Noam Chomsky
Filosofia

Acerca do pós-modernismo, teoria, modas, etc.

Noam Chomsky

Regressei de uma conferência que me obrigou a viajar, no que gastei uma boa parte da minha vida, e encontrei uma colecção de mensagens ampliando a discussão acerca de "teoria" e "filosofia," um debate que acho bastante curioso. Eis umas quantas reacções — embora admita, desde já, que posso simplesmente não compreender o que está a ser discutido.

Tanto quanto julgo compreender, o debate começou com a acusação de que eu, Mike e provavelmente outros, não temos "teorias" e portanto não conseguimos dar qualquer explicação de por que razão as coisas são como são. Devemos voltar-nos para "teoria", "filosofia", "construções teóricas" e similares para remediar esta deficiência nos nossos esforços para compreender e abordar o que acontece no mundo. Não quero falar por Mike. A minha resposta até agora tem sobretudo consistido em reiterar algo que escrevi há 35 anos, muito antes do "pós-modernismo" ter irrompido na cultura literária e intelectual: "se há um corpo de teorias, bem testadas e verificadas, que se aplicam à condução dos assuntos externos ou à resolução de conflitos domésticos e internacionais, a sua existência tem sido um segredo bem guardado", apesar de muita "pose pseudo-científica".

Para mim, a afirmação era exacta há 35 anos e continua a sê-lo; além disso, alarga-se ao estudo dos assuntos humanos em geral, e aplica-se de igual modo ao que foi produzido desde essa altura. O que mudou no ínterim, tanto quanto julgo saber, foi uma imensa explosão de auto-elogio e elogios mútuos entre aqueles que propõem o que chamam "teoria" e "filosofia", mas pouco que eu possa detectar além de uma "pose pseudo-científica". Esse pouco é, como escrevi, algumas vezes bastante interessante, mas sem consequências para os problemas do mundo real que ocupam o meu tempo e energias (mencionei a importante obra de Rawls, quando especificamente questionado).

Este último facto deu nas vistas. Um excelente filósofo e especialista em teoria social (assim como um activista), Alan Graubard, escreveu há anos um interessante estudo da resposta "libertária" de Robert Nozick' a Rawls, e das suas reacções. Ele mostrou que as reacções foram bastante entusiásticas. Os críticos enalteceram o poder dos argumentos, etc., mas nenhum aceitou qualquer das conclusões do mundo real (a menos que as tenham previamente atingido). Isto está correcto, tal como as suas observações acerca do que significa.

Os proponentes da "teoria" e "filosofia" têm uma tarefa muito fácil se quiserem estabelecer o seu ponto de vista. Façam-me simplesmente conhecer o que era e continua a ser um "segredo" para mim: terei todo o gosto em ver. Perguntei muitas vezes antes e ainda espero uma resposta que deveria ser fácil dar: dêem simplesmente alguns exemplos de "um corpo de teorias, bem testadas e verificadas, que se aplique aos "géneros de problemas e assuntos em que Mike, eu, e muitos outros (de facto, a maior parte da população mundial que, julgo, está fora dos limitados e notavelmente auto-controlados círculos intelectuais) estão ou deveriam estar interessados: os problemas e assuntos de que falamos e escrevemos, por exemplo, e outros semelhantes. Para o dizer de outro modo, mostrem que os princípios da "teoria" ou "filosofia" que nos dizem para estudar e aplicar conduzem por argumentos válidos a conclusões que nós e outros ainda não atingimos por outros (e melhores) meios; estes "outros" inclui pessoas sem formação formal, que caracteristicamente parecem não ter qualquer problema em atingir estas conclusões através de interacções mútuas, que evitam completamente as obscuridades "teóricas", ou muitas vezes por si mesmos.

Mais uma vez, estas são exigências simples. Fi-las antes e continuo no meu estado de ignorância. Tirei igualmente algumas conclusões disso.

Quanto à "desconstrução" que é levada a cabo (também mencionada no debate), não posso comentar porque a maior parte me parece algaraviada.

Mas se isto é apenas outro sinal da minha incapacidade para reconhecer profundidades, o percurso a seguir é claro: é só voltarem a expor-me os resultados em palavras claras que eu possa compreender, e mostrem por que razão são diferentes de, ou melhores que, o que outros fizeram muito antes e continuaram a fazer desde então sem palavras caras, frases incoerentes, retórica aparatosa que (pelo menos para mim), em larga medida, não faz sentido, etc. Isso curará as minhas deficiências — se são curáveis, claro. Talvez não o sejam. Haveremos de voltar a esta possibilidade.

