Dov'è la felicita? de Lilli
8 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Podem os socialistas ser felizes?

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

Pensar no Natal faz pensar quase automaticamente em Charles Dickens, e por duas boas razões. Para começar, Dickens é um dos poucos escritores ingleses que escreveu efectivamente sobre o Natal. O Natal é a mais popular das festividades inglesas, mas produziu apesar disso e surpreendentemente pouquíssima literatura. Há os cânticos de Natal, cuja maioria é de origem medieval; há uma pequeníssima mão-cheia de poemas de Robert Bridges e T. S. Eliot, entre outros, e Dickens; mas pouco mais há. Em segundo lugar, Dickens é notável, na verdade quase único, entre os autores modernos, por ser capaz de apresentar uma imagem convincente da felicidade.

Dickens lidou duas vezes com o Natal, de modo bem-sucedido — num conhecido capítulo de The Pickwick Papers e em The Christmas Carol. A segunda história foi lida a Lenine no seu leito de morte que, segundo a sua esposa, o considerou completamente intolerável o seu “sentimentalismo burguês”. Ora bem, num certo sentido, Lenine tinha razão; mas se estivesse melhor de saúde, talvez tivesse notado que a história tem algumas implicações sociológicas importantes. Para começar, por mais que seja espessa a tinta que Dickens aplica, por mais repugnante que seja o “pathos” de Tiny Tim, a família Cratchit dá realmente a impressão de passar bons momentos. Parecem felizes, ao contrário de, por exemplo, os cidadãos de News from Nowhere, de William Morris. Além disso — e a compreensão que Dickens tem disto é um dos segredos do seu poder — a felicidade da família resulta principalmente do contraste. Estão bem-dispostos porque desta vez têm de certo modo o suficiente para comer. O lobo assoma à porta, mas está a abanar o rabo. O aroma da sobremesa de Natal revolve por entre o pano de fundo de lojas de penhora e de trabalho mal pago, e é num sentido duplo que o fantasma de Scrooge se abeira da mesa do jantar. Bob Cratchit até quer brindar à saúde de Scrooge, o que a Sra. Cratchit rejeita com razão. Os Cratchit conseguem apreciar o seu Natal precisamente porque só acontece uma vez por ano. A sua felicidade é convincente apenas porque é descrita como incompleta.

Todos os esforços para descrever a felicidade permanente, por outro lado, têm sido desastres, desde cedo na história. As utopias (a propósito, a palavra inventada “Utopia” não quer dizer “um lugar bom”, mas apenas “um lugar inexistente”) têm sido comuns na literatura dos últimos três ou quatro séculos, mas as “favoráveis” não são invariavelmente apetecíveis, faltando-lhe também muitas vezes vitalidade.

As Utopias modernas de longe mais conhecidas são as de H. G. Wells. A visão do futuro de Wells, implícita em todo o seu trabalho mais antigo e em parte apresentada em Antecipations e A Modern Utopia, exprime-se de modo mais completo em dois livros escritos no início da década de 1920, The Dream e Men Like Gods. Temos aqui uma imagem do mundo tal como Wells gostaria de ver — ou pensa que gostaria. É um mundo cujos aspectos principais são o hedonismo esclarecido e a curiosidade científica. Todos os males e misérias que agora sofremos desapareceram. A ignorância, guerra, pobreza, sujidade, doença, frustração, fome, medo, excesso de trabalho, superstição — tudo desapareceu. Expresso deste modo, é impossível negar que este é o tipo de mundo que todos desejamos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas haverá alguém que queira efectivamente viver numa Utopia wellsiana? Pelo contrário, não viver num mundo desses, não acordar num jardim de higiénico subúrbio infestado de senhoras professoras nuas, tornou-se efectivamente um tema político consciente. Um livro como Brave New World é uma expressão do medo efectivo que o homem moderno tem da sociedade hedonista racionalizada que está ao seu alcance criar. Um autor católico disse recentemente que as Utopias são agora tecnicamente exequíveis, tornando-se consequentemente um problema sério saber evitar a Utopia. Com o movimento fascista à nossa frente não podemos afastar este comentário como pura tolice. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar um mundo demasiado racional e demasiado confortável.

