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23 de Julho de 2016   Filosofia da ciência

O modelo da cobertura por leis

David Papineau
Tradução de Pedro Galvão

1. Cobertura por leis

Tanto na ciência como na vida quotidiana, o objectivo da investigação é frequentemente encontrar uma explicação para um fenómeno intrigante. Mas o que é exactamente uma explicação? E como contribui o nosso conhecimento de verdades gerais para a nossa capacidade de explicar?

Grande parte do debate moderno sobre as explicações parte do “modelo da cobertura por leis” de Carl Hempel. Primeiro, gostava de ilustrar este modelo no caso em que aquilo que se pretende explicar é um acontecimento específico, como a água ter gelado nos canos na terça-feira ou ter chovido esta manhã. Segundo Hempel, a explicação de qualquer um destes acontecimentos obedece ao seguinte esquema:

Condições Iniciais: I1, I2, …, In.
Leis: L.
∴ Acontecimento explicado: E.

Deste modo, por exemplo, podemos explicar o facto E de ter chovido esta manhã indicando as condições iniciais, I1 e I2 (havia um certo nível de humidade e a pressão atmosférica desceu para um certo nível), e a lei L, segundo a qual a uma tal descida de pressão quando há essa humidade segue-se sempre a chuva.

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A lei desta explicação “cobre” as condições iniciais e o acontecimento consequente, no sentido em que mostra que a sequência de acontecimentos que está por detrás de uma ocorrência específica é apenas um exemplo de um padrão geral. Ao facto que fica explicado, E, chama-se por vezes explanandum, e aos factos que fazem a explicação, as condições iniciais I e as leis L, chama-se explanans. Note-se que, embora eu tenha representado a lei envolvida no explanans como uma única proposição, L, na maior parte dos casos precisamos de uma conjunção de leis mais simples para ver por que E se segue dos acontecimentos I relevantes. Por exemplo, precisamos da segunda lei de Newton e da lei da gravitação para explicar por que um meteoro se move de certa maneira.

2. Dedução

Note-se também que, segundo este modelo de explicação, explicar um acontecimento é o mesmo que deduzi-lo a partir de condições iniciais e de leis. Dadas as condições iniciais e uma lei que diz que a tais condições iniciais segue-se sempre um E, por si só a lógica permite-nos inferir que o explanandum ocorre. Como envolvem dedução por meio de uma lei, tais explicações são conhecidas frequentemente por “nomológico-dedutivas” ou, abreviando, por explicações “N-D”. (Há uma variante do modelo da cobertura por leis que admite leis probabilísticas em vez de deterministas, e que, por consequência, enfraquece a exigência de dedução. Deste modo, “cobertura por leis“ é estritamente um termo mais amplo do que ”nomológico-dedutivo". Mas por agora concentremo-nos nos casos dedutivos, e deixemos de lado as explicações probabilísticas.)

Vale a pena deixar claro que a ideia de explicação “dedutiva” não presume que a lei L pode de alguma maneira ser deduzida a priori a partir de primeiros princípios. Tais leis ainda têm de ser estabelecidas por indução a partir de observações de resultados feitas no passado. A ideia é simplesmente que, se já estabelecemos a lei, então ela implicará dedutivamente, em conjunção com condições iniciais apropriadas, certos resultados adicionais.

3. Explicação e previsão

O modelo da cobertura por leis implica uma certa simetria entre explicação e previsão. A estrutura das explicações, nas quais deduzimos que E tinha que ocorrer a partir de condições iniciais e de leis, é exactamente paralela à estrutura das previsões, nas quais deduzidos que E irá ocorrer a partir das mesmas condições iniciais e leis. Por exemplo, se podemos explicar por que está a chover esta manhã por meio de condições anteriores e da lei relevante, presumivelmente poderíamos ter previsto que ia chover a partir da mesma informação. Deste modo, para o modelo da cobertura por leis a diferença entre explicação e previsão depende apenas de conhecermos ou não o explanandum antes de o deduzirmos a partir do explanans. Se já conheces E, então deduzi-lo a partir de condições iniciais e de leis servirá para explicá-lo. Se ainda não o conheces, então a mesma dedução servirá para prevê-lo. Uma previsão diz-te o que deves esperar. Uma explicação mostra-te que aquilo que já sabes seria de esperar que acontecesse.

David Papineau

Retirado de “Methodology”, Philosophy: A Guide Through the Subject, org. A. C. Grayling (Oxford University Press, 1998).