Se têm algum fundamento as alegações expressas com tanto fervor e indignação, estas exigências são muito simples de cumprir. Mas em vez de tentarem fornecer uma resposta a estas exigências simples, a resposta consiste em gritos de cólera: levantar estas questões mostra "elitismo" "anti-intelectualismo" e outros crimes — embora aparentemente não seja "elitista" pertencer a sociedades de auto-elogio e elogios mútuos de intelectuais que falam apenas uns para os outros e (tanto quanto sei) não entram no género de mundo em que prefiro viver. Quanto a esse mundo, posso rapidamente inventariar os meus discursos e escritos para ilustrar o que quero dizer, embora presuma que a maior parte das pessoas nesta discussão sabe, ou pode facilmente descobrir; e, seja como for, nunca aí encontro os "teóricos", nem vou às suas conferências e festas.

Em resumo, parecemos habitar mundos muito diferentes e acho difícil ver por que razão o meu é "elitista" e não o deles. É o contrário que manifestamente me parece ocorrer, embora eu não dê a isso importância.

Para acrescentar outra faceta, estou completamente afogado em pedidos para falar e não posso aceitar sequer uma fracção dos convites que gostaria, de modo que sugiro outras pessoas. Mas estranhamente nunca sugiro aqueles que propõem "teorias" e "filosofia", nem os encontro, ou para esse tipo de coisas raramente mesmo os seus nomes, na minha (razoavelmente extensa) experiência com grupos e organizações populares e activistas, comunidades, colégios, igrejas, sindicatos, etc., audiências aqui e no estrangeiro, mulheres do terceiro mundo, refugiados, etc.; posso facilmente dar exemplos. Gostava de saber porquê.

Este é então um estranho debate. De um lado acusações iradas e denúncias; do outro, a exigência de algumas provas e argumentos que as suportem, à qual a resposta é mais acusações iradas — mas, impressionantemente, nenhumas provas ou argumentos. Uma vez mais sou levado a perguntar-me porquê.

É possível que esteja simplesmente a não conseguir ver algo, ou que me falte a capacidade intelectual para compreender as profundidades que foram desenterradas nos últimos 20 anos pelos intelectuais de Paris e pelos seus seguidores. Tenho o espírito completamente aberto, e tive-o durante anos, quando acusações similares me foram feitas — mas sem responderem às minhas questões. Uma vez mais, são questões simples e, se existe uma resposta, deveriam ser fáceis de responder. Se não estou a ver algo, então mostrem-me o que é em termos que possa compreender. Claro que se está para além da minha compreensão, o que é possível, sou uma causa perdida e serei obrigado a dedicar-me a coisas que pareço ser capaz de compreender, e a associar-me com o género de pessoas que também parecem por elas interessar-se e compreendê-las (o que me deixa muito feliz fazer, uma vez que não tenho nenhum interesse, agora e sempre, nos sectores da cultura intelectual que se ocupam destas coisas, mas aparentemente de pouco mais).

Uma vez que ninguém conseguiu mostrar-me o que não estou a ver, resta-nos a segunda opção: sou incapaz de compreender. Desejo certamente admitir que isso pode ser verdade, embora receie que terei de manter alguma suspeita, por razões que parecem boas. Há muitas coisas que não compreendo — digamos, os últimos debates sobre se os neutrinos têm massa ou a forma como o último teorema de Fermat foi (aparentemente) demonstrado, recentemente. Mas em 50 anos neste jogo, aprendi duas coisas: 1) posso pedir a amigos que trabalham nestas áreas que mo expliquem a um nível que possa compreender, e eles podem fazê-lo sem grandes dificuldades; 2) se estou interessado, posso tratar de aprender mais de modo a vir a compreendê-lo. Ora, Derrida, Lacan, Lyotard, Kristeva, etc. — mesmo Foucault, que conheci e de quem gostei, e que de algum modo é diferente do resto — escrevem coisas que não só não compreendo, mas a que 1) e 2) não se aplicam: ninguém que diga que compreende pode explicar-mo e não tenho uma indicação de como proceder para vencer as minhas incapacidades. Isso deixa uma de duas possibilidades:

a) ocorreu algum novo avanço na vida intelectual, talvez alguma mutação genética súbita, que criou uma forma de "teoria" que está para além da teoria quântica, topologia, etc., em profundeza e profundidade; ou

b) ... não o direi.

