Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos
Outubro de 2001 ⋅ Filosofia Aberta

Capaz e ambiciosa

André Barata
Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, org. por João Branquinho e Desidério Murcho
Gradiva, Agosto de 2001, 744 pp.
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Com a publicação de "Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos", estudantes, investigadores e público em geral passam a contar com uma excelente forma de aceder ao vocabulário técnico com que hoje em dia, e cada vez mais, se trabalha em Filosofia. Pelo menos em certa opção filosófica que nos habituámos a reconhecer pelos nomes de Filosofia de tradição analítica, Filosofia anglo-americana ou ainda "Estudos Lógico-filosóficos" (em clara lembrança de Wittgenstein e do seu "Tractatus Logico-Philosophicus"). Como se explica no prefácio, trata-se de um tipo de "investigação logicamente disciplinada, no sentido de nela se fazer um uso intenso de conceitos, técnicas e métodos provenientes da disciplina de Lógica". Sob este prisma, os "estudos lógico-filosóficos" perpassam áreas temáticas diversas, tais como Filosofia da linguagem, Filosofia da mente ou do conhecimento, mas também ontologia e até mesmo, mais recentemente, a metafísica — curiosamente, até há bem pouco palavra com forte carga pejorativa neste tipo de estudos.

As centenas de entradas que compõem o volume enunciam de forma rigorosa e exaustiva o sentido dos termos que hoje se empregam nas disciplinas lógicas (o que permite um estudo muito prático no âmbito preciso da Lógica Moderna) e expõem muitos dos conceitos que são alvo de acesa discussão em estudos de Metafísica e Ontologia, bem como alguns dos mais importantes argumentos na bibliografia filosófica contemporânea. Desta pluralidade resultam naturais diferenças de entrada para entrada, saltando à vista, além da excelente qualidade do todo, um muito apreciável conjunto de pequenos artigos que, por assim dizer, valem como ensaios condensados (ex.: "funcionalismo", "metáfora", "possibilia", ...).

Outro mérito a assinalar é o de estarmos perante uma obra de autores portugueses e não de uma mera tradução (o que já por si seria meritório). Mostra-se assim viva uma comunidade filosófica capaz e ambiciosa, que conta com muitos jovens investigadores ainda sem destino certo no que respeita ao seu futuro profissional, ao lado de alguns nomes de créditos firmados como M. S. Lourenço, António Marques, João Branquinho, António Zilhão, João Sàágua, entre outros.

O preço da primeira edição, já quase esgotada, é admiravelmente modesto, resultando de fortes apoios financeiros da Fundação para a Ciência e para a Tecnologia (FCT) e da Faculdade de Letras de Lisboa. Seria louvável, atendendo à qualidade e prestabilidade escolar e académica desta obra, que novas edições igualmente apoiadas pudessem fazer desta enciclopédia um manual corrente nos estudos filosóficos portugueses.

André Barata
Texto publicado no jornal Público (29 Setembro 2001)
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