Menu
Maio de 2003   Filosofia Aberta

Ponderação e sabedoria

O Significado das Coisas: A Aplicação da Filosofia à Vida
de A. C. Grayling
Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Gradiva, Abril de 2003, 244 pp.

Poderemos ter uma vida plena de significado no mundo moderno, com as religiões em crise ou cristalizando-se em fanatismos primevos? Poderá a filosofia dar-nos respostas que nos orientem na vida e no pensamento? A resposta de A. C. Grayling a estas duas perguntas é um retumbante “Sim”.

Recolhendo máximas de sabedoria das mais diversas fontes, explicando o seu significado ou contestando a sua verdade, o autor condensa nesta obra milénios de sabedoria actualizada para fazer frente ao mundo moderno. Quer concordemos quer discordemos do autor, esta obra dá que pensar e — mais importante ainda — mostra como pensar com lucidez e sem dogmas.

Nesta obra de filosofia aplicada à vida, plena de significado e elegância, A. C. Grayling oferece ao leitor trilhos de sabedoria que se tornaram raros a partir da Antiguidade Grega. O filósofo como pensador que reflecte sobre os significados das coisas e da vida e nos alarga horizontes e aprofunda a compreensão de nós e do mundo tornou-se uma figura rara. Nesta obra plena de serenidade e bonomia, o autor mostra que a filosofia aplicada à vida dá um novo sentido à existência civilizada, lúcida e reflectida.

Do máximo interesse para todas as pessoas que procuram dar um significado pleno às suas vidas, esta é uma obra que lemos e relemos, que guardamos e relembramos.

Sobre o autor

A. C. Grayling é Leitor de Filosofia no Birkbeck College da Universidade de Londres. Autor do aclamado An Introduction to Philosophical Logic (Blackwell, 3.a ed., 1997), de Russell (Oxford University Press, 1996) e Wittgenstein (Oxford University Press, 1988), organizou os volumes Philosophy: A Guide Through the Subject (Oxford University Press, 1995) e Philosophy: Further Through the Subject (Oxford University Press, 1998), que imediatamente se tornaram obras de referência. Um dos mais respeitados filósofos da tradição analítica, A. C. Grayling revela no presente livro o verdadeiro alcance universal desta forma de encarar a filosofia, que a devolve às suas origens mais nobres do pensamento logicamente articulado e conceptualmente rigoroso.

Excerto

"O igualitarismo acrítico representa uma ameaça à excelência, vista pelo homem democrático como uma causa facilmente eliminável de inveja e exclusão."
Alexis de Tocqueville

Quando Matthew Arnold escreveu Culture and Anarchy, há mais de cem anos, definiu a procura da excelência no apoio à cultura como “chegar ao conhecimento, no que concerne todos os assuntos que mais nos interessam, do melhor que foi pensado e dito no mundo, e, através deste conhecimento, deixar fluir o pensamento novo e livre sobre as nossas noções e hábitos comuns”. Matthew Arnold era inspector das escolas, um grande defensor do ensino superior, e acreditava na excelência do ensino como forma não apenas de prover a economia de pessoal habilitado como também de produzir uma sociedade culta que pusesse em prática o ideal referido na máxima aristotélica acerca da utilização culta do nosso lazer.

Da China à França, todo o país que é ou aspira a ser desenvolvido tem um estrato educacional de elite que visa receber os estudantes mais dotados e oferecer-lhes a melhor formação intelectual possível. Na China, isto é feito desde tenra idade, havendo escolas especiais para as crianças mais inteligentes. Na França, o sistema das Hautes Écoles — universidades superiores o acesso às quais é ferozmente competitivo — selecciona os espíritos excepcionais e submete-os a uma disciplina rigorosa. Em todos os casos, o objectivo é realçar os melhores, por forma a obter a melhor qualidade nos domínios da ciência, da engenharia, do direito, na administração pública, na medicina e nas artes.

Poucas pessoas poderão colocar objecções à base racional que se encontra por detrás disto. Exceptuam-se aquelas para quem a mediocridade universal constitui um preço que merece a pena pagar pela igualdade social. Mas há um perigo em que os meios meritocráticos para o cultivo da excelência podem incorrer: é como se, após o estabelecimento dos meios, o mérito, por si só, deixe de bastar, assumindo-se o dinheiro e a influência como critérios suplementares. Em muitos dos países do mundo — talvez a maioria —, o dinheiro e a influência são determinadores da progressão social, mesmo nos locais onde vigoram igualmente os critérios meritocráticos: na América, é necessário dinheiro para se obter vantagens sociais; na China, ajuda ser membro do Partido.

Os ricos e bem relacionados não constituem o tipo de elite que um sistema educativo deveria encorajar. É fácil, para os jornais sensacionalistas e os políticos populistas, fazer uso pejorativo do termo “elite” para designar estas elites da injustiça — mas estes são igualmente rápidos a criticar os médicos, professores ou desportistas representantes do país que não correspondam às nossas maiores expectativas — se, em suma, eles não se revelarem, afinal, uma elite, no sentido correcto do termo.

Embora existam poucas — a existirem algumas — democracias verdadeiras no mundo (a maior parte dos sistemas que reivindicam este título são oligarquias electivas), o espírito democrático, apesar disso, perpassa a vida ocidental, para o bem e para o mal. O bem reside na pressão que é feita no sentido de se tratar todas as pessoas de forma justa; o mal reside na pressão que é feita no sentido de tornar todas as pessoas idênticas. Este último constitui uma tendência de nivelamento, uma impulsão para baixo, à qual a excelência desagrada porque ergue montanhas onde o espírito democrático-negativo apenas deseja ver planícies. Mas a democracia não devia ter como objectivo reduzir as pessoas e os seus feitos a um denominador comum; devia visar elevá-las, ambiciosa e drasticamente, até tão perto quanto possível de um ideal. E isso significa, entre outras coisas, ter instituições, especialmente de ensino, que sejam as melhores e mais exigentes do seu género.

Índice

Introdução

PARTE I: Virtudes e Atributos

Moralizar
Tolerância
Misericórdia
Civilidade
Compromisso
Medo
Coragem
Derrota
Mágoa
Morte
Esperança
Perseverança
Prudência
Franqueza
Mentira
Perjúrio
Traição
Lealdade
Culpa
Castigo
Delírio
Amor
Felicidade

PARTE II: Inimigos e Falácias

Nacionalismo
Racismo
Especismo
Ódio
Vingança
Intemperança
Depressão
Cristianismo
Pecado
Arrependimento

Milagres
Profecia
Virgindade
Paganismo
Blasfémia
Obscenidade
Pobreza
Capitalismo

PARTE III: Amenidades e Bens

Razão
Ensino
Excelência
Ambição
Representar
Arte
Saúde
Lazer
Paz
Leitura
Memória
História
Chefia
Viagens
Privacidade
Família
Velhice
Presentes
Ninharias