Uma vez mais, vivi durante 50 anos nestes mundos, fiz uma razoável quantidade de trabalho nos campos chamados "filosofia" e "ciência", assim como em história intelectual, e tenho um razoável conhecimento pessoal da cultura intelectual nas ciências, nas humanidades, nas ciências sociais e nas artes. Isso deixou-me com as minhas próprias conclusões acerca da vida intelectual, que não direi. Mas aos outros, sugiro simplesmente que peçam aos que vos falam acerca das maravilhas da "teoria" e da "filosofia" que justifiquem as suas afirmações — que façam o que as pessoas de física, matemática, biologia, linguística, e de outros campos ficam contentes em fazer quando alguém lhes pergunta, com seriedade, quais são os princípios das suas teorias, em que provas se baseiam, o que explicam que não é já óbvio, etc. Estas exigências são razoáveis. Se não podem ser satisfeitas, então sugiro que se recorra ao conselho de Hume em circunstâncias similares: deitem-nas às chamas.

Um comentário específico: Phetland perguntou a quem me refiro quando falo da "escola de Paris" e "cultos pós-modernistas": o que disse acima é um exemplo.

Ele então pergunta, razoavelmente, por que razão os "repudio". Peguemos, digamos, em Derrida. Começo por dizer que não gosto de fazer o género de comentários que se seguem sem fornecer provas, mas duvido que os participantes queiram uma análise detalhada de Saussure, digamos, neste fórum, e sei que não irei fazê-lo. Não o diria se a minha opinião não tivesse sido explicitamente pedida — e se me pedirem para a apoiar, responderei que não merece o tempo gasto para fazê-lo.

Peguemos então em Derrida, que é um dos gurus. Penso que devo pelo menos ser capaz de compreender a sua "Gramatologia" pelo que tentei lê-la. Deveria poder perceber parte dela — por exemplo, a análise crítica dos textos clássicos que conheço muito bem e sobre os quais escrevi durante anos. Achei a proficiência académica aterradora, baseada numa patética leitura errada; e os argumentos, tal como estavam, eram incapazes de se aproximarem do género de padrões a que estou acostumado praticamente desde a infância. É possível que não tenha visto algo: pode ser; mas a suspeita mantém-se, como já notei. Uma vez mais, peço desculpa por fazer comentários que não demonstro, mas fizeram-me perguntas, e por isso estou a responder.

Encontrei-me com algumas das pessoas destes cultos (que é o que me parecem): Foucault (tivemos mesmo uma discussão de várias horas, que está publicada, e passámos umas quantas horas numa conversa muito agradável, sobre temas reais usando uma linguagem perfeitamente compreensível — ele em francês, eu em inglês); Lacan (com quem me encontrei várias vezes e considerei um charlatão divertido e perfeitamente consciente charlatão, embora os seus primeiros trabalhos, pré-culto, fossem inteligentes e os tivesse discutido em textos publicados); Kristeva (com quem me encontrei apenas brevemente durante o período em que ela era uma ardente maoista); e outros. Não encontrei muitos deles porque estou bastante afastado destes círculos, por minha escolha, preferindo círculos bastante diferentes e bastante mais amplos — o género onde dou palestras, sou entrevistado, tomo parte em actividades, escrevo dezenas de longas cartas todas as semanas, etc. Mergulhei no que escrevem por curiosidade, mas não fui muito longe, pelas razões já mencionadas: o que encontro é extremamente pretensioso, mas quando examinado, uma boa parte é simplesmente iletrado, baseado numa extraordinária leitura errada de textos que conheço bem (algumas vezes textos que eu escrevi), argumentos que são aterradores na sua casual falta de elementar auto-crítica, muitas afirmações triviais (embora revestidas de uma verborreia complicada) ou falsas; e uma boa quantidade de evidente algaraviada. Quando procedo como faço noutras áreas que não compreendo, caio nos problemas mencionados em ligação com 1) e 2) acima. Eis então a quem me refiro e por que razão não vou muito longe. Se não for óbvio posso indicar mais uns quantos nomes.

Para os interessados numa descrição literária que reflecte muito bem as mesmas percepções (mas de dentro), sugiro David Lodge. Mesmo em cheio, tanto quanto posso julgar.

