21 de Abril de 2007   Filosoficamente

Despertar para a filosofia

Como se faz um Filósofo
de Colin McGinn
Tradução de Célia Teixeira
Revisão científica de Desidério Murcho
Bizâncio, Março de 2007, 252 pp.

Como se faz um Filósofo acompanha o percurso de Colin McGinn, filho e neto de mineiros, originário de Blackpool; na infância o melhor que poderia aspirar seria a uma carreira na construção civil ou como baterista num grupo de rock. Porém, durante a adolescência descobre Descartes e apaixona-se pela filosofia. Sendo o primeiro da sua família a ingressar na universidade, a escolha da filosofia não era a mais óbvia ou a mais bem aceite e assim começa pela psicologia. Posteriormente decide-se em definitivo por aquela, tendo de enfrentar a perplexidade dos pais e da família. O que faz um filósofo? Como vive? De que se sustenta?

Desde a infância em Inglaterra até à partida para a América, McGinn guia-nos de forma apaixonante pelo que foi a evolução do seu pensamento e a sua maturação como filósofo. Apresenta uma perspectiva contemporânea das grandes figuras da filosofia do século XX (incluindo Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, Noam Chomsky, entre outros), conta as histórias dos professores que o marcaram, as suas aventuras com os jogos de vídeo, o seu gosto pelo mar, os seus breves encontros com Jennifer Anniston ou Spielberg, sempre numa prosa elegante, clara e acutilante.

Dos estudantes de Filosofia ao leitor comum, todos se deixarão prender pela vivacidade das páginas escritas por McGinn.

Aclamação

"Escrito de forma brilhante, profundamente honesto, frequentemente divertido este livro revela a história pessoal de McGinn, tão fascinante quanto a sua carreira do filósofo."
— Oliver Sacks

Sobre o autor

Colin McGuinn frequentou a Universidade de Oxford, onde foi também professor. É um dos mais importantes filósofos da actualidade, tendo escrito inúmeros artigos sobre a filosofia e os filósofos em publicações como a New York Review of Books, London Review of Books, New York Times Book Review, etc. Já escreveu diversos livros de filosofia e publicou um romance. Ensina na Universidade de Rutgers e vive em Nova Iorque.

"A ciência é sem dúvida uma tarefa importante e nobre, mas não é a única forma de investigação intelectual com valor. Não devemos abraçar a ideia de que uma pergunta ou é científica ou coisa nenhuma." (Colin McGinn)

Excerto

E foi neste momento que ocorreu a minha primeira epifania filosófica. Estava sentado no meu quarto, frio e sem aquecimento, em Blackpool, com a minha bateria no canto, a ler sossegadamente um livro sobre argumentos a favor da existência de Deus (já não me lembro que livro era). Deparei-me com algo chamado «argumento ontológico» inventado por Santo Anselmo da Cantuária na idade média. Achei o argumento difícil de seguir, mas completamente arrebatador (muita da filosofia é assim). Li e reli as palavras vezes sem conta, tentando captar o seu significado, à medida que os meus pés iam arrefecendo. A sensação foi a de o meu espírito ter ficado dominado pelo raciocínio abstracto, sendo levado à força pelo poder da lógica. O argumento ontológico tem a seguinte estrutura: Deus é por definição o ser mais perfeito que podemos conceber. Reúne todas as perfeições numa única entidade — absolutamente bom, perfeitamente sabedor, infinitamente poderoso. Isto é apenas aquilo que queremos dizer com a palavra «Deus», e aparentemente, podemos dizer isto quer Deus exista quer não. Como Anselmo colocou a coisa, Deus é definido como aquele ser «maior do que o qual nenhum outro pode ser concebido». Isto é, se Deus existe, então por definição ele é a soma de todas as perfeições — do mesmo modo que se um unicórnio existisse teria um único corno. A questão colocada por quem duvida da existência de Deus é se há alguma coisa na realidade que satisfaz esta descrição. Sim, Deus seria o ser mais perfeito se existisse: mas será que existe? Afinal de contas, posso definir a palavras «Daus» deste modo: «aquela pessoa que consegue saltar mais de dez metros de altura, descalça e com a maior das facilidades»; mas isto não nos diz se Daus existe mesmo — e, na verdade, Daus não existe. Pode-se pensar que a questão de saber se Deus existe é análoga a esta; sabemos qual é a definição da palavra «Deus», mas o que não sabemos é se existe de facto alguma coisa que satisfaz essa definição. Um agnóstico que duvida da existência de Deus, certamente que sabe perfeitamente bem qual o significado da palavra «Deus» — assim como todos nós sabemos o significado de «unicórnio». Assim, pode-se pelo menos conceder que o ateísmo é uma posição logicamente consistente; não é o mesmo que dizer que os triângulos não têm três lados, algo que é falso por definição. A questão de saber se Deus existe é uma questão de facto, e não uma questão de definição.