Todas as Utopias “favoráveis” parecem semelhantes no que respeita a postular a perfeição ao mesmo tempo que são incapazes de sugerir a felicidade. News from Nowhere é uma espécie de versão sonsa da Utopia wellsiana. Toda a gente é simpática e razoável, a decoração vem toda das melhores casas, mas a impressão com que se fica é a de uma espécie de melancolia aguada. O esforço recente de Lord Samuel no mesmo sentido, An Unknown Country, é ainda mais sombrio. Os habitantes de Bensalem (palavra tomada de empréstimo de Francis Bacon) dão a impressão de ver a vida simplesmente como um mal a sofrer com o mínimo espalhafato possível. Tudo o que a sabedoria lhes trouxe foi um desânimo permanente. Mas o mais impressionante é que Jonathan Swift, um dos autores mais imaginativos que alguma vez viveu, não se sai melhor do que os outros na construção de uma Utopia “favorável”.

As primeiras partes de Gulliver's Travels constituem provavelmente o ataque mais devastador à sociedade humana que alguma vez se escreveu. Cada palavra é hoje relevante; algumas passagens contêm profecias minuciosas dos horrores políticos do nosso tempo. Onde Swift falha, contudo, é quando tenta descrever uma espécie de seres que efectivamente admira. Na última parte, em contraste com os asquerosos Yahoos, vemos os nobres Houyhnhnms, uma espécie de cavalos inteligentes que não padecem das imperfeições humanas. Ora, estes cavalos, apesar do seu elevado carácter e robusto senso comum, são criaturas notavelmente desoladoras. Como os habitantes de muitas outras Utopias, a sua principal preocupação é evitar o espalhafato. Têm vidas “razoáveis” e inertes em que nada acontece, não apenas sem altercações, desordem ou insegurança de qualquer tipo, mas também sem “paixão”, incluindo o amor físico. Escolhem os seus cônjuges segundo princípios eugénicos, evitam os excessos de afecto, e parecem de algum modo contentes por morrer quando chega a sua hora. Nas partes anteriores do livro, Swift mostrou aonde a tolice humana e a canalhice nos conduz: mas eliminemo-las e resta-nos apenas, ao que parece, um género tépido de existência, que dificilmente vale a pena.

As tentativas para descrever uma felicidade definitivamente do outro mundo não têm tido mais sucesso. O Céu é um fiasco tão grande quanto a Utopia — apesar de o Inferno, note-se, ocupar um lugar respeitável na literatura, tendo muitas vezes sido descrito muito minuciosa e convincentemente.

É um lugar-comum que o Céu cristão, tal como é habitualmente retratado, não atrairia pessoa alguma. Quase todos os autores cristãos que lidam com o Céu dizem com franqueza que é indescritível ou invocam uma imagem vaga de ouro, pedras preciosas e cânticos sem fim de hinos. É verdade que isto inspirou alguns dos melhores poemas do mundo:

Thy walls are of chalcedony,
Thy bulwarks diamonds square,
Thy gates are of right orient pearl
Exceeding rich and rare!

Ou:

Holy, holy, holy, all the saints adore Thee,
Casting down their golden crowns about the glassy sea,
Cherubin and seraphin falling down before Thee,
That wast, and art, and evermore shalt be!

Mas o que o autor cristão é incapaz de fazer é descrever um lugar ou condição onde o ser humano comum queira activamente estar. Muitos ministros revivalistas, muitos pastores jesuítas (veja-se, por exemplo, o fantástico sermão no A Portrait of the Artist, de James Joyce) aterrorizaram a sua congregação quase irrevogavelmente com as suas imagens lexicais do Inferno. Mas mal se chega ao Céu, foge-se logo para palavras como “êxtase” e “beatitude”, quase nem se tentando dizer em que consistem. Talvez o pedaço mais vital de escrita sobre este tema seja a famosa passagem em que Tertuliano explica que uma das principais alegrias do Céu é assistir às torturas dos danados.

