Facing Up: Science and its cultural adversaries
2 de Março de 2010 ⋅ Livros

O pastor, a ovelha e a definição de verdade

Pedro Pereira Romano
Facing Up: Science and its cultural adversaries, de Steven Weinberg
Cambridge, Mass. e Londres: Harvard University Press, 2003, 306 pp.
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Steven Weinberg é um físico peculiar. Apesar de ser o autor do artigo mais citado de sempre da história da física, raramente reserva para as equações que lhe granjearam o prémio Nobel (1979) um papel mais do que secundário nos seus livros. A física e a ciência estão sempre no título; mas quem lê o miolo percebe que os dois temas são apenas bons pretextos para Weinberg fazer arrojadas incursões no campo da filosofia e da religião.

Facing Up traduz em livro esta faceta mais eclética de Weinberg. A obra, de pouco menos de trezentas páginas, reúne mais de vinte ensaios publicados em jornais e revistas, acrescentando a transcrição de alguns discursos feitos em conferências. O subtítulo Science and its cultural adversaries remete para o prolongado e violento debate entre críticos da ciência — desde pós-modernos a sociólogos da ciência de Edimburgo — e os seus defensores, entre os quais Weinberg. O assunto é recorrentemente abordado no livro, apesar de estar longe de lhe ser central.

Viva o reducionismo

Se há um tema central no pensamento de Weinberg (e, de forma mais ou menos directa, transversal a todos os capítulos do livro), esse é sem dúvida o reducionismo. Esta é uma posição filosófica que, tal como enunciada por Weinberg, se resume a duas ideias fundamentais: a) todas as teorias científicas podem, em princípio, ser deduzidas de teorias mais gerais; b) a Física ocupa um lugar de charneira nesta cadeia de explicações, sendo por isso a mais fundamental de todas as ciências.

Esta perspectiva não nega o valor intrínseco de cada disciplina nem a sua utilidade prática. Mesmo que fosse possível compreender toda a Física, ainda assim seria necessário continuar a estudar economia, sociologia e biologia: os objectos destas ciências são tão complexos que não é exequível descrevê-los em termos de átomos e forças a governar as respectivas interacções. E as linguagens de cada disciplina, por outro lado, fornecem já conceitos robustos que permitem captar o essencial de cada fenómeno e dispensar o lateral.

Além disto, uma boa parte dos fenómenos pelos quais temos interesse em estudar biologia ou psicologia só emergem a partir de um certo nível de descrição. Mesmo que a consciência seja resultado da mera interacção de partículas no cérebro, a compreensão desse fenómeno muito dificilmente poderá ser feita sem recurso a conceitos superiores aos de “partículas” e “força”. Uma casa também pode ser descrita através da posição de cada tijolo num espaço tridimensional — mas qualquer avaliação dessa casa (em termos estéticos, por exemplo) terá necessariamente de recorrer a conceitos superiores, como janelas, portas, etc.

O reducionismo não é, por isso, um projecto de canibalização científica. E Weinberg defende que também não é apenas um expediente para desviar fundos públicos destinados à investigação das ciências “superiores” para a física das partículas. No fundo, o reducionismo é apenas uma crença em relação ao próprio funcionamento da natureza. É a ideia de que todos os fenómenos são expressões diferentes de certos princípios fundamentais, tal como a queda de uma maça e a órbita lunar são o resultado da acção da mesma força: a gravidade. O mundo, segundo o reducionismo, é um jogo gigantesco e complexo mas que, na sua essência, é regido por regras simples.

A ideia de que as ciências podem, pelo menos em princípio, ser reduzidas umas às outras tem produzido críticas ácidas não apenas de alguns campos das ciências humanas mas também e alguns teóricos das próprias ciências “duras” — o biólogo Ernst Mayer é o maior exemplo deste último grupo. Weinberg defende a sua dama com dois argumentos empíricos.

