Escritos sobre uma Vida Ética Vida Ética
1 de Abril de 2008 ⋅ Ética

O filósofo proibido

Desidério Murcho
Escritos Sobre Uma Vida Ética, de Peter Singer
Tradução de Pedro Galvão, Maria Teresa Castanheira e Diogo Fernandes
Lisboa: Dom Quixote, 2008, 360 pp.
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Vida Ética, de Peter Singer
São Paulo: Ediouro, 2002, 420 pp.

O mais recente livro de Peter Singer publicado em Portugal é uma recolha de diversos trabalhos seus que procuram apresentar a totalidade do seu pensamento. O livro foi publicado em resposta aos protestos que se seguiram aquando da sua contratação pela Universidade de Princeton. Efectivamente, a imensidão de pessoas que protestava contra a contratação de Singer tinha uma ideia errada das suas posições, assim como o público austríaco e alemão, cujos manifestantes nunca permitiram que Singer discursasse e onde chegou a ser agredido fisicamente. O relato assustador do seu processo de silenciamento na Áustria e na Alemanha é feito por Singer num dos capítulos deste livro.

É comum Singer provocar reacções adversas muito violentas, mas isso não deveria ser surpreendente. Qualquer pessoa que ponha ideias feitas em causa gera anticorpos e a filosofia tipicamente põe ideias feitas em causa porque é em grande parte a análise cuidadosa dos nossos preconceitos mais queridos. Quando tais preconceitos dizem respeito a problemas esotéricos de epistemologia, metafísica ou filosofia da linguagem, ninguém se incomoda. Mas quando dizem respeito à eutanásia, à ajuda aos mais pobres, ao aborto ou ao modo como tratamos os animais não humanos, é natural que as reacções adversas se façam sentir.

O livro tem cinco partes, antecedidas por uma lúcida introdução na qual Singer explica quais são os quatro princípios éticos fundamentais nos quais baseia todas as suas posições. Como é típico na filosofia, estes princípios parecem aceitáveis, e num inquérito talvez a maior parte das pessoas os aceitasse. Contudo, conduzem Singer a conclusões que muitas pessoas não só se recusam a aceitar como acham ofensivas e intoleráveis, dignas de ser proibidas ou ignoradas. O primeiro princípio é que o sofrimento é intrinsecamente mau, "seja quem for aquele que sofre" (pág. 13), sendo igualmente mau independentemente de quem sofre. Por exemplo, o sofrimento dos brancos não pode valer menos ou mais do que o dos índios. O segundo princípio é que a maior parte dos animais não humanos — como os cães, cavalos, galinhas, porcos, vacas, etc. — pode sentir dor e sofrimento. O terceiro é que devemos unicamente ter em consideração cada ser, e não a espécie, raça ou sexo a que pertence, quando consideramos o mal de o matar. O quarto é que não somos responsáveis "só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido" (p. 13). Destes princípios seguem-se algumas das suas teses que mais irritam os críticos: que o sofrimento que provocamos nos animais não humanos para os comer é imoral; que a eutanásia e o aborto são morais, em certas circunstâncias, assim como o infanticídio; que o modo de vida europeu e americano é imoral, porque a generalidade das pessoas prefere comprar mais um par de calças de cem euros quando poderia dar esse dinheiro para ajudar a impedir uma criança em África de morrer à fome.

Uma parte importante da irritação que as pessoas sentem resulta de antropocentrismo. A distinção crucial entre pessoa e ser humano, estabelecida classicamente por John Locke, parece difícil de entender para muitas pessoas. Ser um ser humano é pertencer a uma dada espécie biológica, e isso só por si é moralmente irrelevante. Mas ser uma pessoa é ter determinadas características — consciência de si, projecção no futuro, autonomia — que são moralmente relevantes. Se um dia descobrirmos extraterrestres que falem connosco não podemos matá-los só por não serem seres humanos, tal como os europeus não tinham o direito de explorar e matar os índios e os negros só por não serem brancos.

A primeira parte do livro é uma breve introdução à ética, na qual Singer explica alguns mal entendidos em relação a esta disciplina. A segunda parte é dedicada à discussão da relevância moral dos animais não humanos. A generalidade do público pensa que só se fazem experiências dolorosas com animais não humanos para salvar vidas humanas, mas isto é falso. Outra ideia falsa que as pessoas têm é quanto ao modo como os animais para a alimentação são tratados pela indústria alimentar — as pessoas têm em mente as quintas tradicionais, mas isso não existe hoje em dia. A terceira parte é dedicada à pobreza mundial, ao aborto e à eutanásia. Singer apresenta aqui os seus cinco novos mandamentos, em substituição de cinco dos mandamentos tradicionais, assim como dados muito interessantes acerca da perspicaz fantasia inventada pelos médicos de Harvard — a morte cerebral — que é na verdade uma maneira de sancionar a eutanásia involuntária sem termos de passar pelo incómodo lhe chamar tal coisa. A quarta parte contém algumas das ideias de Singer mais atraentes para o grande público: ideias sobre o sentido da vida e sobre o que significa ser de esquerda hoje. Finalmente, na última parte Singer apresenta algumas notas pessoais: a referida nota sobre o seu silenciamento na Alemanha, o seu distanciamento relativamente ao activismo exacerbado em prol da libertação animal e finalmente uma entrevista.

Este é um livro de leitura contagiante, defendendo cuidadosamente ideias importantes, e servido por uma prosa elegante, clara e despretensiosa. Será irritante para muitas pessoas, mas quando a filosofia cumpre o seu papel de pôr em causa os nossos preconceitos mais queridos não pode evitar ser irritante.

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
Publicado no jornal Público (21 de Março de 2008)
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