As várias versões pagãs do Paraíso são pouco melhores, se é que realmente o são. Fica-se com a sensação de que nos campos Elísios é sempre crepúsculo. O Olimpo, onde viviam os deuses, com o seu néctar e ambrósia, e as suas ninfas e Hebe, as “cabras imortais”, como D. H. Lawrence lhes chamou, poderá ser um pouco mais parecido aos nossos lares do que o Céu cristão, mas ninguém quereria passar lá muito tempo. Quando ao paraíso muçulmano, com as suas setenta e sete huris para cada homem, todas presumivelmente exigindo atenção ao mesmo tempo, não é senão um pesadelo. Nem os Espiritualistas, apesar de nos assegurarem a toda a hora que “tudo é brilhante e bonito”, conseguem descrever qualquer actividade no mundo do porvir que uma pessoa pensante considerasse passável, quanto mais atraente.

O mesmo acontece com as tentativas de descrever a felicidade perfeita que não são Utópicas nem do outro mundo, mas apenas sensuais. Dão sempre uma impressão ou de vazio ou de grosseria, ou de ambos. No início de La Pucelle Voltaire descreve a vida de Carlos IX com a sua amante, Agnes Sorel. Estão “sempre felizes”, afirma. E em que consistia a sua felicidade? Aparentemente, num ciclo sem fim de festividades, bebida, caça e sexo. Quem não ficaria enjoado de tal existência ao fim de algumas semanas? Rabelais descreve os espíritos afortunados, que passam bons momentos no outro mundo, como consolação de terem passado maus momentos neste. Cantam uma canção que podemos traduzir aproximadamente como se segue: “Saltar, dançar, reinar, beber vinho branco e tinto, e nada fazer todo o dia a não ser contar coroas de ouro” — quão aborrecido isto soa, afinal! O vazio da própria noção de uns “bons tempos” sem fim surge no quadro de Breughel “A Terra dos Preguiçosos”, em que as três imensas massas de gordura dormem, cabeça contra cabeça, caminhando os ovos cozidos e as pernas de porco assadas por si mesmas para serem comidas.

Parece que os seres humanos não são capazes de descrever, nem talvez de imaginar, a felicidade, excepto em termos de contraste. É por isso que a concepção de Céu ou Utopia varia de época para época. Na sociedade pré-industrial o Céu era descrito como um lugar de repouso sem fim, pleno de ouro, porque a experiência do ser humano médio era o trabalho excessivo e a pobreza. As huris do Paraíso Muçulmano reflectem uma sociedade poligâmica em que a maior parte das mulheres desapareciam de vista, pertencendo aos haréns dos ricos. Mas estas imagens de “beatitude eterna” falham sempre porque mal a beatitude se torna eterna (concebendo-se a eternidade como um tempo sem fim), o contraste deixa de operar. Algumas das convenções que ganharam raízes na nossa literatura surgiram de condições físicas que já não existem. O culto da primavera é um exemplo. Na Idade Média, a primavera não significava antes de mais andorinhas e flores silvestres. Significava legumes frescos, leite e carne fresca, depois de meses a viver de carne de porco salgada em cabanas fumarentas sem janelas. As canções primaveris eram alegres

Nada faças senão comer e fazer boa companhia,
E agradece aos Céus um ano alegre
Quando a carne é barata e as mulheres belas,
E os rapazes vigorosos andam para cá e para lá,
Tão alegres,
E sempre tão alegremente!

porque havia razões para estar alegre. O inverno tinha acabado, e era isso que importava. O próprio Natal, uma festividade pré-cristã, começou provavelmente por ter de haver uma explosão ocasional de comida e bebida em excesso, para fazer um intervalo no intolerável inverno nórdico.

