Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos
Novembro de 2001 ⋅ Filosofia Aberta

Uma obra única

Aires Almeida
Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, org. por João Branquinho e Desidério Murcho
Gradiva, Agosto de 2001, 744 pp.
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Pouco mais de um mês após a sua publicação, a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, organizada por João Branquinho e Desidério Murcho, encontra-se praticamente esgotada. Será isso surpreendente numa obra de filosofia, ainda por cima localizada na área dos chamados “estudos lógico-filosóficos”? Por um lado sim, mas por outro não.

Em primeiro lugar, parece surpreendente porque os estudos lógico-filosóficos são em Portugal uma área quase exótica, mesmo no seio das instituições universitárias em que se aprende filosofia. Instituições em que, aliás, até o simples estudo das mais elementares noções de lógica e de argumentação está longe de ser uma realidade. Na maioria dos casos o que aí se aprende é qualquer coisa parecida a uma história da lógica, mas sem lógica. Por isso não admira a quantidade de disparates sobre lógica que alguns manuais do secundário reproduzem e acabam por transmitir erradamente aos adolescentes do nosso país. Por isso também não admira que muitos professores de filosofia se dêem ao luxo de exibir o seu desprezo em relação à lógica, considerando-a frequentemente como uma espécie de censura inibidora do livre pensamento. Mais ou menos como se ao aprender música as pessoas estivessem apenas a inibir a sua livre capacidade de criação musical. Nada neste cenário faria esperar o sucesso da Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos.

Mas tal sucesso já deixa de ser surpreendente se pensarmos que se trata de uma obra única. Única porque reúne características que, em conjunto, são difíceis de encontrar em qualquer outra obra desta área em Portugal. Desde o rigor científico dos seus artigos, garantido pela qualidade dos colaboradores que os assinam, até ao seu carácter interdisciplinar, esta enciclopédia vem ainda ocupar um lugar até agora completamente vazio. Daí que não seja muito arriscado afirmar que esta tem todas as condições de se tornar a grande obra de consulta em português, em disciplinas como a lógica (lógica aristotélica, lógicas modernas e lógica matemática), a metafísica, a ontologia, a filosofia da linguagem, a teoria do conhecimento, a filosofia da mente e a filosofia da matemática. Mas também se podem encontrar nela artigos sobre tópicos relacionados com a filosofia da ciência, com a psicologia cognitiva e com a inteligência artificial.

Entre os colaboradores encontram-se nomes como os dos professores M. S. Lourenço, António Marques, Fernando Ferreira e A. Franco de Oliveira, mas também figuras internacionalmente prestigiadas como Paul Boghossian, da Universidade de Nova Iorque, Paul Horwich e David Papineau, da Universidade de Londres ou Timothy Williamson, da Universidade de Oxford. E, facto notável, houve ainda lugar para jovens investigadores portugueses, cujos artigos são sempre rigorosos e informativos.

Apesar de todos os artigos procurarem ter um carácter introdutório, muitos deles poderão parecer, mesmo assim, algo avançados para alguns dos potenciais interessados neste livro. A razão disso prende-se com o facto de haver tópicos que são pela primeira vez tratados numa obra de língua portuguesa. Há, contudo, uma enorme quantidade de artigos muito bons e que qualquer pessoa pode ler sem dificuldades de maior. Só para dar alguns exemplos ao acaso de artigos bastante informativos e acessíveis: indução, teorias da verdade, falácia (e os artigos sobre as diferentes falácias), o positivismo lógico, filosofia da linguagem comum, dedução, argumento ontológico, lógica. Também os artigos sobre as diferentes lógicas (intuicionista, epistémica, paraconsistente, polivalente, relevante, difusa, deôntica, etc.) podem ser altamente informativos, principalmente para quem pensa que a lógica se reduz a meia dúzia de inferências imediatas ou a meia dúzia de regras dos cálculos proposicional e de predicados.

Uma obra como a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos dificilmente pode ser levada a cabo, principalmente no nosso país, sem os indispensáveis apoios institucionais. Facto raro no panorama filosófico português, ela começou como um projecto colectivo de investigação da Sociedade Portuguesa de Filosofia, dirigido pelo professor M. S. Lourenço. Projecto esse que veio a ser inteligentemente apoiado pela Fundação para Ciência e a Tecnologia e também pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Razão pela qual esta primeira edição da enciclopédia pôde ser posta à venda por um preço a que já não estávamos habituados em livros desta envergadura.

Livros como este fazem ter alguma esperança no futuro da filosofia em Portugal. Numa filosofia feita com rigor, competência e profissionalismo, e de acordo com os padrões de qualidade que se verificam nos países filosoficamente mais estimulantes. O sucesso deste livro é mais do que merecido.

Aires Almeida
aires.almeida@netcabo.pt
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