Filosofia

História e ciências sociais

Notas sobre o uso da lógica, teorização e crítica*
Bruno P. W. Reis
Universidade Federal de Minas Gerais

25. Moral privada e moral mundial. – Após o fim da crença de que um deus dirige os destinos do mundo e, não obstante as aparentes sinuosidades no caminho da humanidade, a conduz magnificamente à sua meta, os próprios homens devem estabelecer para si objetivos ecumênicos, que abranjam a Terra inteira. A antiga moral, notadamente a de Kant, exige do indivíduo ações que se deseja serem de todos os homens: o que é algo belo e ingênuo; como se cada qual soubesse, sem dificuldades, que procedimento beneficiaria toda a humanidade, e portanto que ações seriam desejáveis; é uma teoria como a do livre-comércio, pressupondo que a harmonia universal tem que produzir-se por si mesma, conforme leis inatas de aperfeiçoamento. Talvez uma futura visão geral das necessidades da humanidade mostre que não é absolutamente desejável que todos os homens ajam do mesmo modo, mas sim que, no interesse de objetivos ecumênicos, deveriam ser propostas, para segmentos inteiros da humanidade, tarefas especiais e talvez más, ocasionalmente. — Em todo caso, para que a humanidade não se destrua com um tal governo global consciente, deve-se antes obter, como critério científico para objetivos ecumênicos, um conhecimento das condições da cultura que até agora não foi atingido. Esta é a imensa tarefa dos grandes espíritos do próximo século.

F. W. Nietzsche
Humano, Demasiado Humano (1878)

I. À guisa de introdução: D. H. Fischer e a lógica na história

Há exatos trinta anos, David Hackett Fischer publicou um livro notável, chamado Falácias de Historiadores.(1) Iniciar uma comunicação entre professores de história com uma alusão a tal título seria uma provocação imperdoável, não fosse o conteúdo do livro quase inteiramente aplicável a qualquer um de nós, genericamente designáveis como "cientistas sociais". Num breve prefácio ao volume, Fischer investe contra certa disseminação de uma atitude ingenuamente empirista entre estudiosos de assuntos históricos, revelada na rejeição explícita da "lógica" em favor da atenção escrupulosa aos "fatos". (2) Naturalmente, Fischer procurará sublinhar ao longo do livro o "fato" mais elementar de que qualquer compreensão do mais banal dos eventos deverá ser, ela mesma, lógica, se pretende ser inteligível e/ou comunicável. Para ilustrar o seu ponto, Fischer oferece ao leitor uma profusa descrição — alimentada com exemplos extraídos das obras de vários eminentes historiadores — de erros lógicos dos mais variados tipos, abundantemente presentes na historiografia sobre qualquer tema, e certamente presentes também naquilo que fazem os demais cientistas sociais, ao lidarem com um objeto de natureza histórica. Assim, ele divide seu livro em onze capítulos nos quais procura reunir as falácias que consegue identificar sob onze grandes grupos, a saber: falácias de elaboração do problema, de verificação factual, de significação factual, de generalização, de narração, de causalidade, de motivação, de composição, de falsa analogia, de distorção semântica, e de distração substantiva. Infelizmente, será impossível aqui descer a detalhes dos numerosos tipos de falácias que Fischer reúne em cada um desses grupos. Fica apenas a minha enfática recomendação para que todos procurem explorar o livro por conta própria (além de instrutivo, ele é bastante divertido), e mantê-lo sempre à mão para eventuais consultas.

Trago aqui a menção a esse livro porque entendo que ele lida de maneira particularmente explícita com um aspecto fundamental de todo esforço de compreensão de qualquer objeto de natureza empírica: o problema da imputação, a um fluxo em princípio caótico de eventos que têm lugar no mundo sensível, de um ordenamento de natureza lógica, implicativa, que lhe é atribuído, conscientemente ou não, pelo nosso simples esforço de compreender o que se passa. Naturalmente, à medida que nos referimos a um esforço "profissional" de compreensão do mundo (é o que fazemos, não?), espera-se que essa imputação seja feita de maneira tão consciente quanto possível acerca dos aspectos lógico-analíticos envolvidos. E aí entram trabalhos como o de Fischer, a nos mostrar o quanto estamos aquém do desejável nesta matéria — pelo menos no que toca às ciências sociais e históricas.

De fato, costumo usar o livro de Fischer nos meus cursos de metodologia, logo após passar algumas aulas naquela que é, talvez, a parte mais "técnica" da disciplina, numa extensa discussão sobre técnicas de survey e sua importância na explicitação dos vínculos entre teorização e evidência empírica. A ênfase na técnica de survey é bastante adequada para explicitar de maneira intuitivamente evidente as maneiras como se pode submeter uma hipótese a teste empírico rigoroso, sob precisos parâmetros estatísticos de validade, e, reciprocamente, oferecer pistas minimamente precisas sobre o trabalho de inferência indutiva de "leis gerais" a partir da evidência empírica de natureza estatística eventualmente disponível. Mas o risco disso tudo é caracterizar de maneira excessivamente restrita o âmbito de validade dessas operações lógicas: os alunos podem tender a acreditar que tudo isso se aplica apenas àqueles problemas dos quais nos podemos aproximar munidos de questionários, amostras, variáveis codificadas etc. etc. E imagino perfeitamente um estudante de história (mas não apenas de história) a perguntar-se: "Qual a utilidade dessa parafernália analítica para mim, se eu vou estudar um evento que se deu uma única vez [um "evento único"...], e eventualmente há cem, ou quinhentos, ou há dois mil anos atrás?" Um livro como o de Fischer nos presta nesse momento o inestimável serviço de mostrar claramente — para o estudante menos inclinado ao emprego de laboriosas técnicas quantitativas de pesquisa — a perfeita analogia operacional entre o que se passa, por exemplo, numa pesquisa de survey e o que se encontra envolvido na validação de uma interpretação ou explicação de qualquer fenômeno histórico. Em qualquer dos casos, trata-se de imputar a eventos certa estrutura lógica de natureza causal/implicativa cuja validez é independente dos eventos em si (ainda que sua pertinência não o seja). Pois qualquer explicação ou compreensão de fenômenos de natureza empírica requererá validação em dois planos: um primeiro, o da pura correção lógica, formal, do argumento em pauta; e um segundo, o da adequação da imputação daquele teorema abstrato de natureza eminentemente formal ao conjunto específico de eventos que se quer compreender (quase desnecessário acrescentar que este último plano estará necessariamente comprometido se o nosso esforço naufragar no plano lógico). Apenas para nos permitir uma exemplificação dos paralelismos relevantes aqui, o capítulo IV de Fischer, sobre "falácias de generalização", nos mostra como toda generalização, do ponto de vista lógico, se refere inevitavelmente a regularidades estatísticas, explícitas ou não — e que seria absolutamente vão, por absurdo, qualquer esforço de "não generalizar", pois isto equivaleria a algo como, por exemplo, "não usar palavras"...

