Ciência
16 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia

Ciência, erro e fundamentalismo

Umberto Eco

Li recentemente no jornal que o célebre cientista Stephen Hawking fez uma afirmação sensacional, no mínimo. Defendeu que cometeu um erro na sua teoria dos buracos negros (publicada nos anos 70) e propôs as correcções necessárias, frente a uma audiência de colegas cientistas.

Para quem está envolvido nas ciências nada há de excepcional nisto, à parte o estatuto excepcional de Hawkings, mas eu penso que devemos sublinhar a importância do episódio perante os mais novos de todas as escolas não fundamentalista e não confessionais, de modo a que possam reflectir sobre os princípios da ciência moderna.

Os órgãos de comunicação social criticam muitas vezes a ciência, acusando-a de ser responsável pelo orgulho demoníaco que está a conduzir a humanidade à possível destruição. Mas ao fazê-lo confundem ciência com tecnologia.

Não é a ciência que é responsável pelas armas nucleares, o buraco na camada de ozono, o aquecimento global, etc.; a ciência é aquele ramo do conhecimento que tem ainda a capacidade para nos avisar dos riscos que corremos quando, mesmo na aplicação dos seus princípios, confiamos em tecnologias irresponsáveis.

O problema é que em muitas das críticas da ideologia do progresso (ou do chamado espírito do Iluminismo), o espírito da ciência é muitas vezes identificado com o de certas filosofias idealistas do séc. XIX, de acordo com as quais a história dirige-se sempre para o melhor, ou para a realização triunfante de si mesma, do espírito ou de qualquer outra força vital que está sempre em marcha em direcção a um fim óptimo.

No fundo, contudo, muitas pessoas (pelo menos da minha geração) ficavam sempre na dúvida, ao ler filosofia idealista, pois parecia que todos os pensadores que vieram depois tinham compreendido melhor (ou "verificado") o pouco que tinha sido descoberto pelos que vieram antes (o que é mais ou menos o mesmo do que dizer que Aristóteles era mais inteligente do que Platão). E é esta concepção de história que o poeta italiano Leopardi colocou em causa quando ironizou sobre os "destinos magníficos e progressivos".

Mas hoje em dia, para substituir uma série de ideologias em crise, algumas pessoas fazem a corte cada vez mais com uma escola de pensamento de acordo com a qual o curso da história não nos aproxima cada vez mais da verdade.

De acordo com estas pessoas, tudo o que há para compreender já foi compreendido há muito por civilizações antigas há muito desaparecidas, e só o regresso humilde a esse tesouro tradicional e imutável permite reconciliar-nos connosco e com o nosso destino.

Nas versões mais abertamente ocultistas desta escola de pensamento, a verdade era cultivada por civilizações com as quais perdemos contacto: Atlantis, engolida pelo oceano, os Hiperbóreos, arianos 100% puros que viviam num cimo gelado de uma montanha eternamente temperada, os sábios da antiga Índia e outras divertidas patranhas que, sendo indemonstráveis, permitem que filósofos de terceira categoria e autores comerciais continuem a mastigar versões requentadas do mesmo velho lixo hermético para diversão dos veraneantes.

A ciência moderna não defende que o novo é sempre verdade. Pelo contrário, baseia-se na ideia de falibilismo (enunciada pelo filósofo americano Charles Peirce, trabalhada por Popper e outros autores, e posta em prática pelos próprios cientistas) de acordo com a qual a ciência progride corrigindo-se continuamente a si mesma, falsificando as suas hipóteses por meio da tentativa e erro, admitindo os seus próprios erros — e considerando que uma experiência que não funciona não é um falhanço mas antes algo tão valioso como uma experiência que funciona, pois demonstra que uma dada linha de investigação estava errada e é necessário mudar de direcção ou até começar tudo de novo.

E isto foi o que foi proposto há séculos em Itália, por um instituto de estudos conhecido por Accademia del Cimento, cujo mote era "provando e riprovando". Isto traduzir-se-ia normalmente para português como "tentar uma vez e outra", mas há neste caso uma distinção subtil. Ao passo que em italiano "riprovare" significa normalmente tentar outra vez, neste caso significa "reprovar" ou "rejeitar" o que não pode ser mantido à luz da experiência e da razão.

Este modo de pensar opõe-se, como afirmei, a todas as formas de fundamentalismo, a todas as interpretações literais das escrituras sagradas — que também estão abertas a reinterpretação contínua — e a todas as certezas dogmáticas nas nossas próprias ideias. Esta é a boa "filosofia", no sentido quotidiano e socrático do termo, que tem de ser ensinada nas escolas.

Umberto Eco

Tradução de Desidério Murcho
Publicado originalmente no jornal Guardian, com o título "Testing, Testing..." (4 de Setembro de 2004)
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