Verdade
24 de Abril de 2004 ⋅ Filosofia

Ceticismo minimalista

Weber Lima
Verdade: Um Guia para os Perplexos, de Simon Blackburn
Tradução de Marilene Tombini
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, 352 pp.

Eis um excelente livro introdutório, do filósofo britânico Simon Blackburn, a muitas questões filosóficas pertinentes na atualidade relacionadas à questão da verdade. É um livro que demonstra que a filosofia pode ser clara e sofisticada, sem o típico obscurantismo pedante que se autodenomina pós-moderno (seja lá o que isso for). Simon Blackburn já é conhecido pelo também excelente Pense: Uma Introdução à Filosofia (infelizmente sem tradução no Brasil).

O livro está dividido em oito capítulos nos quais Blackburn analisa diversos problemas contemporâneos sobre a questão da verdade (para o filósofo inglês a verdade é a questão que define a filosofia enquanto tal).

No capítulo I trata dos problemas da fé, da crença e da razão. O que caracteriza a fé, a crença e a tensão entre a fé e as crenças em geral e a razão. Analisa os argumentos de William James (psicólogo e um dos "pais" do pragmatismo norte-americano) e as objeções de William Clifford (matemático e polímata de Cambridge) quanto à questão da verdade.

No capítulo II trata da afirmação de Protágoras quanto ao homem ser a medida de todas as coisas (relativismo subjetivista). Uma das características mais interessantes desse capítulo é a comparação entre a redução ao absurdo e o golpe de recuo do judô. No judô quando se é atacado recua-se e utiliza-se a energia de ataque do adversário contra ele mesmo. Uma comparação, no meu entender, muito perspicaz (e até um tanto divertida) do raciocínio por redução ao absurdo.

No capítulo III, Blackburn, analisa o ceticismo filosófico desde a sua versão mitigada até a posição mais extrema, dogmática.

No capítulo IV (um dos melhores do livro, no meu entender) analisa o perspectivismo nietzschiano e a sua relação com o relativismo e o ceticismo.

No capítulo V trata da "possibilidade da filosofia". O "desconstrucionismo" derridiano, o construtivismo social e o "eliminativismo" wittgensteiniano são todos avaliados a partir de suas teses centrais, objeções e contra-objeções.

No capítulo VI analisa os argumentos de Locke, Hume, Davidson e Rorty sobre a questão do conhecimento, ceticismo e verdade.

No capítulo VII trata do realismo científico versus as posturas que consideram as ciências tão somente mais uma forma de ficção.

No último capítulo trata da questão da verdade nas pesquisas historiográficas — como é possível sabermos que a história é mais ou menos verdadeira conforme as fontes que considerarmos.

O que julgo mais interessante no livro é que o autor utiliza, de forma clara e rigorosa, os argumentos, objeções e tentativas de reformulação do relativismo, realismo, idealismo, ceticismo, dentre outros, permitindo ao leitor entender melhor o que está em questão sobre a verdade em cada uma das "posições filosóficas" apresentadas. Blackburn assume argumentativamente a perspectiva de um ceticismo minimalista sobre a verdade e a valorização crítica do senso comum.

Segundo a minha compreensão, o autor pretende aclarar a questão da verdade por entender que a humanidade atravessa um dos períodos mais confusos onde os dogmatismos e fanatismos assomam por todos os lados, chegando mesmo a influenciar as decisões de governos como, por exemplo, a influência do pensamento ultraconvervador nos EUA (George W. Bush) e Inglaterra (Príncipe Charles).

De fato, o título na tradução brasileira tanto quanto o original em inglês fazem jus ao livro. É uma introdução sobre a questão da verdade (em filosofia) e para as nossas perplexidades no século XXI.

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