II. Weber segundo Schluchter, e a história na teoria

Se pesa sobre o ofício do historiador o compromisso bastante óbvio com os rigores da lógica mesmo quando ele tenta "não teorizar" (como se isso fosse possível), do outro lado a recíproca é verdadeira, e — exceto por alguns modelos estáticos de alcance bastante tópico — pesará sobre qualquer teoria social a necessidade de levar devidamente a sério a dimensão diacrônica (e portanto histórica, no caso) inerente à postulação de qualquer nexo causal. (3)

Wolfgang Schluchter, em sua magistral reconstrução da concepção weberiana da história, provê uma adequada ilustração deste ponto. Buscando qualificar a interpretação que vê em Weber sobretudo o fundador de uma sociologia que rejeita o evolucionismo e a filosofia da história (numa polêmica implícita com Marx), (4) Schluchter elabora as relações e a interdependência recíproca entre os planos configuracional (estrutural, "macro"), situacional (individual, "micro") e histórico de análise, buscando sempre sublinhar a permanência da relevância da dimensão histórica de análise — eventualmente depreciada pelos herdeiros de Weber, ciosos de demarcar suas diferenças com os marxistas. De outra maneira, prosseguirá Schluchter, não há como dar sentido a uma série de temas weberianos cruciais, e que estruturam mesmo sua sociologia, como a descrição da história do Ocidente por alusão à tese da racionalização das relações sociais que teria lugar ao longo do processo, apoiada em minuciosa análise sobre as diversas "orientações estruturalmente possíveis" da ação, todas sujeitas a desenvolvimento, empiricamente identificável ao longo da história. (5)

Autor de interpretação distinta da de Schluchter, Reinhard Bendix talvez tenha sido o mais influente dos intérpretes não "desenvolvimentistas" (6) de Weber, além de ter contribuído substantivamente para uma reavaliação mais comedida do alcance dos conceitos de tradição e modernidade a partir do final dos anos 60, mediante uma alentada crítica de certos abusos e distorções do recurso à "modernização" que certamente terá contribuído de maneira importante — ainda que não intencionalmente — para o progressivo abandono da referência ao conceito nos anos que se seguiram ao seu ataque, publicado pela primeira vez em 1967. (7) Está acima de discussão aqui a pertinência do ataque de Bendix (qualquer reconstrução de um enfoque desenvolvimental tem de tomar a sério a sua crítica), mas é necessário cautela aqui. Preliminarmente, apesar do espírito não-desenvolvimentista de sua interpretação de Weber, seria impróprio atribuir, por isso, à obra (inequivocamente fecunda) do próprio Bendix um caráter conseqüentemente anti-desenvolvimentista. Pois Bendix invariavelmente confere à história (e à história estruturada em processos de desenvolvimento) lugar inequivocamente proeminente, patentemente identificável naquele que é talvez seu principal trabalho — Construção Nacional e Cidadania. Ilustra este ponto o fato de que seu ataque aos conceitos de tradição e modernidade jamais visou ao seu abandono, mas apenas à sua reavaliação. Contra certa trivialização reificada dos conceitos, pode-se dizer que Bendix contrapôs — com elevada sensibilidade metodológica — a necessidade de lhes recuperar a densidade histórica. Pois, se por um lado é sempre real o perigo — contra o qual nos alertava Weber — de se confundirem com a realidade os tipos ideais a que recorremos profissionalmente, por outro lado Bendix não deixará de reiterar o grande valor heurístico da construção de seqüências de desenvolvimento. (8) O tom de Bendix é sobretudo de cautela metodológica, mais que de rejeição frontal do recurso à modernização para a reflexão sobre a sociedade e a política. Assim, ele nos adverte que a tradição e a modernidade não são mutuamente excludentes, e persistem invariavelmente elementos "tradicionais" em sociedades "modernas", assim como elementos modernos são identificáveis muito antes da era "moderna"; que em quase todos os casos a modernização mistura fatores endógenos e exógenos, com forte ação governamental — o que denota um processo não tão "espontâneo" quanto eventualmente somos levados a acreditar; e, finalmente, que a industrialização não parece ter efeitos internacionalmente tão uniformes quanto desejariam os modernizadores mais otimistas. (9) Em outras palavras, ele nos alerta para a possibilidade de que a "modernização" — apesar de ser quase universalmente observável — jamais venha a alcançar uma "modernidade" a priori definida, mas ao mesmo tempo insiste em que não é possível refletir sobre a mudança social sem remissão a estruturas de compreensão apoiadas em mecanismos do tipo "antes-e-depois" — e, tomados todos os cuidados, ele reafirma explicitamente o contraste entre tradição e modernidade, apoiado em traços "canônicos", como o processo de progressiva "diferenciação estrutural" identificado por Neil Smelser na crescente divisão do trabalho e na emergência de estruturas sociais sempre mais especializadas funcionalmente, bem como a interação complexa entre essa diferenciação (potencialmente desintegradora) e a emergência de novas formas de integração. Bendix observa, por exemplo, que na economia tradicional há elevada integração dentro das unidades domésticas e das comunidades, e baixa integração entre elas — e durante a modernização observa-se uma tendência à inversão desse padrão, com crescente interdependência entre unidades produtivas diversas, entre a família e o mercado etc. (10)

Voltando a Schluchter, ao afirmar que Weber produziu uma abordagem desenvolvimental da história, ele naturalmente não pretende reduzir a visão weberiana à postulação de uma série linear de estádios históricos sucessivos e inevitáveis. Embora alguma tipificação de estádios seja inevitável para a descrição de processos de natureza histórica (e Weber não se tenha furtado a isso), sua "história desenvolvimental" consiste antes num minuciosíssimo esforço de contrastar uma tradição cultural específica (a ocidental) com outras, com o permanente propósito de identificar, pela comparação, seus atributos distintivos e seu curso histórico específico. (11)