Phetland também achou "particularmente intrigante" que eu "repudie tão grosseiramente" estes círculos intelectuais, quando gasto muito tempo "a expor a pose e ofuscação do New York Times". Então "porquê não dar a estes tipos o mesmo tratamento?" A pergunta é justa. Há também uma resposta simples. O que aparece nos trabalhos a que eu respondo (New York Times, jornais de opinião, muitos dos trabalhos académicos, etc.) está pura e simplesmente escrito numa prosa inteligível e tem grande impacto no mundo, estabelecendo a estrutura doutrinal na qual o pensamento e a sua expressão estão, supostamente, contidos, e estão-no grandemente, nos sistemas doutrinais bem sucedidos como o nosso. Isso tem um enorme impacto no que acontece às pessoas que sofrem em todo o mundo, e que me preocupam, diferentes das que vivem no mundo que Lodge (penso que com exactidão) descreve. Por isso este trabalho deve ser tratado com seriedade, pelo menos se nos preocupamos com as pessoas normais e os seus problemas. O trabalho a que Phetland se refere, tanto quanto sei, não tem nenhuma destas características. E não tem o mesmo impacto, uma vez que se dirige apenas a outros intelectuais nos mesmos círculos. Além disso, que eu conheça não há qualquer esforço para torná-lo inteligível às grandes massas da população (digamos, para as pessoas para quem falo constantemente, com quem me encontro, para quem escrevo cartas, que tenho em mente quando escrevo, e que parecem entender o que digo sem qualquer dificuldade particular, embora geralmente pareçam ter as mesmas incapacidades cognitivas que eu tenho quando enfrentam os cultos pós-modernos). E também não conheço nenhum esforço para mostrar como se aplica a algo no mundo no sentido que mencionei anteriormente: estabelecendo conclusões que não fossem já óbvias. Uma vez que não estou muito interessado no modo como os intelectuais inflacionam as suas reputações, ganham privilégios e prestígio, e se libertam da participação efectiva na luta popular, não gasto nenhum tempo com isso.

Phetland sugere que comece com Foucault — que, como escrevi várias vezes, está um pouco à parte dos outros, por duas razões: acho pelo menos parte do que escreve inteligível, embora geralmente pouco interessante; em segundo lugar, ele não está pessoalmente descomprometido e não se circunscreve a interacções com outros dentro dos mesmos círculos elitistas altamente privilegiados. Phetland fez então exactamente o que eu pedi: deu alguns exemplos de por que razão ele pensa que o trabalho de Foucault é importante. Essa é exactamente a maneira correcta de proceder e penso que ajuda a compreender por que razão tomo uma atitude de "rejeição" para com tudo isto — de facto, não lhe presto qualquer atenção.

O que Phetland descreve, com exactidão, certamente, não me parece importante, porque toda a gente sempre o soube — pondo de lado detalhes de história social e intelectual, e acerca destes, sugiro cuidado: trabalhei de forma razoavelmente extensa nalgumas destas áreas, e sei que a proficiência académica de Foucault não é aqui exactamente fidedigna, pelo que não confio nela, sem uma investigação independente, nas áreas que não conheço — isto foi vagamente abordado na discussão de 1972 que está publicada. Penso que há trabalhos académicos muito melhores sobre o século XVII e XVIII e uso-os na minha investigação. Mas ponhamos de lado o outro trabalho histórico, e voltemo-nos para as "construções teóricas" e as explicações: que houve "uma grande mudança de mecanismos cruéis de repressão para mecanismos mais subtis pelos quais as pessoas acabam por fazer", mesmo entusiasticamente, o que os poderosos querem. De facto, isso é mais que verdade: é um completo truísmo. Se é uma "teoria," então todas as minhas críticas estão erradas: também tenho uma "teoria", uma vez que andei a dizer exactamente isso durante anos, dando também as razões e o background histórico, mas sem a descrever como uma teoria (porque não merece tal designação), sem retórica ofuscante (porque é tão trivial) e sem pretender que é nova (porque é um truísmo). Reconheceu-se durante muito tempo que à medida que o poder para dominar e coagir ia declinando, era cada vez mais necessário recorrer ao que os praticantes na indústria de relações públicas do princípio do século — que perceberam tudo isto muito bem — chamaram "dominar a mente pública." Como Hume observou no século XVIII, as razões são que "a submissão implícita com que os homens renunciam aos seus sentimentos e paixões pelos dos seus governantes" depende em última instância do domínio das opiniões e atitudes. Por que razão é que este truísmo deveria subitamente tornar-se "uma teoria " ou "filosofia," terão outros de explicar; Hume ter-se-ia rido.

