The Origin of Philosophy, de José Ortega y Gasset
2 de Agosto de 2004 ⋅ História da filosofia

A história da filosofia e o filosofar

Danilo Santos Dornas
Origem e Epílogo da Filosofia, de José Ortega y Gasset
Libro Ibero, 1963, 283 pp.

Nos dias atuais, freqüentemente, ouvimos discursos que tratam das vantagens e das desvantagens sobre o ensino da História da Filosofia para jovens estudantes. Os discursos são apresentados numa tentativa de demonstrar a importância em despejar nas cabeças dos estudantes todo o legado do passado filosófico, reduzindo o ofício do amor ao saber, numa simples retilínea com sucessão de idéias mortas. Sabemos que é importante integrar o passado filosófico ao exercício de vencer os desafios contemporâneos. Nessa tentativa de vencer os desafios contemporâneos consiste o filosofar. Para articular a história da filosofia com o filosofar, pensamos com o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) que trabalha esta questão em seu livro Origem e Epílogo da Filosofia, cuja organização se realizou com ensaios introdutórios para o livro História da Filosofia de seu amigo Julían Marías.

Para Ortega y Gasset, o passado filosófico constitui um emaranhado de idéias que se organizam numa série dialética. A série dialética é a apresentação das idéias que se opõem, mas que são dependentes entre si, e impulsiona uma dinâmica que move a história. O ponto de partida para o exercício do pensar é analisar o objeto que chega aos sentidos, mas não se esgota nos sentidos. Para o filósofo, ao analisar um objeto estamos empregando uma reflexão a fim de conceber um aspecto da realidade. Esta forma analítica de pensar é a primeira instância do pensamento.

Ao pensar em algo somos forçados a pensar nas coisas que estão à sua volta. O "pensar em torno" é o que acrescenta o pensamento analítico inicial e, por isso o complica porque força-nos a pensar nas circunstâncias de algo. Ao pensar no "em torno" estamos pensando nas circunstâncias. A dialética é a força que nos impulsiona e nos mantém pensando, considerando sempre o objeto e as coisas à sua volta. A obrigação que temos em assumir a tarefa de pensar é dada pela realidade vital, porque esta realidade não pode ser negada, pois é experimentada e vivida.

O primeiro aspecto que a análise de algo nos oferece é a apresentação de uma multidão de opiniões que o cerca. Mas sobre estas opiniões empregamos a elegância em saber escolher o que melhor se adapta para o nosso juízo. Para Ortega y Gasset, a palavra "elegância" conota o sentido latino "eligentia", que ao adicionar ao prefixo "int" obtemos "inteligentia", que significa o hábito de escolher. O termo "elegância" é um dos principais elementos da ética orteguiana. Por elegante entende-se o homem que nem faz, nem diz qualquer coisa, mas faz o que é preciso fazer e diz o que é preciso dizer.

Para Ortega y Gasset, a fisionomia do passado é constituída por ruínas. Estas ruínas são os erros que nos foram legados pelas diferentes gerações que viveram os problemas de sua época. Assim, cada filosofia leva em conta os erros de outras teorias filosóficas esperando não repeti-las, pois como diz o filósofo,

Cada Filosofia aproveita as falhas das anteriores e nasce, certa de que, pelo menos nestes erros não cairá (Origem e Epílogo da Filosofia, p. 160).

A verdade é difícil a ser alcançada, porém o erro é facilmente encontrado. Ortega y Gasset, entende que o erro nos aparece naturalmente. No entanto, não existe um erro absoluto, porque mesmo do erro pode-se extrair algo positivo. O termo "cético", por exemplo, surgiu no auge da cultura grega e não pode ser aplicado a aqueles que "não acreditam em nada" como pensam algumas pessoas. Os céticos eram "homens terríveis" porque não deixavam as pessoas viverem sem questões. Para Ortega y Gasset, os céticos "extirpavam a crença nas coisas que pareciam mais certas" (Idem. p. 163). O sentido original do termo cético é a ocupação em exaurir as verdades do vulgo, a fim de colocá-las em apreço para análise e reflexão, e enfim coloca-las em dúvida. Ao questionar, os céticos se empenha em refutar, isso funciona como um choque, porque demonstra que a verdade ordinariamente assumida é insuficiente para explicar o que se propõe.

Para explicar os problemas atuais, deve-se percorrer todo o passado filosófico, com uma visão arqueológica. Ortega y Gasset explica que a Filosofia atual tem como referência a Filosofia anterior. É como percorrer um itinerário mental que todo aquele que se propõe a pensar a realidade terá que seguir. O ato de percorrer simplesmente o passado filosófico sem identificá-lo com os problemas atuais das sociedades, consiste numa tarefa da mente adestrada. Esta mente adestrada, percorrerá a série dialética do pensamento numa educação filosófica sem o esforço de refletir, mas como uma ginástica de cultivar a memória. Para refletir o passado filosófico buscando fundamentos para explicar a sociedade contemporânea não basta abandonar os erros precedentes, mas integrá-los a fim de edificar um conceito novo.