E talvez resida aí a tese fundamental de Schluchter, que procuro mobilizar aqui: a de que estas duas tarefas são inseparáveis. Nenhuma narrativa da história de uma sociedade ou civilização sequer fará sentido se desprovida de um diagnóstico específico (explícito ou não) sobre os atributos configuracionais e situacionais do caso estudado; e, reciprocamente, a identificação dos atributos configuracionais ou situacionais de um dado sistema social não poderá prescindir da referência a seu curso histórico — e, mais precisamente, da imputação de uma direção específica provável a esse curso de acontecimentos — sem esterilizar-se completamente como ferramenta analítica. O próprio Schluchter conclui, em termos bastante claros:

Therefore, we can argue that sociology must be historically oriented and history sociologically, but we cannot assert a hierarchy between the two or advocate a reduction of one to the other. Both are necessary perspectives, for they are tied to the nature of historical subject matter. However, it is also in the nature of historical subject matter that it demands not only configurational and situational analysis but ultimately a directional analysis. Only from a developmental perspective can we establish which individual actions have fateful consequences for basic social configurations. Only in this manner can we separate events that transcend a given structure from those that preserve it, events that lead to a transformation from those that remain within the range of a given structure. (12)

Portanto, contrariamente à moda corrente nas últimas décadas, a posição de Schluchter resulta em que nada há de obviamente recomendável no esforço de se despir a análise sociológica da imputação de uma "direção" aos eventos históricos — antes pelo contrário. A reflexão sociológica se apoia necessariamente na atribuição de determinado curso aos eventos na história, ao longo do qual se define uma linha de desenvolvimento teoricamente compreensível e empiricamente esperável — ainda que estritamente conjectural e condicional (como exigiria Popper). (13) Numa palavra, a teoria social, adequadamente formulada, é necessariamente "desenvolvimental". Esta afirmação Schluchter a faz no contexto de um esforço de reconstrução da teoria da história de Max Weber, mas entendo que ela se aplica genericamente a qualquer esforço de reflexão de natureza sociológica (incluindo sob esta rubrica as ciências sociais num sentido amplo, que incluiria não apenas a ciência política e a antropologia, mas mesmo a economia) — até porque Weber é um autor comummente desvinculado de qualquer suspeita de adesão a "determinismos" lineares ingênuos. Assim, apesar da evidente impropriedade da imputação apriorística à história de qualquer direção que se pretenda imanente ao próprio devir histórico e portanto incondicional, insuscetível a mudanças (alvo da crítica de Popper ao historicismo), (14) entendo que é impossível abrir mão completamente de uma análise "direcional" da história sem que percamos junto — conforme aponta Schluchter na passagem citada acima — a capacidade de avaliar criticamente nosso contexto e nossos objetivos. E é importante observar que a obra do próprio Popper constitui ilustração bastante oportuna deste ponto: a despeito de sua enfática rejeição do historicismo e do que ele chamou de "profecias" históricas de longo alcance, ele jamais se livrou da proposição do advento da sociedade aberta como o macroprocesso que conforma a base de sua interpretação da história da humanidade — e sobre a qual se apoia sua avaliação crítica de tudo o mais. (15)

III. Desenvolvimento e crítica

De fato, ao buscar analisar comparativamente diferentes contextos teoricamente concebíveis, ou empiricamente identificáveis, não temos como escapar à imputação de uma direção aos acontecimentos sem nos expormos a esterilizar completamente a comparação. Esclareça-se mais uma vez que a busca desta direção não guarda qualquer relação necessária com a adoção de uma orientação ambiciosamente historicista, profeticamente orientada para a imputação de caminhos inapeláveis à história — pois, para além do canônico ataque de Popper, não seria difícil identificar no próprio livro de Fischer mencionado acima um bom número de falácias a que semelhante orientação se exporia fatalmente.

Antes, penso sobretudo na busca de um critério valorativo que possa servir de instrumento de avaliação comparativa das diversas experiências históricas tomadas isoladamente, sem o qual a comparação se reduzirá fatalmente a um exercício estéril de cotejo de números, em que as eventuais diferenças observadas nada poderão significar senão a expressão de aleatórias "peculiaridades locais", eventualmente ditas "culturais", condenando-nos a um niilismo relativista incapaz de reflexão crítica. Mas é importante observar que este critério valorativo, para ser fecundo, deverá dispor da necessária dose de plausibilidade empírica, que terá de se desdobrar, sim, na elaboração de linhas de desenvolvimento teoricamente consistentes, que inevitavelmente se desdobram na constituição de cenários futuros plausíveis, ainda que não inexoráveis.

Tendo isso em mente, não se pode senão lamentar o furor "antideterminista" que tem assolado as ciências sociais mundo afora nas últimas décadas. Apoiados alguns na rejeição de Popper ao historicismo (que aparentemente nem ele mesmo consegue levar a cabo em todas as suas implicações), outros em certa desilusão já de algumas décadas com algumas predições cruciais do marxismo, e a maioria em vago "caldo de cultura" formado por ambas as coisas, passamos todos a uma histeria antideterminista que tende a rejeitar liminarmente tudo aquilo que evoca projeções históricas em grandes linhas, em vez de cogitar de alguma reação mais sóbria, que eventualmente rejeitaria predições específicas à luz de dados contrários — sem nem por isso ter de se obrigar a não pensar sobre o futuro. Afinal, se Schluchter estiver correto, é extremamente limitado fazer ciência social sem incorporar, sob um formato "desenvolvimental", a dimensão histórica do argumento. E simplesmente impossível preservar sua dimensão crítica sem essa incorporação.