Alguns dos exemplos particulares de Foucault (digamos, acerca das técnicas de castigo) parecem interessantes e merecedores de serem investigados quanto à sua exactidão. Mas a "teoria" é apenas uma reafirmação extremamente complexa e inflacionada do que outros exprimiram de modo muito simples e sem qualquer pretensão de que esteja envolvido algo profundo. Não há nada no que Phetland descreve que eu não tenha vindo a escrever acerca de mim próprio durante 35 anos, fornecendo também grande quantidade de documentação para mostrar que foi sempre óbvio e quase um truísmo. Acerca de trivialidades não é o princípio, que é evidente, que é interessante, mas a demonstração detalhada de como se aplica nos casos que são importantes para as pessoas: como intervenção e agressão, exploração e terror, estratagemas de "mercado aberto", etc.. Isso eu não encontro em Foucault, embora encontre em abundância em pessoas que parecem capazes de escrever frases que posso compreender e que não são colocadas no firmamento intelectual como "teóricos."

Para ser claro, Phetland está a fazer exactamente o que se deve fazer: a apresentar o que vê como "intuições e construções teóricas importantes" que encontra em Foucault. O meu problema é que as "intuições" parecem-me familiares e não existem quaisquer "construções teóricas," excepto que ideias simples e familiares foram revestidas com uma retórica complicada e pretensiosa. Phetland pergunta se considero que isto é um "erro, algo inútil, ou petulante". Não. As partes históricas parecem às vezes interessantes, embora tenham de ser tratadas com cuidado e uma verificação independente seja mesmo mais necessária do que normalmente é. As partes que reafirmam o que foi durante muito tempo óbvio e expresso em termos muito mais simples não são "inúteis", mas na realidade úteis, o que constitui a razão pela qual eu e outros sempre realçámos os mesmos pontos. Quanto à "petulância": uma boa parte é-o, na minha opinião, embora eu não responsabilize particularmente Foucault por isso; é uma parte tão enraizada da corrompida cultura intelectual de Paris que ele sente-se nela muito à vontade embora, para seu crédito, se tenha dela afastado. Quanto à "corrupção" desta cultura em particular desde a II Guerra Mundial, esse é outro tema, que discuti noutro lado e no qual não vou agora entrar. Com franqueza, não vejo por que razão as pessoas neste fórum poderiam estar muito interessadas, uma vez que eu não estou. Há coisas mais importantes a fazer, na minha opinião, do que investigar as peculiaridades das elites intelectuais empenhadas em diversos modos de promoção da carreira e outras ocupações nos seus limitados e (pelo menos para mim) desinteressantes círculos. Esta é uma imagem apressada, e reafirmo novamente que é injusto fazer tais comentários sem os demonstrar: mas perguntaram-me e respondi ao único ponto específico que me pareceu ter sido levantado. Quando interrogado acerca da minha opinião geral, posso apenas dá-la, ou se algo mais específico é afirmado, reagir a isso. Não vou produzir um ensaio acerca de temas que não me interessam.

A menos que alguém possa responder às questões simples que surgem imediatamente no espírito de qualquer pessoa razoável quando afirmações acerca de "teoria" e "filosofia" são levantadas, continuarei a trabalhar apenas no que me parece significativo, esclarecedor e para as pessoas que estão interessadas em compreender e mudar o mundo.

Johnb chamou a atenção para que "a linguagem clara não é suficiente quando a estrutura de referência não se encontra disponível ao ouvinte "; isto é correcto e importante. Mas a reacção correcta não é recorrer a uma verborreia obscura e desnecessariamente complexa e à petulância acerca de "teorias" não existentes. É antes pedir ao ouvinte que questione a estrutura de referência que ele/ela aceita e sugerir alternativas que possam ser examinadas, tudo isto em linguagem clara. Nunca o achei um problema quando falo para pessoas sem muita ou às vezes sem nenhuma formação formal, embora seja verdade que tende a ser mais difícil à medida que subimos a escada educacional, visto que a endoutrinação é muito mais profunda, e a auto-selecção para a obediência que constitui uma boa parte da educação da elite cobrou o que lhe é devido. Johnb diz que fora de círculos como este fórum, "para o resto do país, ele é incompreensível" ("ele" sendo eu). Isso é absolutamente contrário à minha ampla experiência com toda a espécie de audiências. Pelo contrário, a minha experiência é a que acabei de descrever. A incompreensibilidade corresponde grosseiramente ao nível educacional. Tomemos, por exemplo, uma palestra radiofónica. Penso que, em grande medida, é normalmente muito fácil advinhar a partir dos sotaques, etc., qual é o género de audiência. Verifiquei repetidas vezes que quando a audiência é mais pobre e tem menos formação, posso omitir boa parte das questões de background e de "estrutura de referência" porque são já óbvias e aceites por todos, e posso avançar para questões que nos interessam a todos. Com audiências com mais formação, isto é muito mais difícil; é necessário deslindar montes de construções ideológicas.