Para o filósofo espanhol, o passado filosófico nos deixou idéias que não são as mesmas que temos atualmente. Isso significa que um segundo olhar sobre algo revela-nos detalhes que primeiramente não percebemos. A cada olhar o objeto deixa-nos escapar alguma revelação:

Proponhamos ver uma laranja. Primeiro, nós vemos dela apenas uma face, um hemisfério e depois temos que mover-nos e ir vendo hemisférios sucessivos. A cada passo, o aspecto da laranja é outro que se articula com o anterior quando este já desapareceu, de modo que nunca vemos junta a laranja e temos que contentar-nos com vistas sucessivas (Idem. p. 182).

Ortega y Gasset explica que mesmo Platão (427-347 a.C.) quando se refere à idéia como algo totalizante, na verdade busca exprimir a noção de um aspecto da realidade. Isso significa que, não existe nada que possa ser apreendido em sua totalidade. O modo de o homem ver as coisas é sempre um modo de apreender um determinado aspecto. A verdade é sempre perseguida e nunca alcançada. A verdade é o resultado da adição dos vários aspectos que conseguimos apreender da realidade. Por isso, há a necessidade de estabelecer sempre um processo dialético como integração para fundamentar um conceito novo.

Ortega y Gasset não dá ao termo "dialética" o sentido adotado pelos românticos alemães, que em seus sistemas declarava uma grande caça a verdade em nome do Absoluto. O pensador entende o termo "dialética" como um conjunto de fatos mentais que resultam ao se pensar a realidade. A realidade mostra a soma integral de seus aspectos e numa operação dialética podemos: parar, prosseguir, conservar e integrar, nunca deixando de refletir o presente.

O passado filosófico nos chega pelos títulos dos livros e o nome dos seus autores. Os títulos e os nomes dos autores são apenas uma referência aos problemas que eles tenta explicar em suas épocas. Para tentar explicar os problemas que afligem sua geração, os autores precisam aplicar a "alethéia", que é o nome primogênito da Filosofia.

Por "alethéia" entende-se descobrimento ou revelação. A Filosofia, para Ortega y Gasset, é "uma faina de descobrimento e decifração de enigmas que nos põe em contato com a própria e nua realidade" (Idem. p. 210). A "alethéia" é a própria verdade revelada.

O que fazia o homem com sua mente antes de pensar o mundo? Para Ortega y Gasset, todo pensar possui um subsolo, um solo e um adversário. Antes de o homem iniciar seu pensamento sobre o mundo existiu algum subsolo que o suportou e o impulsionou a pensar. No passado grego, esse suporte e impulso foram à falta de credibilidade nas explicações divinas.

Ao filosofar o homem exercita sua liberdade. Para Ortega y Gasset, a liberdade não brota da ética e nem da política porque estas instâncias não são a raiz da vida. A liberdade é a escolha entre as carências de necessidades vitais. O filósofo explica que o círculo das possibilidades é bem maior que o das necessidades. E a vida é pobreza, portanto necessidades. A vida é sempre insegura. A dúvida é o meio pelo qual o homem sai de suas necessidades. O filósofo René Descartes (1596-1650) ensina que o método é a reação a uma dúvida, e foi nesta perspectiva que Ortega y Gasset explica que para suprir as necessidades deve-se recorrer à dúvida porque ela é postulação de um método.

A mais antiga divisão do pensamento humano acontece entre o sagrado e o profano. O deus que aparece nos tempos remotos da Grécia não é um deus religioso, mas um deus conceitual. Este deus conceitual é produto da racionalidade, que consiste na livre escolha para buscar um novo fundamento. A essa livre escolha dá-se o nome de Filosofia. A tonalidade própria do pensador é o insulto ao vulgo, pois é sua a missão de possuir idéias opostas à opinião pública. A preocupação dos filósofos gregos era discutir sobre eles mesmos e sobre a vida na polis. A palavra "Filosofia" devia circular neste ambiente para significar a ocupação com todas as novas disciplinas — desde a Filosofia Natural até a Retórica. A Filosofia é uma tentativa de explicar o mundo, interagindo o passado com o presente e ampliando os seus horizontes nas mais diversas disciplinas. Toda descoberta científica, toda verdade nos põe numa visão repentina e imediata de um mundo que até então desconhecíamos e com o qual não contávamos. O diálogo filosófico nos impulsiona para novas descobertas.

Danilo Santos Dornas
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