Sob esse prisma, talvez não seja mera coincidência o propalado declínio da sociologia nas últimas décadas. Fragmentada em múltiplos campos e especialidades, enclausurada em jargão incompreensível não apenas para leigos, mas eventualmente até para os "adeptos" ou "praticantes" de "paradigmas" variados que mal se comunicam, a sociologia vê-se numa encruzilhada terrível, pois hoje inclina-se por abraçar a rejeição doutrinária de uma das pernas do tripé metodológico em que — a julgar por Schluchter — se apoia. O resultado é uma perplexidade paralisante que tem talvez seu mais nítido sintoma no fato — observado recentemente por Axel van den Berg — de que cada vez mais o que é tido hoje por teoria sociológica (ele cita Habermas, Bourdieu, Giddens e Alexander) lida sobretudo com epistemologia, ontologia e filosofia da ciência, a expensas da tarefa mais corriqueira — e propriamente sociológica — de teorizar sobre o mundo social. O resultado é que "teoria social" parece hoje uma teorização sobre a teorização, e não sobre a sociedade. E "teoria" virou uma subdisciplina em si mesma, com pequena relação aparente com o que os pesquisadores empíricos eventualmente fazem. (16) Certamente é necessário ressalvar que o foco do ataque de van den Berg se distingue do meu ponto aqui: ele se dedica basicamente a apontar o fosso profundo que se observa na sociologia recente entre as atividades de teorização e investigação empírica — com óbvios efeitos deletérios sobre a ciência produzida. Mas o que desejo destacar é que, na linha de raciocínio aqui perseguida, a perplexidade epistemológica ali apontada parece compreensível, já que a progressiva tendência à desqualificação da dimensão "desenvolvimental" da análise acaba por privar os sociólogos da capacidade de simplesmente dizer qualquer coisa substantiva sobre seu objeto, uma vez que a sua dimensão histórica se perde — e eles começam a ter de reinventar a roda, perguntando-se mesmo se é possível dizer alguma coisa com aspirações legitimamente científicas sobre o seu objeto.

Desgraçadamente, esse processo de autonomização subdisciplinar da "teoria" ainda produz contrapartida na idêntica autonomização dos temas "metodológicos" (principalmente quantitativos). Igualmente repleta de "especialistas", a área metodológica em ciências sociais costuma sofrer de grave desinformação teórica, num processo paradoxalmente encorajado pelo desenvolvimento dos recursos computacionais envolvidos. Conforme descreve muito singelamente Aage Sørensen, se o pesquisador tem de operar manualmente os cálculos estatísticos necessários à avaliação da relação empiricamente observada entre algumas variáveis, ele é obrigado a pensar muito cuidadosamente sobre os cruzamentos que vai fazer; já o computador o encoraja a cruzar simultaneamente, digamos, cinqüenta variáveis — para depois verificar os coeficientes de regressão de cada uma e proceder retroativamente, com uma explicação ad hoc para o comportamento das variáveis que parecem mais relevantes naquele conjunto de dados. Infelizmente, já sabemos desde Hume que enunciados particulares não podem fundamentar um enunciado universal — e Sørensen lamenta que ao longo das últimas décadas os sociólogos tenham se tornado menos competentes na tradução de ideias teóricas em modelos a serem estimados por técnicas estatísticas. (17)

No centro desse duplo processo de afastamento recíproco, a teorização propriamente dita perde espaço, particularmente a formulação de hipóteses intelectualmente arrojadas, que sejam ao mesmo tempo teoricamente sofisticadas e empiricamente operacionalizáveis: e a sociologia tristemente agoniza, sem jamais ter saído da juventude. (18) Comparativamente à situação em que hoje se encontra a sociologia, será justo reconhecer que a produção recente na ciência política parece mais robusta — apesar da dificuldade de se constituir um padrão cumulativo consistente, e de que também aqui algumas "modas" intelectuais parecem ditar as orientações da pesquisa mais do que a densidade da crítica à produção anterior. A propósito, acredito que o relativo vigor que a ciência política tem sido capaz de exibir deve-se em boa medida ao impacto renovador propiciado por uma dessas "modas", a teoria da escolha racional, que veio oportunamente preencher lacunas importantes no plano — tradicionalmente negligenciado, exceto na economia — da análise situacional. (19) Mas isso certamente reivindica desdobramento mais ousado no plano diacrônico, histórico — que está por ser feito, e permanece como uma carência importante da teorização recente. Não é por outro motivo que um livro como Comunidade e Democracia, de Robert Putnam, publicado em 1993, obteve — a despeito de todos os problemas gerados pela passagem às vezes um pouco "rápida" demais sobre temas tão variados — acolhida tão entusiástica, mesmo por seus críticos: contrariando o perfil costumeiro da produção contemporânea em ciência política, ele atreveu-se a lidar com os três planos de análise a que Schluchter se referiu (configuracional, situacional e histórico), produzindo uma obra rara nos dias de hoje — e que não pôde ser ignorada.

De fato, se não nos deixássemos seduzir tão facilmente por reorientações drásticas e arbitrárias de nossos programas de pesquisa, seria bastante óbvio que o problema não pode ser o "desenvolvimentismo" em si mesmo. Afinal, se algumas previsões de Marx (especialmente algumas de implicações políticas mais imediatas, como a polarização social crescente, a tendência à queda da taxa de lucro, a iminência do colapso revolucionário do capitalismo a iniciar-se pelo centro do sistema etc.) revelaram-se problemáticas e acabaram por frustrar muitos planos de ação política nelas apoiados, o mesmo não se pode dizer de outros: o curso do século XX (e de maneira particularmente óbvia o destino da experiência soviética e o Holocausto) corrobora grande parte do que Max Weber chegou a entrever sobre as relações entre racionalização e burocratização e suas conseqüências perniciosas sobre as perspectivas da política moderna. Também Tocqueville, ainda mais remoto, e incomparavelmente menos rigoroso no método que Weber ou Marx, costuma causar perplexidade por sua capacidade de antever, há quase duzentos anos, as linhas gerais sobre as quais se desdobrou a história desde então. O próprio Marx permanece insuperado em sua antevisão da dinâmica geral de operação da economia capitalista, e ninguém pode hoje ler as primeiras páginas do Manifesto Comunista sem assombrar-se com sua precisa, eloqüente e persuasiva clarividência.

