O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
15 de Novembro de 2005 ⋅ Ensino da filosofia

Ensino

A. C. Grayling
Birkbeck College London

Só os cultos são livres.
Epicteto

O ensino — e, em especial, o "ensino liberal" — é aquilo que torna possível a sociedade civil. Isto significa que possui uma importância ainda maior do que a sua contribuição para o êxito económico, que, infelizmente, é apenas aquilo para que os políticos pensam que serve.

Para compreendermos o papel civilizador e ético do ensino liberal, precisamos de fugir às definições limitadas de "moral", tal como foram concebidas nos tempos modernos (isto é, desde o século XVII), e regressar a uma concepção clássica, mais abrangente, de "ética". Tal como a noção é actualmente aplicada, a moral aplica-se apenas a uma parte da vida — a alguns aspectos das relações humanas e a alguns aspectos do carácter e do comportamento. Ninguém considera questões morais comer bananas, escolher trabalhar num banco vulgar ou numa instituição de crédito à habitação ou escolher pintar a casa com determinadas cores. Os gregos antigos pensavam de modo diverso. Para eles, toda a vida era uma questão ética: vive-se e procede-se bem enquanto pessoa completa, e tanto a nossa prosperidade como o efeito que exercemos sobre os outros emanam de todo o nosso carácter. Por esta razão, a vida tem de ter reflexão — lembra a máxima de Sócrates —, e só pode ter reflexão se for informada. E é neste passo que entra o ensino liberal.

Com "ensino liberal" refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhes um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimento humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.

A visão é utópica: não há dúvida de que existiam oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás — portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimentos e o discernimento medíocre.

O ensino liberal é um ideal em vias de extinção no ocidente contemporâneo, e em particular nas regiões anglófonas. O ensino restringe-se sobretudo aos jovens e já não é um ensino liberal enquanto tal, mas algo menos ambicioso e demasiado exclusivamente orientado para os fins específicos — e claro que, sob outros aspectos, muito importantes — do mercado de trabalho. Isto é uma perda, pois o objectivo do ensino liberal é produzir pessoas que prossigam a aprendizagem após o seu ensino formal ter terminado — que pensem, que questionem, e saibam como encontrar respostas quando precisam delas. Isto é especialmente importante no caso de dilemas políticos e morais que se colocam na sociedade, que surgirão sempre e sempre terão de ser renegociados. Portanto, os membros de uma comunidade não se podem permitir não reflectir ou estar mal informados, se se pretende que a sociedade civil seja sustentável.

O ensino de nível superior é caro e exige um investimento importante por parte da sociedade. Mas alcançar o objectivo do ensino de qualidade elevada proporciona recompensas cintilantes. Promete produzir uma maior proporção de pessoas que não se limitem a ser peões na luta económica, ajudando-as tanto a obter como a dar mais na sua experiência social e cultural, e a ter vidas mais realizadas e participativas tanto no emprego como fora dele — especialmente nas amenidades das relações sociais e nas responsabilidades do compromisso cívico e político. As pessoas melhor informadas e que mais reflectem têm uma maior probabilidade de mostrar consideração do que aquelas que são — e a quem se permite que continuem a ser — ignorantes, mesquinhas, egoístas e incorrectas no sentido profundo que caracteriza tanta da experiência humana actual.

É inegável que o ensino constitui uma preparação essencial para a vida e para o trabalho, numa economia avançada. As economias modernas requerem trabalhadores especializados e motivados, que só podem tirar partido das oportunidades que lhes são oferecidas se se encontrarem aptos a responder às suas exigências. Isto é já uma ideia adquirida.

Mas uma grande parte do problema do ensino reside no facto de esta relação se ter tornado demasiado directa. Aristóteles afirmou que nos cultivávamos para conseguirmos dar uma utilização nobre ao nosso lazer — esta é uma perspectiva completamente oposta à convicção contemporânea de que nos cultivamos para conseguir um emprego. Neste ponto, a perspectiva contemporânea distorce o objectivo da instrução, visando o desenvolvimento dos indivíduos não como fins em si, mas como instrumentos do processo económico.

A solução consiste em distinguir ensino e treino, reconhecer que as pessoas precisam de ambos e não ter pejo em referir o que o segundo implica. As crianças precisam de ser treinadas na tabuada, na leitura, na ortografia e na escrita, exactamente como um atleta treina o seu corpo: é necessário um treinador, repetição e prática. Quando as crianças adquirem competências que conseguem aplicar como um acto reflexo, isso dá-lhes confiança e instrumentos para tirar partido do passo seguinte, que é o ensino propriamente dito: o processo de aprender a pensar e a saber como encontrar e usar informação quando necessário. Acima de tudo, o ensino envolve o refinamento das capacidades de juízo e avaliação — Heraclito observou que o ensino é apenas um meio para atingir um fim: a compreensão — e a compreensão é o valor supremo obtido através do ensino.

Etimologicamente, "educação" significa "conduzir para o exterior" ou "trazer para o exterior", ideia que se deve a uma teoria improvável mas durante muito tempo influente, apresentada por Platão. Acreditava este filósofo que temos almas imortais preexistentes que, no seu estado incorpóreo, conhecem todas as coisas, as quais esquecemos ao nascer. Na teoria de Platão, aprender é, portanto, recordar: a instrução é a actividade de trazer para o exterior aquilo que se encontra imemorialmente alojado nos nossos espíritos. A teoria foi levada para rumos mais sensatos por pensadores posteriores, que viam a educação como a evocação dos talentos e capacidades implícitos ao indivíduo, ao invés de conhecimento inato. Num bom sentido, isto anda mais perto da verdade: ainda pensamos que se pode ajudar a florescer os dons humanos, concedendo-lhes as oportunidades certas.

A. C. Grayling

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado do livro O Significado das Coisas, de A. C. Grayling (Gradiva, 2003)
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