Em primeiro lugar, basta apontar para a história da ciência do século XX para revelar que a tendência para reduzir ciências a ciências tem sido uma constante. A estrutura dos elementos químicos, por exemplo, explica-se hoje em dia através das leis da física. A macroeconomia também tem procurado uma fundamentação cada vez mais rigorosa em termos de leis microeconómicas — que têm, por sua vez, sido objecto de análise empírica através da moderna neuroeconomia. E a própria termodinâmica, que antes se pensava ser um campo fundamental, pode agora ser explicada através de conceitos mais profundos da mecânica quântica. Um diagrama com explicações científicas não mostraria, hoje em dia, um campo de coutadas separadas mas uma árvore bastante ramificada apoiada numa raiz robusta. No fundo, todas as explicações convergem — e, acrescenta Weinberg, a última explicação é física.

Em segundo lugar, Weinberg argumenta que o reducionismo está quase sempre implícito em qualquer actividade científica. Há seguramente biólogos ou químicos interessados em compreender os eventos únicos do respectivo campo; a genética permite explicar os princípios que presidem às mutações, mas não é possível explicar o que é que conduziu a uma mutação concreta — é um acidente histórico irredutível a qualquer teoria mais fundamental. Contudo, qualquer biólogo que deseje criar uma nova teoria — ou expandir uma já existente — terá necessariamente de recorrer a conceitos mais fundamentais do que aqueles com os quais trabalha. Ao passo que o progresso na engenharia se faz de baixo para cima, transformando colmos em edifícios e edifícios em arranha-céus, o progresso da ciência faz-se de cima para baixo, reduzindo a selecção natural à genética e esta aos fenómenos químicos.

Esta ideia poderosa fornece também um crivo que todos utilizamos na avaliação das teorias científicas. Acreditamos que a sopa é boa porque é composta por um conjunto de elementos que sabemos à partida que fazem bem ao organismo. E estaríamos dispostos a acreditar que o conjunto é nefasto caso fosse providenciada uma explicação mostrando como a soma das partes dá origem a doenças. Tal como em economia, um mercado com vários competidores assegura resultados eficientes mas um mercado com poucos competidores assegura resultados longe da eficiência.

Mas dificilmente acreditaríamos em alguém que dissesse que a sopa faz bem porque há uma lei fundamental das sopas, irredutível a qualquer lei mais geral, que estabelece que as sopas são uma bênção para o organismo. Curiosamente, é a esta ideia de campos separados que grande parte das pseudociências, como a astrologia, recorre para se justificar. Weinberg nota que o princípio reducionista é, na prática, um filtro útil pelo qual todos, ou praticamente todos, obrigam as teorias a passarem. As teorias científicas não são avaliadas pelas conclusões que implicam mas pela natureza das explicações que providenciam.

Um mundo impessoal

As descobertas científicas dos últimos séculos mostram que a natureza parece ser regida por princípios rígidos e progressivamente mais simples. O progresso científico tem sido feito através de terrenos cada vez mais inóspitos que implicam uma capacidade de abstracção cada vez mais desenvolvida. As “forças à distância” de Newton tornaram-se numa geometria do espaço-tempo descrita por matemáticas não euclidianas; e, um dia esta geometria, espera-se, tornar-se-á apenas a vibração de uma corda que existe num espaço a dez ou mais dimensões. O reducionismo aponta para um mundo matemático e pouco humano.

Este exigente exercício de conceptualização está de acordo com a ideia de que o mundo é profundamente mais complexo do que aquilo que os seres humanos inicialmente pensavam. Mas choca de forma violenta com a ideia de que o mundo foi criado por um Deus todo-poderoso, pelo menos na sua forma bíblica mais popular. Quanto mais escavamos, mais encontramos indícios de que somos apenas uma parte irrelevante do Universo. Ao contrário do que afirmaram muitos teólogos, a compreensão do mundo dispensa Deus — e, na verdade, até repele muitas das hipóteses auxiliares que o sustentaram durante séculos a fio.

Por “hipóteses auxiliares” entende-se todo o tipo de hipóteses que, não sendo absolutamente necessárias para que se admita a possibilidade da existência de um Deus, são no entanto cruciais para a ideia típica do Deus cristão no qual a maioria das pessoas acredita. Esta questão é explicitada por Weinberg da seguinte forma: qualquer Universo é compatível com um Deus absolutamente abstracto; de facto, mesmo um Universo caótico sem qualquer princípio ordenador pode ser atribuído a um Deus extremamente poderoso mas completamente incompetente. Mas não é neste tipo de Deus que as massas acreditam; no centro da crença popular está o Deus popularizado pela Bíblia: um ser pensante, que se importa connosco, que responde às preces, que é bondoso.