Se tomarmos como espúria toda especulação sobre padrões previsíveis de desenvolvimento futuro, toda imputação de uma linha sobre a qual tem curso a história, toda afirmação sobre a direção da história, como poderemos explicar esses notáveis acertos? "Sorte"? "Inspiração"? "Revelação da divina providência"? Não vou me ocupar de tentar refutar estas hipóteses, até porque não posso excluir a alternativa de que tudo isso efetivamente se tenha passado (e a formulação vaga aumenta ainda mais a chance), mas sobretudo porque aprendemos com Popper que o "contexto da descoberta" é irrelevante para a validação de um argumento. Tecnicamente, a qualidade de uma predição sobre assunto de natureza histórica depende da sua correspondência com os eventos observados e da precisão do enunciado (sem a qual a primeira condição não pode ser aferida). Mas afirmo que de fato ela depende sobretudo da qualidade do diagnóstico do presente do qual deriva. Com efeito, seria trivial afirmar que todo prognóstico futuro parte de algum diagnóstico sobre o presente; o que afirmo aqui é que assim como toda proposição teórica sobre objeto de natureza empírica implica necessariamente prognóstico sobre acontecimentos futuros (é o que está suposto em todo experimento científico), quando esse objeto empírico é também histórico (como a sociedade, matéria da sociologia) então todo diagnóstico implica necessariamente o esboço de cursos de eventos historicamente abrangentes, linhas evolutivas esperadas — numa palavra, direção. Pois é isso o que distingue o objeto histórico dos demais: embora possamos falar de uma história da física assim como de uma história da sociologia (pois ambas são atividades humanas), não faz o menor sentido falar de uma "história da matéria" por analogia a uma história das sociedades humanas. E o que distingue essas duas é precisamente o fato de que a história das sociedades tem um curso, uma direção; envolve o desenrolar de um drama; tem começo, meio e fim, numa dada ordem que não pode ser alterada; e a compreensão de qualquer ponto desse fio envolve necessariamente a compreensão de suas ligações com seu passado e com seu futuro. (20) Assim um atributo crucial a distinguir as ciências sociais das ciências naturais é a historicidade do objeto das primeiras; o fato de que elas estudam objeto de natureza histórica e com isso se habilitam — tanto quanto a descrever e explicar — também a avaliar seu objeto, por remissão a certo padrão logicamente identificável de desenvolvimento histórico, certo curso cientificamente esperável de acontecimentos. Nisto se apoia a essência da exortação do jovem Marx: transformar o mundo — ainda que não apenas segundo nossos desejos estritamente considerados, mas mediante um diagnóstico cientificamente informado sobre cursos históricos alternativos plausíveis. E é sobre o futuro que esse diagnóstico nos permitir esperar que se apoiará toda dimensão crítica que nossa análise almejar.

De fato, apesar de nossa costumeira ironia quanto a "futurologistas", e também do que há de inequivocamente justificável na cautela profissional com que recebemos os profetas de plantão, cabe reconhecer que o que a sociedade espera de nós é precisamente isto: pistas sobre o que nos reserva o futuro. Por mais precário que tenha de ser o atendimento honesto a essa demanda, e por mais que o rigor nos imponha cautelas no enunciado de nossas convicções, trabalhamos inevitavelmente voltados para o futuro. Não financiam nossas atividades para que possamos ser meramente depositários passivos de um acervo empírico inesgotável que o passado alimenta. Mas para forjarmos — inclusive por uma adequada compreensão de fenômenos passados — diagnósticos de nosso presente que nos permitam divisar nosso futuro e, quando julgarmos ser o caso, tentar modificá-lo. Repito: toda a dimensão crítica do conhecimento sociológico se apoia sobre a imputação de cursos de eventos empiricamente plausíveis e valorativamente desejáveis ao devir histórico. E é nesse ponto que reside sua peculiaridade fundamental frente às ciências da natureza: a crítica do seu objeto.

IV. Modernização e modernidade: uma breve ilustração

Apenas com o propósito de ilustrar o que se propõe, e na esperança de tornar menos árida a exposição, caberia tomar aqui uma questão canônica em ciências sociais que nos sirva de guia a alguns dos problemas envolvidos. (21) Penso no tema geral da modernização, a que a busca de alguma "direção" para a história nos impele inevitavelmente quando consideramos o transcurso dos últimos quatro ou cinco séculos da humanidade, mas que pode ser extrapolado pelo menos até a Baixa Idade Média — conforme se identifiquem as características básicas do processo. Incontestavelmente um dos temas axiais de toda reflexão sobre as sociedades humanas levada a cabo durante os últimos dois séculos, o conceito de "modernização" certamente já se expôs a abusos de toda sorte, e sofreu com generalizações arbitrárias, extrapolações apoiadas em pouco mais que wishful thinking etc. Quando se toca nesse assunto, imediatamente nos ocorre (pelo menos a mim e a meus colegas da ciência política) a literatura sobre política comparada produzida nos anos 60, que recorreu abundantemente à categoria da "modernização" e do "desenvolvimento político" — e nem sempre, é certo, com a devida cautela. (22) Contudo, não obstante as impropriedades certamente cometidas, acredito que o legado dessa literatura é potencialmente muito mais fecundo do que pode nos fazer crer o seu quase completo abandono pela produção dos últimos anos.

Um primeiro ponto curioso que talvez valha a pena ressaltar é a observável "migração" ocorrida nas últimas décadas, do uso generalizado da palavra "modernização" para sua quase extinção no âmbito da literatura acadêmica, substituída avassaladoramente pela referência à "modernidade". Aparentemente, tal migração teria obedecido ao propósito de se evitarem certas implicações tidas por inaceitavelmente determinísticas, e de cunho etnocentrista, usualmente associadas, não sem boas razões, ao uso do termo "modernização" feito pela sociologia política americana dos anos 60. É possível, todavia, que sua substituição usual pela referência à "modernidade" feita pela sociologia contemporânea, longe de evitar o problema, acabe por agravá-lo a partir de uma reificação da época contemporânea que, tentando evitar apontar um estado de coisas ideal — ou, de algum modo, melhor — implícito no termo "modernização", acaba por postular de maneira simplificadora um certo estado de coisas que de alguma maneira descreva a nossa época e possa estar reunido por debaixo do rótulo "modernidade". Tentando evitar supor um estado de coisas ideal a ser alcançado, a adesão ao termo "modernidade" acaba por inadvertidamente supor que este estado de coisas já chegou.

