criticanarede.com · ISSN 1749‑8457
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Crítica: revista de filosofia
O Significado das Coisas, de A. C. Grayling
Maio de 2003 · Filosofia Aberta

O Significado das Coisas: A Aplicação da Filosofia à Vida, de A. C. Grayling
Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn
Gradiva, Abril de 2003, 244 pp., 14 €
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Críticas: Jornal Público · Revista Os Meus Livros

Nota editorial

"Discordo do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo", terá Voltaire afirmado. A bem da verdade, não há a certeza de Voltaire alguma vez ter proferido estas palavras; contudo, resumem de forma lapidar a sua defesa da liberdade de expressão. E esta máxima, tantas vezes repetida quanto incompreendida, merece reflexão. A tolerância e a liberdade de expressão são conquistas recentes da tumultuosa civilização humana. Foram necessários milénios de experiência e pensamento para compreender que um clima no qual todas as ideias são livremente discutidas e admitidas no tribunal da argumentação é muitíssimo mais saudável do que um clima no qual se pode ser preso, silenciado ou excomungado por proferir blasfémias. O conceito de blasfémia é precisamente o rival titânico da liberdade de expressão. As atitudes que o acompanham — a ofensa e o sentimento de ultraje — constituem os carrascos que silenciam a liberdade para pensar o impensável, proferir o indizível e defender o indefensável. Sócrates, Jesus e Galileu foram condenados por blasfémia. Discordar frontalmente de alguém e reconhecer-lhe o direito para defender as suas ideias, publicá-las, discuti-las e ensiná-las é condição sina qua non para uma sociedade aberta, condição sem a qual o desenvolvimento civilizacional não passa de uma miragem.

Alguns leitores poderão sentir-se indignados e ultrajados perante algumas ideias de A. C. Grayling. Seria uma injustiça que as opiniões anti-religiosas deste filósofo afastassem leitores. Em primeiro lugar, porque é no confronto com as diferentes opiniões que podemos crescer em compreensão e tolerância. Em segundo lugar, porque há muito neste maravilhoso livro além de opiniões radicais contra a religião. Há pensamentos e argumentos importantes sobre o florescimento humano, a importância das artes e das ciências, da filosofia e do ensino, da tolerância e do respeito. Trata-se de um livro que nos ensina a ver o mundo com uma tranquilidade e uma sabedoria que até agora pareciam atitudes, infelizmente perdidas, do classicismo grego e romano.

O debate religioso não abunda no nosso país. Contudo, sempre se levantaram vozes portuguesas contra a religião — basta pensar em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira, ou em Poema para Galileu, de António Gedeão. Uma das ramificações do debate actual — sem insultos pessoais nem argumentos ad hominem, condições necessárias da discussão civilizada — consiste em saber se a religião, no cômputo geral, trouxe mais bens do que males à humanidade. Uma linha de pensamento humanista defende há muito que a religião trouxe bens, sem dúvida, mas que os males ultrapassam amplamente os bens. Neste debate está em causa o modo como a religião tem sido efectivamente vivida ao longo dos milénios, e não o modo como os religiosos mais tolerantes e abertos gostariam que a religião tivesse sido vivida. A. C. Grayling defende que a religião tem sido, na prática, um anátema imposto à humanidade, independentemente de se poder conceber, em princípio, formas tolerantes e civilizadas de viver a religião. Grayling tem hoje a seu lado cientistas como Richard Dawkins e filósofos como John L. Mackie. E ao longo da história muitos foram os cientistas, filósofos e artistas que se opuseram fortemente à religião.

Do outro lado do debate estão igualmente muitos artistas, filósofos e cientistas, que defendem a natureza fundamentalmente boa da religião. O papel de um editor, neste caso a Gradiva, é dar voz aos dois lados do debate — e deixar o leitor decidir por si, em liberdade de consciência. Em particular, na Filosofia Aberta, publicaram-se já títulos como Será que Deus Existe?, de Richard Swinburne — um dos mais destacados filósofos actuais da área da filosofia da religião, que se opõe às ideias de Grayling, Mackie, Dawkins, Carl Sagan e Stephen Hawking, entre muitos outros. E a Filosofia Aberta continuará a ser um espaço de liberdade e tolerância, dando voz a filósofos reconhecidos, independentemente das ideias que defendem quanto ao valor da religião e à existência de Deus. Seria um recuo civilizacional se tivéssemos de calar os filósofos que defendem ideias polémicas sobre a religião; mas seria igualmente uma má prática editorial se a Filosofia Aberta se limitasse a dar voz às ideias dos seus coordenadores.

O pensamento humanista tem uma longa tradição. E está longe de estar encerrado. O debate público de matérias religiosas é comum na Inglaterra e noutros países, apesar de escasso em Portugal. Nesses países, a exposição de ideias e argumentos anti-religiosos é comum não apenas nos recessos pacíficos da bibliografia filosófica especializada — caridosamente longe do olhar do grande público — mas também em jornais diários (como, precisamente, o Guardian, onde os ensaios que constituem este volume foram originalmente publicados). É esta cultura voltaireana que explica que autores como David Lodge, por exemplo, não sejam impedidos de publicar, ou ostracizados. Católico de formação, Lodge é hoje um humanista extremamente crítico em relação à religião — e essas críticas atingem talvez o ponto de maior violência em Até Onde Se Pode Ir?, denunciando o que o autor vê como a gratuita repressão de vários aspectos importantes para qualquer vida humana adequadamente vivida.

Há dois factores que podem explicar a ausência de debate religioso entre nós. Em primeiro lugar, porque não há praticamente debates de ideias. Folheando os jornais portugueses verifica-se que o que passa por debate de ideias consiste demasiadas vezes em insultos pessoais, ironias, "tacadas" e outras imitações de contrabando do debate sério. Em segundo lugar, porque a força da religião no nosso país nunca conheceu uma oposição intelectual articulada e sistemática — talvez porque aquando da Contra-Reforma as pessoas de mentalidade humanista tiveram de fugir do país. Por estes motivos, o leitor português pode ficar confundido com a frontalidade de Grayling no que respeita à religião. Mas, se ler atentamente, não encontrará vestígios de insultos pessoais. E a Filosofia Aberta convida-o a temperar a leitura deste livro com a leitura de Será que Deus Existe?, de Richard Swinburne. Deste modo, terá a Filosofia Aberta realizado uma das suas tarefas editoriais: dar ao público português a oportunidade de participar em alguns dos mais importantes debates de ideias internacionais.

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