O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
30 de Maio de 2005 ⋅ Filosofia

Razão

A. C. Grayling
Birkbeck College London

A razão pode lutar corpo a corpo
com os terrores, e derrubá-los.

Eurípedes

Os conflitos que mais chamam a atenção nas notícias tendem ou a ser de natureza política e militar, ou a envolver a luta entre as pessoas e o ambiente natural quando, nas inundações, nas secas e nas pragas, este se torna hostil. Mas subjacente a estes, e deles distinta uma vez que se trata de uma luta cujas proporções são as da própria história, encontra-se outra luta, uma luta profunda e muito importante porque dá forma aos destinos humanos de longo prazo. Trata-se da luta das ideias, exprimindo-se em termos de ideologias, política e enquadramentos conceptuais que determinam convicções e morais. A nossa compreensão da situação humana e as escolhas que fazemos na gestão das indisciplinadas e difíceis complexidades da existência social assentam em ideias — geralmente, ideias sistematizadas em teorias. São as ideias que, em última instância, arrastam as pessoas para a paz ou a guerra, que dão forma aos sistemas em que vivem e que determinam o modo como os escassos recursos mundiais são partilhados. As ideias têm importância e, por conseguinte, também a tem a questão da razão, através da qual as ideias vivem ou morrem.

Vista a uma certa luz, a razão é o armamento das ideias, a arma empregue nos conflitos travados entre pontos de vista. Isto indica que, num certo sentido, a razão é um absoluto que, correctamente utilizado, pode pôr termo a disputas e guiar-nos até à verdade. Mas a razão, entendida desta forma, tem sempre inimigos. Um deles é a religião, que afirma que a revelação, vinda de além-mundo, veicula verdades que não podem ser descobertas pela investigação humana, situada no seu seio. Outro desses inimigos é o relativismo, a opinião de que as diferentes verdades, as diferentes opiniões, as diferentes formas de pensar são todas igualmente válidas, não existindo um ponto de vista com autoridade, do qual elas possam ser avaliadas. Os grandes debates ocorridos entre ciência e religião constituem expressões clássicas deste conflito subjacente que existe entre concepções concorrentes acerca do lugar e natureza da razão.

A maior parte da ciência e da filosofia encontra-se do lado que afirma que a razão, apesar das suas imperfeições e falibilidades, fornece uma norma à qual os pontos de vista concorrentes têm de se submeter para apreciação. Os defensores da razão são, assim, hostis às opiniões "pós-modernistas" agora em voga, que afirmam a existência de autoridades mais poderosas do que a razão, como a raça, a tradição, a natureza ou as entidades sobrenaturais.

Pensava-se, outrora, que as características e valores humanos permaneciam inalterados, mas a engenharia social e as outras formas de engenharia tornaram-nos variáveis manipuláveis e, em resultado disso, perdemos as premissas com base nas quais raciocinávamos acerca dos fins e dos meios. O poder da tecnologia oferece-nos múltiplas escolhas e, desta forma, usurpa os pontos de partida fixos do passado; assim, andamos à deriva, indecisos quanto a valores e objectivos. Nestas circunstâncias, as vozes das sereias fazem-se ouvir mais alto: acreditemos em deuses, dizem elas, ou poções, ou configurações planetárias, como forma de nos orientarmos. Ou, na linguagem pós-modernista: reconheçamos que só há "discursos", cada um tão válido como o anterior.

Poderá ser verdade que a experiência humana é agora mais fragmentada e assediada por ironias do que outrora foi, e que isso debilita a confiança. Mas, ainda assim, dizem os defensores da razão, a razão continua a ser, de longe, o melhor guia na procura do conhecimento, e portanto, apesar dos seus defeitos e limitações, não nos devemos distanciar dela.

Há muitas pessoas que rejeitam completamente esta opinião. A civilização ocidental está em crise, dizem, precisamente porque acreditamos na razão. Vivemos na escravidão de um ideal utópico de sociedade racional, sugerido em primeiro lugar pelos pensadores iluministas, no século XVIII; mas o resultado, contrário às esperanças de pessoas como Voltaire, não libertou a humanidade; antes a escravizou num corporativismo burocrático que cambaleia, incontido por um desígnio moral, de desastre em desastre.

