Against Deconstruction, de John M. Ellis

Desconstrucionismo e debate académico

John M. Ellis

Ao longo dos últimos anos, a desconstrução tornou-se uma posição influente na crítica e na teoria literárias, e o nome do seu fundador, Jacques Derrida, tem agora mais audiência do que ninguém nas discussões teóricas nessas áreas. Durante este período, ouvi dizer-se muitas vezes que a desconstrução estava em decadência, mas, a julgar pelo que se publica, estes comentários reflectem mais o desejo de que isto seja verdade do que a observação rigorosa do que se passa: continuam a ser publicados cada vez mais livros e artigos desconstrucionistas e Derrida continua a ser mais citado do que qualquer outro pensador. Ao mesmo tempo, a própria linguagem da crítica foi influenciada pelo desconstrucionismo: a referência a ideias privilegiadas e à desmistificação, por exemplo, deixou de se limitar aos desconstrucionistas.

As novas teorias que ganham influência suscitam habitualmente uma discussão viva e aberta […]. Mas de momento dificilmente se pode dizer que haja um debate sobre o desconstrucionismo: os livros e os artigos que usam e advogam a desconstrução são abundantes, mas além de meia dúzia de recensões e de artigos críticos existe pouca coisa publicada que se possa dizer que represente o lado anti-desconstrucionista do debate. Não há qualquer sentimento de um diálogo ou intercâmbio entre os dois lados. Isto é sem dúvida muito estranho, dada a proeminência da desconstrução. E é lamentável — ou deveria ser — qualquer que seja a posição que queiramos assumir acerca dos tópicos em discussão. As ideias novas são refinadas quando há um debate entre os que as introduzem e aqueles que resistem à sua introdução. Este processo de desenvolvimento e redefinição através da resistência às críticas negativas é essencial para a clarificação de qualquer ideia nova. A relação entre os dois lados é, em alguns aspectos, semelhante à que existe entre o predador e a presa: a atenção do predador não é bem-vinda mas por outro lado é essencial, a longo prazo, para a saúde da espécie.

Por que razão, então, é a troca de argumentos entre proponentes e oponentes praticamente inexistente neste caso? A resposta deve, em grande parte, certamente residir no facto de que os desconstrucionistas começaram por reagir com hostilidade e até com afronta a qualquer crítica sólida do desconstrucionismo e, assim, a qualquer possibilidade de discussão com os seus opositores intelectuais. Tendo sido este o mote dado pela resposta inicial, é quase inevitável que qualquer reacção subsequente seja dirigida não contra os argumentos apresentados, mas contra as credenciais e motivações dos oponentes; e, não raras vezes, isto resultou em os desconstrucionistas quererem, aparentemente, estabelecer cânones para a participação no debate que, na prática, excluiriam dele os cépticos. Os críticos são fortemente repreendidos, por exemplo, por criticarem argumentos desconstrucionistas específicos sem primeiro se terem imergido no vasto oceano das obras desconstrucionistas e sem terem posto à prova o seu conhecimento delas, ou por mostrarem demasiado pouca simpatia pela desconstrução para serem credíveis. Ambas as acusações podem, evidentemente, ser feitas legitimamente depois de uma análise do argumento contrário ter revelado o modo como ele foi afectado por distorções e equívocos, por sua vez causados por um conhecimento insuficiente do referido vasto oceano de obras desconstrucionistas, ou por uma antipatia descontrolada. Mas usá-las como razões, suficientes em si mesmas, para ignorar um contra-argumento, seria algo inimaginável em qualquer outra área de discussão. Tome-se um exemplo da filosofia. O argumento da linguagem privada de Wittgenstein é infindavelmente discutido por aqueles que o consideram de grande importância, por aqueles que o consideram um erro pernicioso e por aqueles que dedicaram a sua vida ao estudo de Wittgenstein, bem como por aqueles que não têm qualquer interesse nesse autor para além dos problemas levantados pelo argumento em questão. Independentemente da grande diversidade destas contribuições para a discussão publicada, cada uma delas é avaliada pela mesma bitola: será que elucidou inovadoramente a estrutura lógica do argumento? Os antecedentes ou as predisposições de cada participante no debate são questões secundárias que apenas serão discutidas, se de todo o forem, depois de ter sido feita uma avaliação do conteúdo da contribuição desse participante. Suponhamos (o que seria bastante improvável) que alguém insistia em que só aqueles que mostrassem algum grau de adesão a Wittgenstein, ou que situassem a sua análise deste tópico específico no contexto de um estudo que abrangesse toda a sua obra, podiam ser considerados participantes legítimos no debate. O resultado seria uma gargalhada geral: ficaria mais do que evidente que essa seria uma tentativa de restringir o debate apenas aos wittgensteinianos — e entre os wittgensteinianos não haverá certamente muita diversidade de opiniões no que diz respeito ao valor da filosofia de Wittgenstein. Mas esse facto, por sua vez, mostra que quer a adesão quer a falta de adesão, quer a simpatia quer a falta dela, enviesam em igual medida um argumento. Há tão poucas razões, a priori, para pôr objecções a uma como à outra — o que importa é a razoabilidade do argumento e não a sua filiação. E, num contexto saudável de debate, a primeira tem sempre primazia sobre a segunda.

A tendência para desqualificar um argumento atacando a fidedignidade do adversário teve, tem de se reconhecer, os seus efeitos na oposição, a qual também tem de ser considerada responsável pela pobreza do debate. Há muito mais resmungos contra a desconstrução pelos corredores das universidades do que aqueles que chegam a ser publicados. Mas esta não é apenas uma reacção intimidada à promessa de um ataque retaliatório violento. […] A essência da desconstrução está ela própria envolvida aqui, uma vez que a denúncia dramática do senso comum e da opinião recebida é um aspecto importante da sua orientação teórica. Os cépticos sabem de antemão que esse papel lhes vai ser atribuído. E o teste para ver se eles possuem suficiente sofisticação intelectual para discutir a desconstrução consiste em averiguar, justamente, se serão capazes de entender um ponto de vista tão sofisticado como esse. Aqueles que contestam a razoabilidade deste teste falham-no ipso facto e merecem ser olhados com desprezo. Este ataque à auto-confiança dos adversários intelectuais foi provavelmente auxiliado pelo carácter opaco de muitas obras desconstrucionistas; essa opacidade torna difícil que se façam interpretações com segurança, e a maior parte dos académicos não deseja arriscar-se a publicar quando essa segurança não existe.

John M. Ellis

Tradução de Pedro Santos
Excerto retirado de Against Deconstruction, de John M. Ellis (Princeton University Press, 1989, pp. vii-ix)
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