A filosofia é a gestão da imaginação
Entrevista a Daniel C. DennettDesidério Murcho
Daniel C. Dennett é um dos mais prestigiados filósofos contemporâneos. Dedica-se sobretudo à filosofia da mente, mas também ao problema do livre-arbítrio. Defende a ideia de que a «postura intencional» é a chave para a compreensão dos fenómenos mentais. Alguns dos seus livros mais importantes são Content and Consciousness (1969), Brainstorms (1978), Elbow Room (1984), The Intentional Stance (1987) e Consciousness Explained (1991). Só agora os seus livros chegam a Portugal, pela mão da Temas e Debates, que acaba de publicar Tipos de Mentes, depois de A Ideia Perigosa de Darwin. Dennett é professor na Universidade de Tufts, nos EUA, mas fui falar com ele à London School of Economics, onde apresenta um conjunto de conferências sobre o livre-arbítrio, o tema do seu próximo livro.
A Ideia Perigosa de Darwin é dedicado a Quine, com a mesma dedicatória que Quine usou para dedicar num dos seus livros a Carnap. A sua filosofia, cientificamente bem informada, foi defendida por Quine.
Tem razão quanto à dedicatória. Quine era um voraz estudante informal de ciência e estava fascinado com as discussões e controvérsias em física e biologia, tendo na verdade dedicado imenso tempo a ler e a pensar sobre estas matérias, sobretudo nos últimos anos. Quine tinha uma curiosidade insaciável e isso é uma das coisas que sempre admirei nele.
Mas o capítulo 5 do seu livro é bastante anti-Quine, no sentido em que acolhe a modalidade (as ideias de possibilidade e necessidade), que Quine sempre recusou.
Nunca consegui decidir-me no que respeita à minha própria posição em relação à modalidade, apesar de agora estar mais próximo disso. Tenho trabalhado com Christopher Taylor numa ideia de Quine que procura dar sentido a uma espécie de perspectiva naturalizada da necessidade e da possibilidade. Penso que encontrámos uma maneira de responder aos escrúpulos de Quine quanto à possibilidade, e que estabelecemos uma maneira científica de falar desses conceitos.
Não sofre a sua filosofia de cientismo? Não é a filosofia antes uma disciplina das humanidades, preocupada com as grandes questões da condição humana?
Claro que a filosofia se deve preocupar com esse tipo de questões, mas é pura e simplesmente demasiado tarde para que os filósofos possam ocupar-se das questões do significado e da condição humana sem levar a ciência a sério. A acusação de cientismo é apenas uma forma de insulto que se usa quando alguém respeita mais a ciência do que nós. É verdade que há pessoas que fazem o culto da ciência e isso é uma tontice. Mas a verdade é que qualquer investigador ou interrogador sério tem a esperança de pôr a descoberto um caminho para a verdade, seja de que género for. Ora, a ciência tem realmente vários caminhos para a verdade. E mostra-nos como podemos ter métodos melhores para descobrir a verdade. Desde Platão que a ciência é o nosso modelo de verdade. Basta olhar para o Ménon, de Platão, e para o escravo a descobrir a geometria. Isto é um modelo do que a investigação deve ser. Penso que os filósofos que perderam isto de vista se colocaram num beco sem saída.
É a sua filosofia a expressão da terceira cultura de que fala Brockman, preenchendo o hiato entre a cultura científica e a das humanidades, ao relacionar a arte, a ciência, a filosofia e a religião?
Penso que sim. Os dois grupos de leitores que tenho maior prazer em ter são os músicos e artistas, por um lado, e os cientistas, por outro. E na verdade, são estes dois grupos que mais me contactam por causa dos meus livros. E depois há os filósofos, que talvez me contactem menos do que as pessoas dos outros dois grupos [risos].