A incapacidade da humanidade para imaginar a felicidade excepto na forma de alívio, quer do esforço quer da dor, põe os socialistas perante um problema sério. Dickens pode descrever uma família devastada pela pobreza a atacar um ganso assado, e consegue fazê-los parecer felizes; por outro lado, os habitantes de universos perfeitos parecem destituídos de boa disposição espontânea e são habitualmente, ainda por cima, algo repulsivos. Mas é claro que não visamos o tipo de mundo que Dickens descreve nem, provavelmente, qualquer mundo que ele fosse capaz de imaginar. O objectivo socialista não é uma sociedade em que tudo acaba bem porque senhores idosos generosos oferecem perus. O que visamos senão uma sociedade na qual a “caridade” seja desnecessária? Queremos um mundo em que Scrooge, com os seus dividendos, e Tiny Tim, com a sua perna tuberculosa, sejam ambos impensáveis. Mas significa isso que visamos uma Utopia sem dores nem esforços?

Correndo o risco de dizer algo que os directores do Tribune poderão não sancionar, sugiro que o verdadeiro objectivo do socialismo não é a felicidade. A felicidade tem até agora sido um subproduto, e tanto quanto sabemos poderá sê-lo sempre. O verdadeiro objectivo do socialismo é a irmandade humana. Sente-se muitas vezes que isto é verdade, apesar de não se o dizer habitualmente, ou pelo menos não se diz suficientemente alto. Os homens gastam a sua vida em lutas políticas desoladoras, ou deixam-se matar em guerras civis, ou são torturados nas prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer um Paraíso com aquecimento central, ar condicionado e luzes de néon, mas porque querem um mundo no qual os seres humanos se amam em vez de se burlarem e matarem. E querem esse mundo como primeiro passo. Aonde vão a partir daí não é certo, e a tentativa de o prever com alguma minúcia só confunde a questão.

O pensamento socialista tem de lidar com a previsão, mas apenas em termos gerais. Temos muitas vezes de visar objectivos que vemos apenas imperfeitamente. Neste momento, por exemplo, o mundo está em guerra e quer paz. No entanto, o mundo não tem qualquer experiência da paz, e nunca teve, a menos que o Nobre Selvagem tenha existido. O mundo quer algo de cuja existência possível está vagamente ciente, mas que não pode definir precisamente. Neste dia de Natal, milhares de homens irão sangrar até à morte nas neves da Rússia, ou afogar-se-ão em águas geladas, ou irão rebentar-se entre si com granadas de mão em ilhas pantanosas do Pacífico; os órfãos esgravatarão à procura de comida entre os destroços das cidades alemãs. Tornar este tipo de coisa impossível é um bom objectivo. Mas dizer minuciosamente como seria um mundo pacífico é outra coisa, e tentar fazê-lo tende a conduzir aos horrores tão entusiasticamente apresentados por Gerald Heard.

Quase todos os criadores da Utopia se parecem com o homem que lhe dói os dentes e pensa consequentemente que a felicidade consiste em não ter dor de dentes. Queriam produzir uma sociedade perfeita continuando sem parar algo que só tinha tido valor por ser temporário. Um curso de acção mais sábio seria dizer que há certas linhas em que a humanidade tem de caminhar, a estratégia geral está traçada, mas a profecia meticulosa não é do nosso foro. Quem tenta imaginar a perfeição não faz senão revelar o seu próprio vazio. Isto acontece mesmo no caso de um grande escritor como Swift, que consegue esfolar admiravelmente um bispo ou um político, mas que ao tentar criar um super-homem não faz senão deixar-nos a impressão — a última coisa que queria — de que os malcheirosos Yahoos continham em si mais perspectivas de desenvolvimento do que os esclarecidos Houyhnhnms.

George Orwell
Originalmente publicado no jornal Tribune (24 de Dezembro de 1943)
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