Todas estas características são hipóteses auxiliares — que, invariavelmente, chocam com os dados que obtemos do mundo. À medida que investigamos, tomamos consciência de que a ideia de que Deus criou os seres humanos como seres únicos não bate certo com a conclusão de que somos apenas o resultado de evolução natural, guiada por princípios impessoais. Da mesma forma, torna-se claro que um Deus todo-poderoso e infinitamente bondoso parece incompatível com a quantidade de guerras, fomes e pragas que testemunhamos.

A ideia de Deus torna-se facilmente interpretável à luz do contexto em que surgiu: um povo nómada que vagueava pelo deserto, desconhecendo por completo a vastidão do Universo. A ideia de que Deus é produto do imaginário popular — algo que já aplicamos a praticamente todos os outros deuses — é um dado compatível com o que sabemos da física, da química e da psicologia humana. A nossa compreensão parece aumentar na mesma medida em que a ideia de um Deus pessoal vê o seu campo de acção diminuído.

Da mesma forma, Weinberg também é céptico quanto à ideia popular de que a religião tem sido importante para promover a coesão social, fornecendo uma base moral para a paz entre os homens. É verdade que há passagens belas e inspiradoras na Bíblia. Mas também há passagens hediondas e que são, de todos os pontos de vista, moralmente criticáveis. Tal como em todos os livros, há de tudo.

A interpretação que prevalece actualmente acentua as passagens que são socialmente mais toleráveis, mas isto apenas aconteceu recentemente. Durante séculos, as partes mais repugnantes foram sucessivamente utilizadas como argumento para os mais sangrentos actos da história europeia. E nada explica esta mudança de interpretação: não foram descobertos novos textos sagrados, não houve novos profetas e Deus não desceu à Terra para prestar sessões de esclarecimento de exegese bíblica. Um olhar desapaixonado revela que não foi tanto a Bíblia a influenciar a moral do nosso tempo mas mais a moral do nosso tempo a influenciar a leitura que se faz da Bíblia.

Pela ciência objectiva

De forma relativamente autónoma surgem as intervenções de Weinberg em relação às science wars — o conflito latente entre as ciências duras e os intelectuais que duvidam das pretensões da ciência à objectividade, um grupo tradicionalmente agrupado sob o rótulo grosseiro de pós-modernos (como Weinberg mostra, o grupo é heterogéneo: contém desde os pós-modernos até adeptos do Programa Forte da sociologia da ciência de Edimburgo, cépticos como Feyerabend e historiadores desencantados).

Weinberg centra as suas críticas no celebérrimo historiador e filósofo Thomas Kuhn. O americano, que curiosamente começou a sua carreira como físico, foi um dos primeiros a pavimentar o terreno para o ataque grosseiro às várias ciências, ao introduzir o termo “paradigma”, um conceito volátil que designa os quadros de referência dentro dos quais cada teoria científica é avaliada. Como os paradigmas, diz Kuhn, são incomensuráveis, não há um terreno comum onde todas as teorias possam ser avaliadas no mesmo plano. O conhecimento científico é, assim, necessariamente relativo.

Para Weinberg, esta ideia é um embuste. Na sua opinião, Kuhn foi iludido pelo facto de ter centrado a sua análise na história da física e, em particular, de um evento muito especial: a passagem da física aristotélica, feita de essências e qualidades, à física newtoniana, de natureza quantitativa. Este foi, de facto, uma mudança de paradigma; Aristóteles é quase inconcebível para os físicos de hoje e as ideias de Newton teriam sem dúvida sido completamente estranhas a Aristóteles.

Mas esta mudança foi uma em muitas. Desde então, a física tem crescido de forma sustentada e a ideia de paradigmas não se aplica. O critério de avaliação das teorias de Newton a Einstein, passando por Maxwell e Planck, tem sido quase sempre o mesmo: experiência, teoria, factos.