O mundo das ideias é uma das maiores fontes de beleza e deleite deste planeta. E essas ideias abrangem as ideias artísticas e matemáticas e científicas e tudo o resto. E as melhores ideias são sempre as que florescem num ambiente disciplinado. Penso que quanto menos disciplina há menos hipóteses temos de encontrar uma ideia que seja realmente interessante. E isto tanto acontece com as ideias artísticas como com as outras. A religião popular e a pseudociência são muito más porque não têm de prestar contas. É só quando as ideias têm de prestar contas, quando têm um certo controlo de qualidade, que têm hipótese de ser interessantes. E quando isso acontece, não há nada de mais maravilhoso.
Como nos ajuda o darwinismo a ultrapassar o hiato entre factos e valores, descrições e normas?
O hiato facto/valor é um dos hiatos mais persistentemente defendidos. As pessoas não querem realmente que as ciências biológicas ou o darwinismo tenham uma palavra a dizer. Querem ter o seu território sagrado, onde podem usar os seus instrumentos tradicionais. E depois temos todos aqueles argumentos a dizer que não podemos derivar o dever ser do ser, que não podemos obter valores a partir de factos. É claro que há um sentido em que isso é verdade. Mas é um sentido muito modesto.
Não há dúvida que as questões de saber como os nossos valores evoluíram, e a partir do que evoluíram, e por que razão temos os valores que temos, não podem ser hoje em dia respondidas com seriedade sem olhar para a evolução humana e para a evolução cultural. Enquanto as pessoas que estudam estas questões desta maneira tiverem o cuidado de dizer, como geralmente têm, que não estão a tentar responder a todas as questões de uma só vez, que estão apenas a contribuir para as respostas, o seu trabalho deve ser bem-vindo. Contudo, há muito medo e histeria da parte de alguns pensadores que vêem isto como colonialismo, uma espécie de imposição terrível da ciência. Uma das minhas tarefas é mostrar por que razão as ideias evolucionistas são nossas amigas, por que razão estas ideias nos ajudam a ultrapassar hiatos que nós próprios tivemos de enfrentar nos nossos argumentos quando tentámos resolver problemas enigmáticos.
Todavia, as pessoas não gostam de incertezas e não gostam de coisas complexas, querem respostas simples. E por vezes isso é suficiente. Diga-me uma coisa qualquer simples a que eu me possa agarrar para que eu me sinta confortável; e não me faça abrir os olhos de espanto com complexidades. Muitas pessoas têm medo de serem enganadas por raciocínios complexos, porque não podem segui-los para garantir que não tem erros. E isto é razoável. Muitas vezes eu sinto-me também assim.
Os seus livros são em grande parte escritos em público, em conferências e seminários. Isso faz lembrar Sócrates, para quem a filosofia era também uma actividade pública.
A minha filosofia é assim porque não sou capaz de o fazer de outra maneira. Não sou suficientemente esperto. Preciso da reacção das pessoas. Se estou a fazer uma conferência e toda a gente está a olhar para mim de uma maneira esquisita, então sei que me enganei. Tenho de me corrigir. As minhas conferências e aulas são as minhas experiências. Exponho as minhas ideias e tento persuadir as pessoas e quando isso não funciona, funciona, porque aprendi que aquilo que eu estava a pensar estava errado. Concebo a filosofia como a gestão da imaginação. Os problemas da filosofia são muito difíceis porque temos tendência para imaginar as coisas mal e porque não fazemos as perguntas certas. Aprender a ajustar as nossas imaginações e a reconhecer obstáculos à nossa imaginação é algo para o qual não há qualquer ciência. Por isso, ver a resistência das pessoas, a inércia das suas imaginações, é o trabalho de campo da filosofia.
Que dizer então da ideia do filósofo como sábio solitário, no topo da montanha, que escreve sentenças profundas sobre o Ser e a Verdade?