Todavia, posta a questão nesses termos, a modernidade é a Inglaterra vitoriana ou o estado do bem-estar social do pós-guerra? O individualismo de que a sociedade norte-americana se constituiu em arquétipo, ou o organicismo nazi-fascista (ou comunista)? A prosperidade e a expansão das possibilidades de consumo oferecidas pela operação do mercado, ou os surtos de fome recorrentes na África? Naturalmente, a presunção geral é a de que ela é tudo isso. Mas, para essa solução, é crucial a remissão a um processo subjacente, cuja complexidade dinâmica produz resultados episódicos próprios em circunstâncias distintas — desde que se possam deduzir essas conseqüências a partir de um conjunto identificável, minimamente parcimonioso, de características elementares do processo, presentes ao longo de todo o percurso. O formato de sociedade tipicamente esperável da operação desse conjunto de fatores pode, em princípio, configurar algo a que chamemos "modernidade" — um tipo ideal como qualquer outro. Mas o processo estará inequivocamente presente, mesmo de maneira implícita, pois embora se possa em princípio privilegiar a descrição — por mais complexa que se revele — do estado de coisas historicamente observado ao longo da modernização, ele nunca poderá ser caracterizado teoricamente senão como um "instantâneo", num ponto qualquer do tempo, dos resultados concretos de um processo que lhe é subjacente, de uma dinâmica social específica engendrada a partir da confluência de um determinado conjunto de circunstâncias em algum ponto do passado, talvez há séculos. Assistimos ainda ao desenrolar desse processo — certamente contraditório, tenso, muitas vezes extremamente violento, e ainda presa de oscilações esporádicas que fazem com que tudo pareça reverter, que valores supostamente enterrados para sempre ressurjam com força inaudita logo adiante, adiando e, com freqüência, frustrando os sonhos otimistas dos modernizadores mais utópicos. Concebendo, portanto, as peculiaridades da história dos últimos séculos como as vicissitudes de um processo (de cuja "conclusão" podemos efetivamente estar muito mais distantes do que a ciência social do século XX tendeu a acreditar — do leninismo a Fukuyama, passando pela sociologia política americana dos anos 60), podemos legitimamente nos perguntar sobre as suas características básicas. Poderei dizer que vejo, assim, um mundo em "modernização", se puder estabelecer as linhas básicas desse processo, seus elementos deflagradores, suas linhas de mudança, sua direção geral. A "modernidade" se caracterizará sobretudo pela extrapolação na direção do futuro das linhas básicas de continuidade do processo em curso. Numa palavra, a modernidade se constitui sobretudo como utopia. Não é por acaso que Habermas a ela se refere em diversos trabalhos como "projeto inacabado". Isso é apenas outra maneira de dizer "processo em curso" — apenas resvalando discretamente para certa "teleologia objetiva"...

V. Para uma conclusão: positivismo, cultura e história

Caberia, enfim, contrastar com modéstia nossas perplexidades de hoje com o otimismo gnoseológico daqueles que nos antecederam em um século, e sobre cujos ombros nos encontramos refastelados desde então. Desde o dia em que pisam pela primeira vez numa universidade, as atuais gerações são habituadas a referir-se com desdém ao "positivismo" prevalecente na atmosfera intelectual do século XIX — e ele poderá ser identificado não apenas em seu principal apóstolo Augusto Comte, mas também seguramente em Herbert Spencer e Émile Durkheim, eventualmente em Max Weber e mesmo Karl Marx. E a grande ironia é que não conseguimos nos livrar da herança destes homens, todos nascidos há bem mais de um século e ainda hoje a conformar pesadamente a formação de nossos alunos (a um ponto que até eu me inclino por julgar exagerado). Como conciliar nossa dependência intelectual em relação a eles com nossa facilidade em atribuir-lhes tamanha ingenuidade epistemológica?

Não acredito que essa pergunta comporte resposta que nos absolva. Por isso busquei, na epígrafe deste trabalho, apontar uma agenda positiva para as ciências sociais em um autor certamente insuspeito quando a acusação é positivismo. De fato, parece-me um tanto melancólico avaliar em que ponto nos encontramos hoje na realização da empreitada que Nietzsche ali designa — ainda que ironicamente — como "a imensa tarefa dos grandes espíritos do próximo século": "um conhecimento das condições da cultura" que até então não havia sido atingido, e que deve ser obtido, "como critério científico para objetivos ecumênicos", para que a humanidade não se destrua com o "governo global consciente" que se impõe com "o fim da crença de que um deus dirige os destinos do mundo". É bastante surpreendente descobrir que um espírito patentemente "antipositivista" como Nietzsche não se faz de rogado quando tece comentários sobre o futuro, esboça prognósticos e agenda tarefas para o século que se lhe seguiria. E é bastante lamentável perceber que o seu prognóstico histórico se materializa em larga medida, mas nos colhe desprevenidos em virtude de nosso colossal fracasso no cumprimento da tarefa que ele nos atribuiu então. Em virtude do fato de que (também) ele acertou seu prognóstico, não temos escolha: ou tomamos a sério a tarefa que ele nos lega e acreditamos francamente na possibilidade da fundamentação científica — por um conhecimento das "condições da cultura" — dos critérios que presidirão nossos objetivos ecumênicos, ou somos obrigados a aceitar sua ironia, mesmo seu escárnio, e resignarmo-nos com nossa impotência frente ao mundo. Neste caso, teremos de rejeitar todo o racionalismo ocidental; todo o ethos que decorre da tese socrática — endossada por Marx — segundo a qual é possível modificar (e melhorar) o mundo e a vida humana pelo uso da razão, pelo aprendizado racional que pode decorrer da apropriação sistemática de nossa interação com o mundo; e poderemos, sem remorsos, recomendar o fechamento dos nossos cursos e departamentos.

