A Conquista da Felicidade
25 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia

A unidade do íntimo como o externo

Danilo Santos Dornas
A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russell
Lisboa: Guimarães Editores, 2001, 224 pp.

Bertrand Arthur Millian Russell (1872-1970), filósofo e matemático inglês, escreveu dentre as suas obras, um livro intitulado A Conquista da Felicidade. Neste livro, o autor adianta que não visa a erudição acadêmica, mas tecer algumas considerações sobre a felicidade vivenciada por sua própria experiência. O livro se divide em duas partes. A primeira intitulada "As Causas da Infelicidade" e a segunda intitulada "As Causas da Felicidade". Neste texto, iremos enfatizar a segunda parte da obra, uma vez que em alguns momentos necessitaremos explicitar algum conceito apresentado na primeira parte.

Para o autor, a felicidade usualmente é entendida de duas formas: na primeira a felicidade é compreendida como acessível a todos; enquanto na segunda é acessível somente àqueles que sabem ler e escrever. A tentativa do filósofo é investigar o fundamento da felicidade para construir algo que seja aplicável a todos os homens. Então, verifica que os entendimentos acerca da felicidade, que usualmente são considerados, são proposições contraditórias. Na primeira, há a defesa de que todos podem ser felizes; na segunda, há a defesa que nem todos podem ser felizes, apenas os letrados. Então, o filósofo busca o fundamento da felicidade que possa ser justificável e aplicável em todos.

A primeira causa da felicidade que possa ser buscada por todos os homens é o prazer. Por prazer, se deve entender a realização de algo que supera algum obstáculo. Russell compreende que o homem sempre almeja o prazer e ele só pode ser alcançado quando as dificuldades em buscá-lo são superadas. No entanto, o homem que se deprecia e, ainda assim, alcança a realização de algo não entende o alcance do prazer, mas da surpresa. O contrário, também pode ocorrer. O homem que se vangloria e não consegue vencer os obstáculos, se decepciona. Então, para fundar a felicidade no prazer se deve investigar alguns pontos essenciais.

O prazer é ligado às crenças. No mundo moderno, segundo Russell, a ciência ficou entendida como poderosa e progressiva e sua importância não é posta em dúvida nem pelos próprios cientistas e nem pelas pessoas leigas. Existe a crença nas ciências como o caminho que leva ao prazer, e por fim à felicidade. Para Russell, esta compreensão indica que a felicidade só pode ser realizada no cientista ou nas pessoas que, mesmo não sendo cientistas, acreditam nas leis das ciências que lhes são transmitidas. Ainda assim, verifica Russell, a crença não se liga ao prazer e muito menos à felicidade conforme tenta nos mostrar. A crença na ciência, por exemplo, nos leva a concluir que Albert Einstein (1879-1955) era extremamente feliz e que os pintores e literatos não o são. No entanto, Russell explica qual é o papel da crença para a consolidação da felicidade. Para edificar um sentido para a palavra "prazer", Russell aborda superar obstáculos requer alguma perícia. A perícia é fundamental para incentivar os instintos criativos. Nesta compreensão, o prazer em sua base deve ser entendido como a realização de algo que enseja a criatividade. Nesta conceituação, o prazer pode ser alcançado tanto pelos cientistas que tentam responder os problemas por métodos rigorosos, quanto pelos pintores e literatos ao contemplarem suas obras concluídas. Portanto, Russell indica que o prazer é o caminho para a felicidade quando desperta no homem a criatividade.

É evidente que, no tempo vivido por Russell, a criatividade estava oprimida pelas máquinas. Assim, a infelicidade dos jovens de seu tempo poderia ser explicada pela substituição dos trabalhos pelas produções com recursos técnicos mecânicos. Mas, para o filósofo esta infelicidade sentida pelos jovens pode ser facilmente contornada. Basta os jovens sentirem no trabalho que desempenham, a atividade por vocação. Sentir a vocação não é uma tarefa fácil, mas se for projetada ou despertada será perseguida e a vida deixa de ser monótona para ser criativa e inventiva.

Ainda neste incentivo à criação, Russell explica que fatores importantes para atingirem a felicidade são a cooperação e a associação. Isso significa que, as criações e invenções devem ser dialogadas ou comunicadas para aumentarem o incentivo entre os homens para a vocação. A associação de homens, em torno de uma crença, pode trazer questões científicas ou artísticas, de modos diversos, mas que causam o prazer. A felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer.

No período em que Russell vive, há explicações filosóficas que tratam o homem como um ser-para-morte ou que tratam a vida como um drama. Estas explicações muitas vezes tratam a vida sem sentido ou vazia de significados. Tais explicações são consideradas como as escolas existencialistas. Russell não entende a vida desta forma. Para ele, quando há esta perda de sentido o homem se deixa levar por tolices ou manias que são máscaras para fugir da realidade. No livro, o filósofo dedica um capítulo específico que diverge de tais explicações existencialistas. Para ele, as pessoas desejam ser amadas e não toleradas. No entanto, pedir amor é pedir muito do que a vida pode dar e isso é o que leva alguns pensadores, literários e artistas a se sentirem melancólicos. A melancolia é a perda do gosto de viver. E Russell dedica um capítulo especial, neste livro, para tentar investigar essa perda pelo gosto de viver. Vejamos a seguir os principais argumentos que ele apresenta.