Bem, houve algumas pessoas assim, mas nunca descobri nenhuma que valesse a pena ler. Podemos ver uma diferença muito clara no que respeita às atitudes e aos resultados entre os filósofos que trabalham de uma maneira relativamente solitária e os que não o fazem. Os que trabalham de maneira solitária têm tendência para ter a atitude seguinte: "Se você não me compreende, a culpa é sua." E em resultado disto, o que fazem exige mais trabalho de compreensão do que o que vale realmente a pena. Seja o que for que eles digam, é possível dizê-lo de maneiras mais simples. Em contraste com isto, temos os outros filósofos, como Quine, que realmente pensam: "Se você não me compreende, a culpa é minha. Vou tentar de outra maneira." Isto faz da filosofia uma actividade comunitária e construtiva. E é assim que deve ser. A única maneira de corrigir a ilusão é o trabalho colegial. É por isso que as comunidades científicas conseguem resultados que nenhum dos seus membros conseguiria sozinho.
Como vê o desenvolvimento da filosofia ao longo da história? Estamos hoje realmente melhor do que estava Platão, por exemplo?
Acho que estamos muito melhor. Penso que a filosofia é o que fazemos quando não sabemos quais são as perguntas certas. É um sistema de erros, de falhanços. É por isso que a história da filosofia é mais importante para os filósofos do que a história de qualquer outra disciplina é para essas disciplinas. Os frutos da nossa disciplina são os erros que hoje sabemos reconhecer. E os erros são profundos, não são tontices. Quando Kant ou Platão ou Aristóteles cometem um erro não é uma tontice; e é um erro que nós também faríamos se eles não o tivessem feito. Isto é algo que vemos muito bem quando os nossos colegas das ciências, sem qualquer preparação filosófica, começam a entrar nos domínios da filosofia, e recriam todos os erros da história da filosofia. Mas a eles parecem-lhes excelentes ideias. Claro que parecem! Algumas pessoas brilhantes pensaram que eram boas ideias. A única maneira de ver o que está errado nelas é testá-las.
O novo livro que está a escrever volta ao problema clássico do livre-arbítrio e do determinismo, que já tinha tratado antes. Porquê voltar a este tema?
A teoria é essencialmente a mesma, mas agora tenho mais e melhores argumentos, e consigo responder a mais problemas. No primeiro livro havia duas áreas demasiado esquemáticas e muito prometedoras: a consciência e a evolução. Agora que já escrevi livros substanciais sobre estes dois temas, sei como posso trabalhar nessas áreas de uma maneira muito mais pormenorizada.
A frase mais importante do Elbow Room estava entre parênteses, tolamente. E nessa frase eu dizia, ironicamente, que se imaginarmos que somos muito pequenos, conseguimos tornar praticamente tudo externo. Essa é a chave da minha teoria. Os erros resultam de tentarmos fazer-nos muito pequenos. Encolhemos o nosso eu para ficarmos no centro do teatro cartesiano, e seria aí que estaria a faculdade da razão prática. E esta ideia não tem futuro. O segredo para compreendermos como podemos ser agentes livres e responsáveis é compreendermos como podemos ser grandes, como podemos expandir-nos no mundo.
Por exemplo, a experiência mental do quarto chinês, de John Searle, consiste em fazer do eu uma coisinha muito pequenina, que não consegue ver mais nada excepto os bocadinhos de papel. Deste modo não se consegue compreender a consciência.
Acha que tem uma alma imortal?
Tenho a certeza que não, no sentido tradicional. Não tenho quaisquer esperanças de voltar a ver os meus falecidos amigos, ou qualquer coisa desse género. Tenho muito gosto em pensar que serei recordado pelos meus filhos e amigos, e pelos filhos do meu cérebro, as pessoas que foram influenciadas pelo meu trabalho. Não me parece que isto seja uma substituição da crença numa alma imortal. E acho que não preciso disso. Penso que em todas as culturas temos mitos sobre a vida além da morte. Acho que isso é o resultado da nossa natureza reflexiva e do nosso desejo de ultrapassar uma realidade tão dura quanto a morte. Mas não passa disso: um mito reconfortante.
Entrevista publicada na revista Livros (n.º 25, Out/Nov 2001)
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