É particularmente digno de atenção que Nietzsche tenha se referido ao conhecimento científico das "condições da cultura" como a tarefa política central que uma sociedade secularizada tem diante de si. Pois rapidamente a "cultura" se tornou a grande "caixa-preta" conceitual diante da qual a ciência social se deixou paralisar, e todo relativismo procurou seu ponto de apoio. Vê-se que Nietzsche não estava divagando, mas sabia apontar com precisão o calcanhar-de-Aquiles mais provável de um esforço de organização racional da convivência humana. Mas os progressos da sociologia na primeira metade deste século (inclusive no campo de um conhecimento científico das "condições da cultura") sugerem que não há nada de intrínseco ao objeto "cultura" que impeça em princípio sua decomposição analítica, e o torne inerentemente incompreensível por meios teóricos racionais. O estádio que foi alcançado em poucas décadas de trabalho pela primeira geração de sociólogos, um século atrás, e sua capacidade de pautar fortemente, ainda hoje, todo nosso trabalho indicam do que é capaz uma adesão "ingenuamente positivista" à tarefa de se fazer uma ciência da sociedade, da história ou da cultura. Pois esse ânimo é tudo o que compartilhavam os integrantes da geração de nossos fundadores, que incluiu Durkheim, Weber, Simmel, Tönnies, Pareto e alguns outros — e esse traço pode ser também inequivocamente atribuído a seu principal precursor, Karl Marx. Por contraste, a sociologia da segunda metade do século XX é extraordinariamente hesitante (na melhor das hipóteses, tímida) na afirmação do caráter científico de sua atividade — e pagamos por isso o preço da dispersão descrita nas seções anteriores.

Uma ilustração bastante singela da possibilidade de apreensão tecnicamente simples, mas inequivocamente científica, de fenômenos ligados a o que se designa genericamente como traços "culturais" de uma sociedade — diante dos quais temos freqüentemente deixado paralisar a análise — pode ser encontrada no trabalho a que Ronald Inglehart já dedica trinta anos de sua vida profissional. Trata-se dos World Values Surveys, conduzidos em ondas periódicas sucessivas a partir do Institute for Social Research da Universidade de Michigan, e que hoje já alcançam mais de sessenta países em todo o mundo. Não se trata aqui de subscrever ou endossar as conclusões específicas que Inglehart alcançou com seus estudos (a despeito de seu inegável interesse, o teor dessas conclusões não é relevante aqui). O que pretendo sublinhar é que seu trabalho ilustra a plena viabilidade de uma aproximação teórica e metodologicamente informada de questões de natureza "cultural", na medida em que os surveys se orientam por identificar padrões culturais a partir das respostas obtidas a questões sobre valores pessoais e orientações normativas diversas com relação a uma ampla variedade de temas.

E aqui nos aproximamos finalmente de um dos objetos centrais desta mesa: ao trazer de novo a menção à técnica de survey, agora para tratar especificamente de objeto de natureza "cultural", tal como as orientações valorativas de populações dispersas por todo o mundo, trago à baila de maneira implícita a postulação da pertinência do recurso a técnicas "quantitativas" de análise para o tratamento de qualquer objeto em ciências sociais. De fato, inclino-me por abordar a interminável e muitas vezes equivocada polêmica em torno do emprego de métodos quantitativos e qualitativos em ciências sociais de maneira um tanto impaciente, que tende a trivializar a discussão: como já afirmei acima, nosso problema é sempre dizer coisas lógicas a respeito de eventos e processos no mundo, de maneira a compreender esses eventos e processos, assim como a outros — análogos — que possam acontecer; se é assim, minha técnica de aproximação será eventualmente quantitativa, sempre que meu objeto puder ser contado ou medido, e portanto se prestar a "operações lógicas quantitativas" — vale dizer, matemáticas. Isto por si só já valeria como qualificação da terrivelmente nefasta tese das "duas culturas" (a científica e a humanística), que tantos ignorantes produziu e legitimou em ambas — e que foi involuntariamente vulgarizada por C. P. Snow ao tentar questionar a distinção em The Two Cultures. Mas creio que se pode acrescentar algo: as técnicas estatísticas serão tanto mais fecundas e bem-vindas quanto menos o objeto parecer prestar-se de maneira óbvia à dedução lógica intuitivamente evidente. Com o survey, ampliamos os números, controlamos formalmente a aleatoriedade envolvida, e eventualmente um pouco de sorte e boa dose de trabalho árduo junto aos dados poderão prestar ajuda inestimável à indispensável reflexão teórica, para identificar padrões não-óbvios de interdependência entre as variáveis envolvidas no estudo.

Em boa hora o Doutorado em Sociologia e Política da UFMG decidiu recentemente ignorar a reafirmação obscurantista das "duas culturas" e sediar um esforço institucional sério para sanar uma deficiência notória da ciência social brasileira, ao inaugurar um curso anual de metodologia quantitativa em ciências sociais, e esforçar-se por consolidar uma cooperação continuada com a Universidade de Michigan nessa área, que incluirá, a partir deste ano, a realização de um survey anual na Região Metropolitana de Belo Horizonte com o propósito de formar e capacitar novos pesquisadores, viabilizar e intensificar a pauta de pesquisa dos profissionais da casa, e produzir rotineiramente dados de interesse público. Mas se as teses que animam este pequeno trabalho estiverem minimamente corretas, os desafios que se apresentam a esta iniciativa vão muito além do preenchimento de uma conhecida lacuna na formação dos cientistas sociais brasileiros.

Bruno P. W. Reis
brunopwr@uai.com.br

Notas

  1. * Trabalho preparado para encontro do grupo de trabalho sobre "História Quantitativa e Serial" da Associação Nacional de História (ANPUH), realizado em Ouro Preto, em Dezembro de 2000. Agradeço ao Prof. Adriano Sérgio Lopes da Gama Cerqueira (UFOP), coordenador do GT, pelo gentil convite.
  2. Fischer, Historians' Fallacies, de 1970.
  3. Fischer, Historians' Fallacies, pp. ix-xii.
  4. Esta seção apoia-se largamente em argumentação mais extensamente desenvolvida em minha tese de doutorado, "Modernização, Mercado e Democracia", esp. cap. 1, pp. 12-6.
  5. Schluchter, The Rise of Western Rationalism, p. 4, atribui esta leitura de Weber a intérpretes como Reinhard Bendix, Guenther Roth e Johannes Winckelmann, entre outros. A posição contrária — que identifica em Weber um autor fundamentalmente evolucionário — Schluchter atribui a Friedrich Tenbruck. Em seu livro, Schluchter procura adotar uma posição intermediária, mas claramente se inclina por sublinhar o que há de "desenvolvimental" no argumento weberiano.
  6. Conforme a reconstrução feita por Schluchter, The Rise of Western Rationalism, pp. 129-30, as orientações estruturalmente possíveis da ação são três ("afetiva", "para valores" ou "para o sucesso"), todas elas (com a exceção parcial da ação afetiva) sujeitas a desenvolvimento, "which leads to a general rationalization of action".
  7. Tenho me habituado a recorrer ao barbarismo "desenvolvimental" para traduzir a palavra inglesa "developmental", tendo em vista a contaminação do adjetivo "desenvolvimentista", no Brasil, por certa orientação doutrinária que diz respeito sobretudo à política econômica, portadora de conotações totalmente alheias à questão de natureza metodológica relevante aqui.
  8. Bendix, "Tradition and Modernity Reconsidered", esp. pp. 274-314.
  9. Bendix, "Tradition and Modernity Reconsidered", pp. 275-6.
  10. Bendix, "Tradition and Modernity Reconsidered", pp. 290-3.
  11. Sou grato a Renan Springer de Freitas por me fazer ver a necessidade de lidar com o caso de Bendix.
  12. Schluchter, The Rise of Western Rationalism, p. 175. Naturalmente, a identificação de atributos distintivos num objeto qualquer não exclui — antes requer — que a comparação com outros objetos se faça apoiada em analogias referidas a um aparato analítico que se pretende universalmente aplicável. Paul Veyne, O Inventário das Diferenças, p. 30, exemplificou o ponto:
  13. "Um físico explica e individualiza ao mesmo tempo um fenômeno concreto, aplicando-lhe a fórmula certa, substituindo as letras da álgebra pelas cifras, que são circunstanciais; da mesma forma, a explicação histórica e sociológica (trata-se da mesma) consiste em relacionar um acontecimento a um modelo trans-histórico, que se individualiza jogando-se com as variáveis."

