Agostinho Santo Agostinho
24 de Junho de 2004 ⋅ História da filosofia

Fallor ergo sum

Desidério Murcho
Santo Agostinho, de Gareth B. Matthews
Tradução de Álvaro Cabral
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, 232 pp.
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Tradução de Hugo Chelo (Universidade Católica de Lisboa)
Lisboa: Edições 70, 2008, 244 pp.
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A maior parte das pessoas pensa que foi Descartes quem pela primeira vez descobriu o argumento fatal para os cépticos: podemos estar enganados acerca de tudo, mas para podermos estar enganados temos de existir: "cogito ergo sum" (penso, logo existo). Contudo, foi Santo Agostinho (354-430 d.C.) quem pela primeira vez formulou o argumento do "cogito", e podemos parafraseá-lo assim: "fallor ergo sum" (engano-me, logo existo). Santo Agostinho foi um filósofo de transição da antiguidade clássica para a idade medieval. As suas referências filosóficas eram sobretudo os gregos tardios e alguns eruditos romanos.

Há livros que são pequenos milagres, e este é um deles. Não sendo Santo Agostinho um dos filósofos mais conhecidos do grande público, este poderia ser um livro reservado apenas a alguns. Mas o entusiasmo de Gareth Matthews, a segurança do seu conhecimento, a clareza da sua prosa e a constante integração das ideias de Santo Agostinho na discussão filosófica do passado e do presente fazem deste um livro que se lê com o entusiasmo de um romance de ideias. Este é o segundo volume da colecção "Blackwell Great Minds", e se o primeiro, dedicado a Kant, tiver apenas metade da qualidade deste, já é um livro imprescindível.

O livro tem quinze curtos capítulos, sendo os primeiros dois dedicados respectivamente ao estilo de filosofia na primeira pessoa, praticado por Agostinho, e algumas notas biográficas essenciais. Ao longo dos restantes capítulos são-nos apresentados alguns dos problemas, teorias e argumentos centrais do pensamento de Agostinho: o problema do cepticismo e a célebre resposta de Agostinho; a filosofia da linguagem; o papel desempenhado pelo "cogito" agostiniano; o dualismo alma-corpo; o tempo; a relação entre fé e razão; o problema do livre-arbítrio e da presciência divina; a mentira; e a felicidade.

Cada capítulo é curto (cerca de dez páginas), incisivo, bem articulado e escrito de uma forma que provoca um crescendo de curiosidade, perguntando-se o leitor como irá Santo Agostinho resolver as dificuldades levantadas. O autor mostra como o pensamento de Agostinho se relaciona com os filósofos que o antecederam, e em que aspectos foi inovador; isola as suas ideias e argumentos centrais e mostra as suas dificuldades e modos de as solucionar e entender; e evidencia os desenvolvimentos medievais, modernos e contemporâneos (Wittgenstein, McTaggart, J. L. Austin, Thomas Nagel, Plantinga, J. L. Mackie e outros) que as ideias de Agostinho conheceram. O equilíbrio e integração harmoniosa dos aspectos históricos, exegéticos e estritamente filosóficos são notáveis. Não se trata de um livro que parafraseia as ideias de Agostinho mais ou menos pelas mesmas palavras, mas de um livro que procura compreendê-lo à luz dos desenvolvimentos mais recentes tanto da filosofia como do conhecimento da história da filosofia e dos ensaios de Agostinho. Cada capítulo tem apenas duas ou três notas com referências ou esclarecimentos, e indica apenas uma leitura complementar que desenvolve o tema em causa.

Quem quer conhecer a filosofia de Agostinho tem de começar por ler este livro; e quem já conhece as suas ideias tem muito a ganhar com a sua leitura. O pensamento de Santo Agostinho é mais moderno do que muita gente pensa, e este livro mostra-o de forma iluminante, rigorosa e simpática.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (19 de Fevereiro de 2005)
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