Mas, argumenta Anselmo, isto é falso: o ateísmo não é, afinal, uma posição logicamente consistente. Porquê? Porque nos estamos a esquecer que Deus é definido como o ser mais perfeito que possamos conceber a todos os níveis — e não é melhor existir do que não existir? Se Deus não existir, carece do atributo de existência; mas então não será ele menos perfeito do que um ser semelhante que tem este atributo? Imagine-se dois seres semelhantes nas suas perfeições, excepto no facto de um existir e do outro não. Não terá o ser que existe mais perfeições do que o ser que não existe, uma vez que pelo menos existe? Não existir é uma espécie de falta, uma carência, mas Deus é definido como o ser a quem nada falta, que não carece de qualquer qualidade positiva, que tem tudo como deve ser, que tudo tem. Tal ser tem de existir senão não tem todas as qualidades positivas. Assim, a existência de Deus segue-se de facto da definição de Deus, ao contrário do meu exemplo de Daus, o saltador não existente. Quando se compreende o significado da palavra «Deus» fica-se a saber que Deus existe, uma vez que aquilo que queremos dizer essa palavra é simplesmente o ser mais perfeito, e a existência é uma das perfeições. A existência é um atributo que acresce ou aumenta o grau de perfeição de uma entidade, e portanto o ser mais perfeito concebível tem de ter este atributo.

Imagine-se a entidade mais poderosa concebível: não terá tal entidade de existir, pela simples razão que não existir é uma redução drástica do poder de uma entidade? Na sua lapidar forma clássica na qual pela primeira vez o conheci, o argumento é o seguinte: Deus é definido como aquele ser maior do que o qual nenhum ser pode ser concebido; mas a existência é um atributo que contribui para a grandeza; logo, Deus existe. Assim, Deus existe em função do significado das palavras, como uma espécie de necessidade conceptual; portanto, é logicamente incoerente duvidar da sua existência, como se isto pudesse ser uma questão diferente da de saber o que queremos dizer com a palavra «Deus». A existência de Deus é logicamente necessária, uma questão puramente de definição, e não uma questão sobre factos contingentes. O caso de Deus é assim muito diferente do caso do unicórnio, cuja definição não implica a sua existência.

Ora, isto é um raciocínio surpreendente. Pretende-se estabelecer através de um argumento logicamente rigoroso que a existência de Deus não pode ser razoavelmente negada. Não é necessário apelar para saltos de fé, ou para especulações acerca de como o mundo começou, ou para a ocorrência de milagres. Para alguém como eu, aos dezoito anos de idade, que lutava com a questão de saber se Deus existe, isto era algo absolutamente inesperado. A existência de Deus era afinal algo tão sólido como o facto de quatro ser o número inteiro a seguir a três. Mas, à medida que fui estudando o argumento, relendo-o, tentando compreender o seu funcionamento (com os meus pés cada vez mais frios), senti indistintamente que o raciocínio parecia, de algum modo, mais inteligente do que poderia ser, tornando demasiado fácil a questão de saber se Deus existe e tornando a fé irrelevante. Assim, ao mesmo tempo que estava impressionado com o argumento, e durante algum tempo obcecado com ele, fiquei com sentimentos ambivalentes. Muita da filosofia é assim: cativante, momentosa, mas também preocupante, e irritantemente perturbante.

Acho que aquilo que verdadeiramente me abalou naquele dia foi a consciência do poder da razão — de como o pensamento lógico pode produzir resultados enormes e chocantes. Não é que eu continue a acreditar na solidez do argumento ontológico, apesar de não achar que haja algo obviamente errado com ele. Mas é um argumento fascinante, simples, e contudo intrincado; e agora não estou de modo algum surpreendido com o impacto que teve no meu eu de dezoito anos. Naquele dia, soube que queria aprender mais destas coisas da filosofia. Independentemente de tudo o resto, o argumento era simplesmente super inteligente. Imagine-se como o Anselmo se deve ter sentido no dia em que inventou o argumento ontológico; deve ter andado pela Cantuária estonteado de emoção e de temor durante semanas. (Não havia, infelizmente, um Santo Anselmo de Blackpool, cujo santuário eu pudesse visitar.) De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que o sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da história. Aquilo que também me impressionou, naquele dia de inverno em Blackpool, foi o facto de o meu espírito poder entrar em contacto com os espíritos dos grandes pensadores do passado, e de poder elevar-me acima das banalidades monótonas da cidade litoral na qual por acaso vivia. Esta qualidade da filosofia ficou sempre comigo, e sinto-a ainda hoje à medida que escrevo estas palavras (também numa cidade do litoral particularmente pouco fascinante: Mastic Beach, Long Island). A filosofia pode erguer-nos e levar-nos para muito longe.

Índice

Prefácio
1. Primeiras Inquietações
2. Da Psicologia à Filosofia
3. Lógica e Linguagem
4. Mente e Realidade
5. Crença, Desejo e Wittgenstein
6. Consciência e Cognição
7. Metafilosofia e Ficção
8. Mal, Beleza e Lógica