  14. (Devo a Antonio Mitre a indicação da analogia entre alguns argumentos de Paul Veyne e o ponto de vista defendido aqui.)

  15. Schluchter, The Rise of Western Rationalism, p. 176 (grifos meus).
  16. Cf. Karl Popper, "Previsão e Profecia nas Ciências Sociais", pp. 338-9.
  17. Cf. Karl Popper, A Miséria do Historicismo.
  18. Para uma análise crítica mais detida sobre a ambigüidade de Popper neste ponto, ver Fábio W. Reis, "Mudança, Racionalidade e Política", esp. pp. 24-7 (texto relevante para diversos desdobramentos do presente argumento, sobretudo para a questão da atribuição de sentido à história, ainda que com ênfases e objetivos distintos).
  19. Van den Berg, "Is Sociological Theory Too Grand for Social Mechanisms?", pp. 205-6. É necessário dizer que o caso de Habermas ocupa lugar peculiar no argumento de van den Berg. Pois, se ele acusa os demais de praticamente se restringirem a reenunciar — sob jargão mais ou menos novo (e portanto provavelmente mais obscuro) — velhas ambigüidades e dilemas clássicos da teorização sociológica, Habermas inequivocamente teoriza: formula novas questões, e dá-lhes respostas pessoais e originais. Ele apenas censura em Habermas o que acredita ser uma forte subordinação do plano descritivo de sua análise ao plano normativo, eventualmente em prejuízo da clareza analítica do argumento. Para um exemplo bastante claro da imprecisão analítica que Habermas se permite em pontos cruciais, van den Berg (p. 208) menciona as relações entre ação comunicativa e mundo da vida: "There is much confusion and debate about whether Habermas thereby wishes to claim that "communicative rationality" in this sense is logically implied by, inherent in, necessary for, presupposed by, or the necessary means of the reproduction of the lifeworld".
  20. Sørensen, "Theoretical Mechanisms and the Empirical Study of Social Processes", esp. pp. 238-47.
  21. Sørensen, "Theoretical Mechanisms and the Empirical Study of Social Processes", p. 247, nos lembra que no final dos anos 60 os sociólogos tinham mais experiência com o uso de dados de surveys de grande escala do que os economistas — e maiores facilidades de financiamento para suas pesquisas também.
  22. Acredito que isto pode ser adequadamente ilustrado por uma rápida consulta ao New Handbook of Political Science, organizado em 1996 por Robert Goodin e Hans-Dieter Klingemann. Orientado para capturar as tendências e novidades mais importantes detectáveis desde a publicação dos oito volumes do primeiro Handbook of Political Science, por Fred Greenstein e Nelson Polsby em 1975, o novo volume é patentemente pautado pelo impacto da "escolha racional" sobre a ciência política: em quase todas as áreas da disciplina em que se divide a obra, o foco da apresentação é a avaliação dos méritos relativos da abordagem "micro", ou "individualista", sobre o tema em questão, em contraste com abordagens "convencionais", freqüentemente ditas "sociológicas".
  23. Talvez alguém queira retrucar que também a física (mais precisamente a cosmologia) pode ser histórica, quando se ocupa de processos tais como a origem do universo ou o seu colapso, mas penso que essa analogia não pode ser levada longe ao ponto de cancelar o argumento acima. Uma determinada massa de um elemento qualquer, digamos de ferro, sob condições determinadas de temperatura e pressão, e velocidade e volume mantidos constantes, terá comportamento idêntico em qualquer ponto no tempo. O mesmo não é rigorosamente válido para grupos humanos: por mais que especifiquemos variáveis genéricas em termos formais, e que isto nos auxilie na tipificação de comportamentos esperáveis em qualquer ponto do tempo, a configuração global das circunstâncias sob a qual se dá a ação se apresenta diferentemente em cada época histórica, e os modelos de comportamento terão sobretudo valor heurístico, em sua aplicação a épocas variadas. Talvez o livre-arbítrio de que goza nossa unidade de análise (o ser humano) também ajude a definir a especificidade de nossa ciência. Pois é a isto que se refere uma distinção crucial entre ciências naturais e sociais: por causa do livre-arbítrio humano o conhecimento de que dispõem as pessoas condiciona e modifica historicamente o seu comportamento. Por isso, uma teoria sociológica é sociologicamente relevante, mas uma teoria física (embora também possa ser sociologicamente relevante) não é fisicamente relevante. Não foi à toa que Einstein se queixou de que a física quântica queria atribuir livre-arbítrio às partículas...
  24. Os próximos parágrafos utilizam-se de trechos extraídos de minha tese de doutorado, "Modernização, Mercado e Democracia", pp. 12-5.
  25. Para críticas detalhadas (e, num certo sentido, "internas") da literatura de então, pode-se recorrer a Samuel Huntington, "The Change to Change", e Harry Eckstein, "The Idea of Political Development".

Referências bibliográficas

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