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O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
Junho de 2003 · Filosofia Aberta

O Significado das Coisas: A Aplicação da Filosofia à Vida, de A. C. Grayling
Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Gradiva, Abril de 2003, 244 pp., 14 €
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Críticas: Jornal Público · Revista Os Meus Livros

Uma vida reflectida

Aires Almeida
Revista Os Meus Livros, Maio de 2003

Eis um livro que fala de muitas das coisas realmente importantes da vida de todos nós com uma inteligência e uma erudição a que certamente já não estávamos habituados. O seu autor, o prestigiado filósofo inglês A. C. Grayling, apresenta aqui uma colecção de pequenos ensaios originalmente publicados na coluna semanal "Last Word" do Guardian, que dir-se-ia ter como modelo o Dicionário Filosófico de Voltaire ou as Máximas e Reflexões Diversas de La Rochefoucauld.

Amor, morte, felicidade, capitalismo, arte, razão, mentira, família, milagres, saúde e até virgindade são apenas alguns dos temas dos ensaios incluídos neste livro, que se lê e relê com imenso prazer. Cada ensaio é autónomo, podendo o leitor lê-los pela ordem que quiser. Contudo a ordem não é totalmente arbitrária, pelo que existe uma preocupação em agrupar os textos que mantêm entre si uma afinidade evidente e uma sequência favorável à melhor compreensão dos tópicos abordados. Também por isso o livro está dividido em três partes. Na primeira, Grayling discorre sobre alguns dos conceitos morais mais importantes e também sobre certas ideias que habitualmente enquadram o nosso raciocínio moral. Na segunda, fala-nos daquelas coisas que considera ser "inimigas da prosperidade humana", entre as quais se encontram o racismo, a pobreza e o nacionalismo, mas também o cristianismo, o pecado e a fé. No terceiro, trata de aspectos mais aprazíveis do quotidiano e ainda de tópicos relacionados com a formação e a instrução de qualquer cidadão livre, acentuando a importância da excelência no ensino.

Um livro como este corre facilmente o risco de cair na banalidade previsível do chamado "politicamente correcto", e de escorregar para o discurso vago e impressionista. Não é esse o caso. Bem pelo contrário, Grayling defende ideias que estão longe de ser pacíficas, mas fá-lo sempre com o recurso a argumentos, aliados a um conhecimento e a uma erudição invulgares. Tudo isso num tom marcadamente humanista e num estilo elegante e sofisticado. Grayling mostra assim que a nossa vida deve ser racionalmente examinada e que tal exame pode também resultar numa enorme fonte de prazer.

Bem escrito, bem pensado, sério e bem humorado. A espera pela tradução do segundo volume, The Reason of Things, fica agora mais penosa.

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