Essencialismo Naturalizado, de Desidério Murcho
13 de Abril de 2006 ⋅ Metafísica

Essencialismo naturalizado

Desidério Murcho

A ideia de um mundo regido por leis não é apenas a ideia de que há um certo sistema no seio das nossas observações efectivamente realizadas, mas que este sistema pode ser explicado por uma ordem que tanto rege o que é possível como o que é efectivo, ordem essa que não é directamente observável.
Thomas Nagel

Há estruturas de pensamento que dificultam uma compreensão correcta do mundo e de nós mesmos. O essencialismo de Kripke permite-nos pôr a descoberto algumas dessas estruturas, e conceber uma alternativa. O empirismo, tal como tem sido professado, é um obstáculo formidável à compreensão do mundo, com vários aspectos subsidiários interconectados que desorientam o pensamento claro. O Argumento da Negação parece fornecer uma razão para recusar a necessidade metafísica, mas é apenas uma forma ilusória de voltar a formular a teoria que devia estar a ser defendida: que tudo o que é logicamente possível é possível. A ideia de que todo o conhecimento resulta dos sentidos e que o pretenso conhecimento a priori tem de ser reduzido à linguagem e à manipulação de símbolos é um pressuposto arbitrário, que impede a compreensão dos processos mais simples de conhecimento. A ideia de que todo o conhecimento primitivo é não inferencial resulta deste tipo de empirismo axiomático, que procura reduzir teorias científicas complexas a inputs sensoriais. O resultado é exasperante: um convencionalismo incapaz de explicar como pode um organismo sobreviver num mundo onde é possível tudo o que é logicamente possível.

Para sobreviver, um organismo no mundo tem de poder captar regularidades, e fazer previsões. Mas se a lógica for o guia da possibilidade, o espaço das possibilidades fica de tal forma inflacionado que não se compreende como os organismos eliminam a maior parte delas. Alguém atira uma moeda ao ar; o anti-essencialista declara que a probabilidade de sair caras, caso a moeda não esteja viciada, é de 0,5. Mas do ponto de vista anti-essencialista isto está sem dúvida errado; o espaço das possibilidades lógicas é muito superior a apenas duas hipóteses. A moeda pode sair caras, pode sair coroas, pode ficar de pé, pode ficar parada no ar, pode transformar-se num elefante de borracha, ou num universo inteiro. Do ponto de vista lógico, estas hipóteses são tão plausíveis quanto as outras. Mas, dada a natureza do mundo, todas estas hipóteses, e muitas mais, são metafisicamente impossíveis. O essencialismo explica facilmente por que razão excluímos todas estas hipóteses: porque elas são metafisicamente impossíveis e nós somos organismos que, para sobreviver, tivemos de aprender a captar os modos como o mundo pode ser, distinguindo-os dos modos como o mundo não pode ser.

A hipótese de que o mundo natural tem meras regularidades, sem qualquer significado metafísico, é insuficiente para compreender o modo como o mundo é. Defender que as regularidades são necessidades naturais, mas acrescentar que as necessidades naturais são metafisicamente contingentes é apenas adiar o problema. Agora torna-se necessário saber se as necessidades naturais são meras contingências; e torna-se necessário explicar por que razão certas estruturas do mundo são intuitivamente invariáveis, ainda que as leis da física possam ser diferentes. O essencialismo dá sentido à primeira questão e explica a nossa intuição de que a água é necessariamente H2O, mesmo que as leis da física fossem diferentes.

O problema central que enfrenta qualquer teoria anti-essencialista era já visível na teoria do hábito de Hume. Perante a conjunção constante de dois acontecimentos F e G, formamos a crença de que há uma conexão necessária entre F e G. Mas por meio dos sentidos nunca se vê tal conexão; vê-se apenas os acontecimentos. E não há qualquer contradição lógica em supor que F não é acompanhado por G. Trata-se, pois, de um mero hábito mental: perante conjunções constantes de acontecimentos, formamos certas expectativas. O problema é que estas expectativas não podem ter uma conexão necessária com as conjunções constantes, nem podem ser aleatórias.

Não podem ter uma conexão necessária por dois motivos. Por um lado, porque nesse caso a teoria do hábito estaria a pressupor o que se propõe eliminar: a ideia de que há conexões necessárias no mundo. Por outro lado, porque seria absurdo pensar que há conexões necessárias entre os acontecimentos mentais e os acontecimentos do mundo, mas não entre os acontecimentos do mundo; afinal, os acontecimentos mentais também são acontecimentos do mundo.

As expectativas não podem ser aleatórias porque nesse caso não se compreende como duas sucessões aleatórias de acontecimentos poderiam coincidir de maneira a dar origem à ciência. A probabilidade de acontecimentos mentais aleatórios coincidir com acontecimentos aleatórios no mundo é milagrosa. Se não existir qualquer conexão entre os acontecimentos regulares do mundo, e se não existir qualquer conexão entre os acontecimentos mentais, não se consegue explicar o sucesso da ciência.

Em suma, a teoria do hábito, como qualquer versão alternativa que pressuponha a inexistência de necessidades metafísicas, é incoerente. A melhor explicação para as nossas crenças em necessidades metafísicas, crenças que revelam um enorme sucesso, é a existência de necessidades metafísicas. A teoria essencialista contemporânea, tal como a entendo, oferece um modelo epistemológico adequado: dado que nem todo o conhecimento primitivo é não inferencial, a interacção entre o conhecimento a posteriori e a priori permite-nos formar crenças sobre verdades necessárias empíricas. E assim a necessidade não é meramente linguística, e o mundo não é um feixe de acontecimentos aleatórios, convencionalmente organizados por nós em ilusórias leis da natureza.

Desidério Murcho
Texto retirado de Essencialismo Naturalizado, de Desidério Murcho (Coimbra: Angelus Novus, 2002).
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