É certamente verdade que muitas pessoas não podem ler os livros que escrevo. Mas isso não é porque as ideias ou a linguagem sejam complicadas — não temos quaisquer problemas na discussão informal, até com as mesmas palavras, de exactamente dos mesmos pontos. As razões são diferentes, talvez parcialmente por causa do meu estilo de escrita, parcialmente em resultado da necessidade (que eu sinto, pelo menos) de apresentar documentação consideravelmente abundante, o que torna a leitura penosa. Por estas razões, algumas pessoas pegaram praticamente no mesmo material, frequentemente nas mesmas palavras, e fizeram panfletos e textos semelhantes. Ninguém parece ter grandes problemas — embora uma vez mais, os críticos do Times Literary Supplement ou das revistas académicas profissionais frequentemente não tenham a menor ideia do que se trata; às vezes é muito cómico.

Um último ponto, algo acerca do qual escrevi noutro lado (por exemplo, numa discussão nos Z Papers, e no último capítulo de Year 501). Tem havido uma notável mudança no comportamento da classe intelectual nos últimos anos. Os intelectuais de esquerda, que há 60 anos teriam estado a ensinar nas escolas das classes trabalhadoras, a escrever livros como "matemática para milhões" (que tornam a matemática inteligível a milhões de pessoas), a participar e a falar em organizações populares, etc., estão hoje completamente afastados dessas actividades, e embora lestos a dizerem-nos que são muito mais radicais do que nós, não se encontram disponíveis, ao que parece, quando há uma necessidade óbvia e crescente e até uma procura explícita do trabalho que poderiam fazer no mundo das pessoas com problemas e preocupações reais. Isto não é um problema pequeno. Neste momento, este país está num estado muito estranho e sinistro. As pessoas estão assustadas, irritadas, desiludidas, pessimistas e confusas. Como ouvi uma vez a Mike, é o sonho de um organizador. É também um solo fértil para demagogos e fanáticos, que podem (e de facto já o fazem) reunir um apoio popular substancial com mensagens que não são estranhas aos seus predecessores em circunstâncias um tanto similares. Sabemos onde isso levou no passado e poderia levá-los novamente. Há uma enorme brecha que outrora foi pelo menos parcialmente preenchida pelos intelectuais de esquerda que desejavam envolver-se com as pessoas em geral e os seus problemas. Na minha opinião, isto tem implicações sinistras.

Fim da Resposta, e (para ser franco), a menos que as questões óbvias sejam respondidas, do meu interesse pessoal na matéria.

Noam Chomsky

Tradução de Álvaro Nunes

Nota: Este texto de Noam Chomsky sobre o pós-modernismo circulou umas quantas vezes na Usenet, e tanto quanto se sabe é autêntico. Esta versão (excepto, claro, os ares e graças do HTML) foi enviada por um jenm289@aol.com para rec.arts.books em 13 Novembro 1995 às 03:21:23 -0500, message-id 486v63$9an@newsbf02.news.aol.com. Jenm289 escreveu: "o texto que se segue foi escrito há vários meses por Noam Chomsky numa discussão acerca do pós-modernismo e a sua contribuição para o activismo, etc. A discussão teve lugar na LBBS, Z-Magazine's Left On-Line Bulletin Board (contacte sysop@lbbs.org para subscrever).''

Nota do tradutor: O original do texto de Noam Chomsky encontra-se em http://www.santafe.edu/~shalizi/chomsky-on-postmodernism.html.
Nota do director: Por "teoria" e "teóricos" o autor refere-se à corrente de filosofia alemã e francesa conhecida por "teoria crítica", e que é supostamente de esquerda, apesar de ser de facto reaccionária, e aos seus partidários. Habermas é um dos grandes nomes da "teoria crítica".
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