Essencialismo Naturalizado, de Desidério Murcho
Abril de 2003 ⋅ Metafísica

O problema do essencialismo

Desidério Murcho

Intuitivamente, os particulares exemplificam as propriedades de duas maneiras diferentes: ou essencialmente, ou acidentalmente. Por exemplo, pensamos habitualmente que Sócrates poderianão ter sido ateniense; mas temos alguma dificuldade em acreditar que Sócrates poderianão ter sido um ser humano. Por outras palavras, intuitivamente, Sócrates era acidentalmente ateniense, mas essencialmente um ser humano. Todavia, esta intuição levanta alguns problemas filosóficos:

  • Problemas lógicos: será possível articular uma teoria coerente que dê conta das nossas intuições essencialistas? Este livro refuta alguns dos argumentos mais importantes a favor da incoerência do essencialismo.
  • Problemas epistemológicos: como é possível, e como se explica e justifica, o conhecimento das hipotéticas verdades essencialistas? Este livro responde a estes problemas mostrando como podemos conhecer a posteriori verdades necessárias.
  • Problemas metafísicos: que tipo de afirmações essencialistas são verdadeiras? Este livro apresenta um tipo particular de essencialismo: o essencialismo naturalizado.
  • Problemas ontológicos: se há factos modais, o que são e que tipo de existência têm? Este problema não é abordado neste livro.

Nem todas as intuições essencialistas levantam problemas. Tomemos a frase “Sócrates não poderia ser mais alto e mais baixo do que Platão”. A propriedade de ser mais alto e mais baixo do que Platão (relativamente à mesma ocasião) não é exemplificável, isto é, não pode ser exemplificada por nenhum particular. Trata-se de uma propriedade muito diferente de outras propriedades que não são exemplificadas, mas que poderiam sê-lo. Por exemplo, nenhuma pessoa exemplifica a propriedade de ser um filósofo português conhecido a nível mundial. Mas esta propriedade é perfeitamente exemplificável; poderia haver pessoas que exemplificassem esta propriedade.

A propriedade de ser mais alto e mais baixo do que Platão não pode ser exemplificada por nenhum particular por motivos conceptuais ou lógicos. Esta propriedade não pode ser exemplificada por nenhum particular porque qualquer termo singular apropriado que prefixemos ao predicado “...é mais alto e mais baixo do que Platão” dá origem a uma contradição. É por isso que a afirmação original é verdadeira: limita-se a negar uma contradição. A afirmação é uma verdade conceptual ou lógica, que não exige qualquer conhecimento especial da natureza de Sócrates ou de Platão.

Por outro lado, quando se afirma que o número 2 não poderia ser ímpar, não é com base no facto de a propriedade de ser ímpar não ser exemplificável, ao contrário do que acontece com a propriedade de ser mais alto e mais baixo do que Platão. A propriedade de ser ímpar é tão exemplificável quanto a propriedade de ser par; acontece apenas que a segunda é exemplificada pelo número 2 e a primeira não. Apesar disso, pode-se verificar por meio do puro raciocínio que é incoerente supor que 2 é um número ímpar — e essa é uma conclusão independente de quaisquer verdades empíricas.

Em conclusão: é fácil compreender por que razão Sócrates não poderia ser mais alto e mais baixo do que Platão; e é fácil compreender por que razão o número 2 não poderia ser um número ímpar. Em ambos os casos, há uma necessidade conceptual ou lógica que justifica as nossas intuições: as frases “Sócrates não é mais alto e mais baixo do que Platão” e “2 é um número par” exprimem verdades lógicas ou conceptuais. Mas não é fácil compreender por que razão Sócrates era essencialmente um ser humano. Afinal, a frase “Sócrates era um ser humano” não é uma necessidade lógica nem conceptual. O anti-essencialismo é a posição que declara que as únicas propriedades essenciais que os particulares exemplificam são as que resultam de necessidades lógicas ou conceptuais. Assim, apesar de ser contra-intuitivo, Sócrates poderia ter sido um chinelo de quarto, pois não há qualquer contradição nesta suposição.

Contudo, em alguns trabalhos recentes, surgiu aquilo a que chamo “essencialismo naturalizado”, e que se caracteriza pela seguinte tese:

Nem tudo o que é lógica ou conceptualmente possível é realmente possível. Por exemplo, apesar de ser conceptualmente possível que a água não seja H2O ou que Sócrates não seja um ser humano, esses estados de coisas não são realmente possíveis. E nem tudo o que é necessário é lógica ou conceptualmente necessário. Por exemplo, apesar de ser necessário que a água seja H2O e que Sócrates seja um ser humano, esses estados de coisas não são lógica ou conceptualmente necessários.

O essencialismo naturalizado defende a existência de verdades necessárias a posteriori — verdades empíricas necessárias. Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos. Pode ser que o seja, mas devemos primeiro estudá-la com cuidado, para ver se o será realmente. Afinal de contas, para um esclavagista, a noção de um negro livre também parecia uma contradição nos termos. Quando uma ideia revolucionária colide com convicções centrais tem tendência para parecer absurda. Grande parte do valor da filosofia consiste precisamente em ultrapassar os limites conceptuais do nosso tempo, que nos fazem aceitar acriticamente ideias que precisam de ser trazidas à clareira do pensamento sistemático e rigoroso.

Desidério Murcho
Texto retirado de Essencialismo Naturalizado, de Desidério Murcho (Coimbra: Angelus Novus, 2002).
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