Kuhn exagerou no grau de incomensurabilidade que atribuiu às teorias científicas. Mas os seus seguidores fizeram mais e partiram de bases tíbias para tentar sustentar conclusões muito mais robustas, afirmando inclusive a própria inexistência da verdade.

As acusações são suficientemente violentas para que Weinberg perca muitas páginas a tentar perceber a fundo o que pretendem estes cépticos. O esforço sincero produz resultados e Weinberg conclui, ao fim e ao cabo, que as pretensões são, na verdade, bem menos violentas do que o inicialmente afirmado. As conclusões de Weinberg sintetizam-se da seguinte forma: a) ao contrário do que se costuma dizer, uma boa parte de alguns críticos da ciência sabe de facto do que estão a falar, ainda que nem sempre tal aconteça; b) poucos duvidam de facto da existência de uma realidade objectiva; c) muitas das críticas fazem sentido, nomeadamente quanto se focam nos limites das ciências e nos entraves sociais e humanos que se colocam à actividade científica enquanto actividade humana.

As pretensões dos pós-modernos são, por isso, muito mais razoáveis do que o inicialmente parecia. Mas são também mais banais. As ideias são muitas vezes consensuais: os cépticos apenas lhes atribuem um valor e um peso desproporcionado. É pacífico que a inveja no meio académico é um entrave ao progresso científico; mas é falso que o impeça em absoluto. Depois de descascar a fundo o cepticismo anti-científico, resta apenas um núcleo débil de lugares-comuns que poucos põem em causa.

Mas não é só isto que Weinberg critica. O físico também aponta baterias, de forma mais geral, a muitos filósofos que tentaram enclausurar a ciência numa definição. Apesar de todas as tentativas (Popper será sem dúvida o mais conhecido), a filosofia da ciência, argumenta Weinberg, tem sistematicamente falhado em produzir uma definição apropriada de ciência que seja útil ou aponte caminhos aos cientistas. Seja a malha apertada ou larga, parece que a essência da ciência consegue sempre contornar essa peneira e seguir caminho por outra via.

Da filosofia esperava-se ajuda na conceptualização de alguns conceitos, e no aprimoramento de algumas metodologias. Mas um olhar desapaixonado revela que a filosofia tem servido mais para gerar discussões estéreis e irrelevantes para a ciência do que propriamente para abrir caminhos. Fez-se ciência antes de Popper e continuou a fazer-se depois dele mais ou menos da mesma forma. Nas poucas vezes em que a filosofia da ciência foi útil, foi apenas para salvar a ciência das armadilhas já colocadas pela filosofia.

Assim, segundo Weinberg, a filosofia da ciência tem conseguido ser uma fonte de debate boa a gerar problemas mas inapta para providenciar soluções. Um dos problemas é, provavelmente, que os problemas que gera e apresenta como entraves à ciência são problemas filosóficos e não científicos. Criticar o trabalho de um cientista por continuar a trabalhar em física apesar de não conseguir definir concretamente o conceito de “verdade” é como criticar um pastor por não saber definir ovelha e continuar a pastoreá-las. Tal como os cientistas sabem reconhecer a verdade quando a vêem, também os pastores sabem reconhecer uma ovelha quando a vêem. Os problemas implícitos são tarefas, não do cientista ou do pastor, mas do filósofo e do taxonomista. E, se são criadas por eles, pois que sejam eles a resolvê-las.

O “desencantamento” de Weinberg com a filosofia da ciência é curioso num homem que, como este livro comprova, está habituado a filosofar. Paradoxalmente, este é um excelente livro para quem e interessa pela filosofia da ciência, escrito pela pena de um homem que a viveu de perto nos últimos 50 anos. O livro está muito bem escrito, é cativante e de leitura fácil. O único senão é o facto de alguns dos ensaios, escritos independentemente ao longo de muitos anos, acabarem, por vezes, por se pisar uns aos outros. Ainda assim, a obra é imprescindível para conhecer melhor o pensamento de um dos físicos mais entusiasmantes das últimas décadas, na esteira de Sagan e Feynman.

Pedro Pereira Romano
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