tem a ver com o anterior. Até porque o autor frequentemente usa argumentos discutidos em capítulos anteriores, integrando-os na discussão de novos problemas. Convém, contudo, salientar que Blackburn nunca deixa que os diferentes problemas se confundam, pois a sua primeira preocupação é a de formular claramente o que está em causa em cada capítulo. Para isso recorre constantemente a exemplos de carácter prático, permitindo ao leitor compreender o tipo de problemas se procura discutir.

Em relação à discussão propriamente dita dos problemas, uma coisa que Blackburn não faz, mas que é muito frequente nos maus livros de filosofia, é limitar-se a expor o que os filósofos disseram sobre o assunto. Não porque o autor despreze ou ache desinteressante o que os grandes filósofos disseram. Bem pelo contrário, sempre que se justifica traz à discussão as teorias e argumentos de alguns dos grandes filósofos como Descartes, Berkeley, Leibniz, Hume, Kant ou Wittgenstein. Não são raras as vezes em que os cita. Só que procura sempre reformular os argumentos desses filósofos numa linguagem mais acessível, de maneira a tornar completamente claras as suas premissas e conclusões para, seguidamente, proceder à sua avaliação crítica. Interpretar adequadamente o que os grandes filósofos escreveram, sem que isso se transforme numa repetição inútil e acrítica, da qual pouco mais costuma resultar além da hipnose do intelecto, é aliás uma das competências filosóficas que este livro estimula de forma brilhante. Mas a interpretação das teorias dos grandes filósofos deve servir apenas o propósito de perceber melhor se tais teorias resolvem adequadamente os problemas que pretendiam resolver e se são verdadeiras ou falsas. O seu interesse filosófico esgota-se aí.

Outra característica da boa filosofia, amplamente exibida neste livro, é a utilização criteriosa de informação empírica relevante para a discussão e avaliação dos argumentos em disputa, nomeadamente a utilização da informação científica disponível. Blackburn fá-lo de forma irrepreensível. A par disso confronta-nos frequentemente com interessantes experiências mentais, as quais servem para testar os argumentos que vão sendo apresentados.

Enfim, Blackburn consegue fazer com a filosofia algo de semelhante ao que Sagan faz com a ciência. Por isso a tradução deste livro — aliás, muito competente, como é timbre da excelente colecção Filosofia Aberta — é um verdadeiro acontecimento filosófico nacional.

Aires Almeida

Texto publicado na revista Livros (n.º 21, Junho 2001)