Sven Ove Hansson
27 de Agosto de 2004 ⋅ Filosofia

A filosofia como disciplina unificadora

Sven Ove Hansson
Instituto Real de Tecnologia, Estocolmo

Numa conferência e ensaio recentes, “Philosophy as a Humanistic Discipline”, Bernard Williams levanta a pergunta crucial de saber como deve a filosofia entender-se a si mesma. Williams favorece o que ele chama uma “concepção humanística” da filosofia, contrastando-a com a concepção do “cientismo”. Por “cientismo” Williams entende a perspectiva de que “se há uma actividade filosófica independente, o seu objectivo é descrever o mundo como é em si, independente de perspectivas”, do mesmo modo como a ciência supostamente tenta descrever o mundo como é, independentemente de perspectivas. De acordo com Williams, o melhor tratamento de um tema não tem de ser não perspectívico (nem mesmo minimamente perspectívico). Ao dar sentido às nossas actividades intelectuais e outras, afirma Williams, precisamos de conceitos e explicações que estejam “enraizadas nas nossas práticas mais paroquiais, na nossa cultura e na nossa história”.

A escolha terminológica de Williams é infeliz. Os termos “cientismo” e “humanístico” não estão a par, dado que o primeiro é depreciativo, ao passo que o segundo não. Sobretudo, não há uma conexão necessária entre, por um lado, a divisão das disciplinas académicas em ciências e humanidades, e, por outro lado, a escolha de uma perspectiva mais ou menos paroquial na investigação. Não devemos misturar as duas distinções. Além disso, é importante distinguir entre tentativas para alcançar a perspectiva humana mais geral e tentativas para alcançar uma perspectiva tão geral que é independente da condição humana e das limitações cognitivas dos seres humanos.

De acordo com Williams, a investigação nas humanidades, incluindo a filosofia, pode ser legitimamente conduzida numa perspectiva que não inclui todos os seres humanos, mas “apenas aqueles com os quais eu e o leitor partilhamos muito mais, como perspectivas típicas da modernidade”. Contudo, Williams não nos diz se há algum limite ao paroquialismo das perspectivas. Que dizer da perspectiva “paroquial” de inscrição religiosa, movimentos nacionalistas ou partidos políticos? Um estudo, por exemplo, dos movimentos igualitários do século XVII ou dos Mórmones de hoje em dia deve procurar compreender o modo de pensar do grupo objecto de estudo. Contudo, tais estudos devem também procurar tornar as ideias adquiridas compreensíveis e relevantes para outras pessoas além dos igualitaristas e dos Mórmones. É difícil ver como poderia ser uma virtude excluir programaticamente qualquer parte da humanidade como potenciais beneficiários — e críticos — de um estudo académico. Por outras palavras, a perspectiva devia ser nada menos do que a mais geral perspectiva humana.

Apesar dos seus modos impessoais, a ciência é em aspectos essenciais um projecto humano: tem por objectivo desenvolver a compreensão humana e encontrar meios para que nós, seres humanos, possamos fazer frente ao mundo em que vivemos. A natureza das nossas faculdades mentais e das nossas experiências determina de várias maneiras a actividade científica, tendo nós consciência de algumas delas (mas talvez não de todas). Talvez o mais importante é o facto de o carácter finito das capacidades racionais humanas nos forçar a fazer suposições simplificadoras. Um ser com capacidades cognitivas infinitas poderia ser um “bom bayesiano” que nunca atribui probabilidade 0 ou 1 a afirmações contingentes. Ao receber nova informação um tal ser nunca adquiriria crença ou descrença completa, limitando-se ao invés a actualizar as suas estimativas de um vasto número de probabilidades conectadas entre si. Em contraste, nós, seres humanos, não podemos lidar com uma tal massa de incertezas e portanto a nossa ciência tem de ser muito diferente: tratamos afirmações contingentes mas altamente prováveis como se fossem certamente verdadeiras, e afirmações contingentes mas altamente improváveis como se fossem certamente falsas. Além disso, construímos as nossas explicações científicas de modo a que conduzam à compreensão humana. A noção de causalidade, que é fundamental na mundivisão científica, parece também ser antropomórfica em aspectos importantes.

Assim, a ciência não pode ir além da perspectiva da humanidade como um todo, e sem dúvida que não deve aceitar menos do que isso. Já vimos que o mesmo acontece, basicamente, nas humanidades.

Williams descreve a filosofia como “parte de uma actividade humanística mais vasta de dar sentido a nós próprios e às nossas actividades”. Sem dúvida que é, mas é também parte de uma actividade humana mais geral, nomeadamente a de dar sentido a nós mesmos, ao mundo em que vivemos e às nossas actividades. Nesta actividade maior, que é comum às humanidades e às ciências, a filosofia tem uma tarefa muito mais importante do que alinhar quer com as humanidades quer com as ciências. A filosofia tem um potencial único para aprofundar a integração do conhecimento proveniente de fontes e disciplinas muito diferentes. Pode — e deve — ser uma disciplina unificadora.

Sven Ove Hansson

Bibiografia

  • Douglas Gaskin (1995) "Causation and Recipes", Mind 64:479-487.
  • Richard C. Jeffrey (1956) "Valuation and Acceptance of Scientific Hypothesis", Philosophy of Science 23:237-249.
  • Mark Kaplan (1983) "Decision Theory as Philosophy", Philosophy of Science 50:549-577.
  • Michael Scriven (1971) "The Logic of Cause", Theory and Decision 2:49-66.
  • Bernard Williams (2000) "Philosophy as a Humanistic Discipline", Philosophy 75:477-496.
Tradução de Desidério Murcho
Artigo originalmente publicado na revista Theoria: A Swedish journal of philosophy (Vol. LXVII/2, 2001).
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