A condição para o homem se distanciar da melancolia é ter o gosto por viver. E a felicidade é a tradução deste apetite pela vida. Por apetite de viver, se deve entender o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiões ele terá para ser feliz. No entanto, o Homem para se interessar por coisas da vida deve ser atento. Por atenção, Russell explica que é o interesse pelas coisas que rodeiam a vida, mas ao perceber tais coisas muitas vezes encontramos a nós mesmos. A busca da felicidade significa o Homem se interessar pelo maior número coisas possível. Os interesses, quando se apresentam muito restritos, distanciam o Homem da felicidade porque a chance da decepção é ainda maior. Portanto, a continuação do caminho para a felicidade é o gosto pela vida e isso implica em se surpreender com o mundo. Aqui verificamos que Russell admite que a vida intensa em uma especialização pode significar a fuga ou o esquecimento de outros aspectos da vida. Esta fuga, muitas vezes pode conduzir ao exagero. Neste caso, a fórmula grega antiga da ética parece conveniente. A fórmula da moderação. Isso porque, em nome do exagero se pode desenvolver uma grande atividade intelectual quanto também uma grande melancolia. Esta fuga ou esquecimento é sintoma da perda da liberdade que Russell parece considerar como a principal causa da falta de estima.

Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade. Deixaremos claro que Russell quer buscar os significados básicos para que a felicidade seja resgatada por todos independentemente de sua localização ou cultura. Então, a bondade deve ser compreendida como algo universal e para isso a investigação ganha um sentido mais simples. Deve resgatar o bom "em si". Um aspecto importante deste "bem em si" é a afeição que devemos receber e ao mesmo tempo dar. Por afeição, o Homem deve não agir por interesse, mas visar sempre a bondade inerente ao ser-humano. Portanto, a afeição é uma troca desinteressada que não deve almejar segurança, proteção ou fuga da solidão. Ao contrário, a afeição deve ser incentivada na medida que integre o Homem numa união, numa associação que não vise nenhum interesse. Apenas a comunhão do gosto pela vida.

A afeição que o autor trata pode ser verificada na família. Os pais sentem uma afeição especial por seus filhos, diferentemente das demais crianças. Esta afeição sentida pelos pais é amplamente discutida por teólogos, psicólogos, filósofos e cientistas. No entanto, é difícil verificar a busca pela felicidade em todos os casos. Russell explica que é complicado analisar a felicidade em cada pessoa. Mas a felicidade num sentido fundamental deve investigar o amor. O amor, entre pais e filhos, se refere aos cuidados que um tem para com o outro. E "cuidado" deve ser compreendido como atenção. Portanto, a família feliz deve ser fundada no amor que traduz esta atenção especial que os pais dedicam para os filhos.

O amor, entre os pais e filhos, baseia-se nos cuidados que um mantém com o outro. Mas, este amor não pode ser aplicado às demais coisas do mundo. Russell explica que uma das causas da infelicidade é a distração que o Homem tem. Esta distração muitas vezes traduz o interesse para coisas que não possuem uma praticidade. Esses interesses são impessoais. Não há critério para determinar se os interesses são bons ou maus; então, não há como investigá-los. No entanto, outras distrações satisfazem as condições fundamentais da felicidade. Estas condições de felicidade devem ser perseguidas por homens que procuram interesses subsidiários, além daqueles que representam o centro em volta do qual construiu sua vida. Portanto, a atenção deve ser difusa. As distrações devem ser apenas complementares para as atividades centrais. Para Russell, se isso ficar bem compreendido o Homem foge da resignação e do esforço como categoria depreciativa do viver. Ou seja, incentiva o gosto pela vida buscando a felicidade.

O texto de Russell foi escrito com uma condução ética hedonista. Isto é, a felicidade deve ser considerada sempre como um bem perseguido por todos. Para uma discussão ética, esta obra de Russell é fundamental porque se distancia dos moralismos que tentam estabelecer uma lei máxima e a partir desta, as ações. Russell não quer construir uma lei ética, e muito menos verificá-la nas ações. O filósofo pretende localizar a felicidade em fundamentos simples. As categorias essenciais que procuramos demonstrar neste texto traduzem esta tentativa do filósofo. Ao contrário, as infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem. O homem feliz, ao contrário, se considerar as categorias apresentadas para viver sentirá a unidade entre o íntimo e o mundo exterior. Tal unidade é o que o previne da compreensão sobre a vida como drama ou como melancolia. A unidade do íntimo como o externo é a causa fundamental da felicidade que é um caminho a ser percorrido por qualquer discussão ética contemporânea.

Danilo Santos Dornas
danilodornas@uol.com.br
Universidade Federal de São João del-Rei, Brasil
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