O argumento anti-racionalista diz mais ou menos o seguinte: Os filósofos iluministas procuraram resgatar as pessoas da arbitrariedade do poder real ou clerical, substituindo-o pelo governo da razão. Mas o seu sonho ruiu devido às limitações da própria razão. O que aconteceu foi apenas um aumento da influência das elites técnicas. O mundo, em suma, tornou-se um feudo dos gestores. Os detentores do capital não controlam o capital, os eleitores não controlam a política — tudo é governado por gestores que, e só eles, sabem como manipular as complexidades estruturais da sociedade. E os objectivos dos gestores — lucro, vitórias eleitorais — não obedecem à moral.

Este corporativismo tecnocrata aplicava-se tanto ao antigo Bloco de Leste como se aplica ao Ocidente. Na verdade, dizem tais críticos, a distinção Leste-Oeste, como a distinção entre Esquerda e Direita, não é sequer uma distinção verdadeira, mas uma ficção da estratégia gestora através da qual a Era da Razão se sustenta a si mesma.

Basta elaborar uma lista dos problemas da civilização contemporânea para que qualquer pessoa consiga apresentar argumentos reveladores. Os críticos da razão fazem-no bastante eloquentemente. Os políticos, lembram-nos eles, conseguem safar-se dizendo disparates literais porque o que conta é a forma, e não o conteúdo, do que dizem. Os governos prosseguem com despudor no poder, apesar dos seus insucessos, porque deixou de vigorar o conceito de responsabilidade. A televisão, a publicidade e o culto de heróis artificiais, como é o caso das estrelas de telenovelas, cegam as pessoas para a situação difícil que o mundo vive.

Estes fenómenos, assim como muitos outros, constituem sintomas de grande mal-estar. Piores ainda são exemplos como o comércio de armas, incentivado por governos que proferem declarações pias sobre paz e liberdade, mas que subvertem ambas ao participarem naquilo que não é senão contrabando legal de armas. E isto é apenas uma parte da história, na qual prospera a autoridade militar estabelecida — ébria de obsessões com a gestão e a tecnologia — e muitos locais do mundo se encontram perpetuamente envolvidos em guerras.

Embora este compêndio de problemas não contenha novidades, falar deles serve para nos manter alerta. Contudo, a culpa dos problemas mundiais não pode ser atribuída a um conceito — e muito menos ao conceito de razão, preferido do Iluminismo —, mas a pessoas. A razão é meramente um instrumento que, correctamente utilizado, ajuda as pessoas a fazer inferências a partir de determinadas premissas, sem inconsistências. O importante é escolher premissas sólidas — e essa é uma responsabilidade exclusivamente humana. Atribuir culpa à "razão" é tão desprovido de sentido como atribuir culpa à "memória" ou à "percepção". Foi o racismo dos nazis, e não a lógica que eles aplicaram na expressão real do seu ódio, que causou o Holocausto.

Pretendem os críticos afirmar que o uso da razão é mau, sem quaisquer reservas? Imagino-os a utilizar os seus processadores de texto, a atender o telefone, a tomar antibióticos para a garganta inflamada, a accionar interruptores para conseguir calor e luz, ao cair da noite fria. Estes produtos da razão são todos desprezíveis?

A confusão que grassa no pensamento dos críticos da razão revela-se quando analisamos a alternativa que propõem. Oferecem-nos uma lista de virtudes, que deveríamos colocar no lugar da razão; uma destas listas inclui o seguinte: "espírito, desejo, fé, emoção, intuição, vontade, experiência." Reparamos imediatamente que todas elas, com excepção da última, a não serem governadas pela razão, são exactamente aquilo que alimenta o fanatismo e as guerras santas. Aqui jaz a pobreza da perspectiva anti-racionalista.

A. C. Grayling

Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Retirado de O Significado das Coisas (Lisboa: Gradiva, 2004)
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