Auto-retrato filosófico
John R. SearleDesde que me lembro, sempre me interessei pelas questões filosóficas, mas comecei os meus estudos universitários em filosofia em Wisconsin. Aí, o professor que mais me influenciou foi Julius Weinberg. Aos 19 anos, no fim do meu primeiro ano na universidade, deixei Wisconsin e fui para Oxford, com uma Bolsa da Rhodes, e subsequentemente recebi todos os meus graus académicos na universidade de Oxford. Depois de obter a licenciatura, ensinei pela primeira vez como professor universitário no Christ Church. Estive em Oxford como estudante e depois como don1 de 1952 até 1959. Foi uma idade de ouro para a filosofia de Oxford e fui muito influenciado pela actividade filosófica da altura, especialmente por dois professores, J. L. Austin e P. F. Strawson.
O meu trabalho inicial foi em filosofia da linguagem, e uma boa parte deste foi uma tentativa de desenvolver uma teoria geral dos actos de fala. Fiz uso extensivo de insights já então desenvolvidos por outros filósofos de Oxford, especialmente por Austin. Em 1959 completei o doutoramento em filosofia e entrei para os quadros da universidade de Berkeley na Califórnia, onde tenho ensinado desde então, exceptuando uma série de postos como professor convidado nos EUA, na Europa e América do Sul. O primeiro artigo que publiquei foi "Proper Names" Mind 67 (1958) que tinha escrito como um artigo de discussão para o meu tutor, Peter Strawson, em 1955. Entre os meus primeiros artigos, possivelmente os mais polémicos foram, "How to derive "ought" from "is"" Philosophical Review 73 (1964), "What is a Speech Act?" (Philosophy in America 1965) and "Meaning and Speech Acts" Philosophical Review 71 (1962). No artigo "How to derive "ought" from "is"" ataquei a então prevalecente versão linguística da dicotomia facto/valor do ponto de vista da teoria dos actos de fala. Este artigo causou imensa controvérsia, mas nada me levou até hoje a duvidar da sua tese fundamental de que a tradicional distinção metafísica entre facto e valor não pode ser captada pela distinção linguística entre "valorativo" e "descritivo" porque todos estes actos de fala já são em si normativos.
O meu trabalho nos actos de fala acabou por culminar no meu primeiro livro, Speech Acts: An Essay in the Philosophy of Language 1969. O tema deste livro é o de que falar uma língua é ter um tipo de comportamento que se rege por regras, e que a unidade básica da comunicação linguística é o acto de fala. Como consequência desta hipótese, a maioria dos problemas da filosofia da linguagem, como os respeitantes à referência e ao significado, são realmente facetas da teoria dos actos de fala. Toda a comunicação linguística humana consiste na execução de actos de fala. O principal objectivo deste livro é desenvolver uma análise de actos ilocutórios, como promessas, afirmações, ordens, comprometimentos, desculpas, e mostrar que a minha perspectiva pode ser aplicada a vários problemas filosóficos.
Em Speech Acts estou sobretudo interessado nos usos literais e sérios da linguagem, mas isto deixa sem resposta uma série de questões relativas à metáfora, à ficção, aos actos de fala indirectos, etc. Subsequentemente, tentei lidar com estes problemas numa série de artigos que acabaram por ser reunidos no meu segundo volume de filosofia, Expression and Meaning 1979. A tese principal de Expression and Meaning é a de que a compreensão da intencionalidade que foi usada na teoria original dos actos de fala poderia ser usada para lidar com outras questões, como as respeitantes à metáfora, ficção, actos de fala indirectos, etc. Penso que o artigo mais importante deste volume é "Taxonomy of Illocotionary Acts", no qual mantenho que não há um número infinito ou indefinido de coisas que se pode fazer com a linguagem. Mais propriamente, a natureza dos actos de fala contém exactamente cinco tipos básicos de actos ilocutórios possíveis: assertivos, directivos, compromissivos, expressivos e declarações.
A teoria da linguagem que desenvolvi tinha usado intensamente noções mentais como crença, desejo e intenção, e o uso destas noções filosoficamente problemáticas acabou por me levar a efectuar uma análise intensa destes e outros conceitos mentais no meu livro, Intentionality: An Essay in the Philosophy of Mind 1983. Este livro constitui uma tentativa de defender uma teoria geral da intencionalidade. Neste livro, tento explicar um grande número de tipos de intencionalidade: crenças, desejos, acções intencionais, percepções, memórias, etc., através de instrumentos bastante simples, incluindo noções como condições de satisfação, direcção da correspondência, conteúdo proposicional, modo psicológico, causalidade intencional, a natureza holista da intencionalidade, e assim por diante.
Tanto em Expression and Meaning como em Intentionality proponho a tese de que todo o fenómeno representacional, tal como o que se verifica em estados intencionais e actos de fala, requer um conjunto de capacidades não representacionais que as enquadrem para que possam manter a sua função. A interpretação de um acto de fala ou de um estado intencional só é determinado em relação a um fundo de capacidades biológica e culturalmente condicionadas. O significado e a intencionalidade só funcionam contra o pano de fundo de um conjunto de capacidades que não pertencem ao domínio do significado e intencionalidade.
No fim da década de 1970 fiquei bastante interessado nas ciências cognitivas, na época uma nova disciplina em desenvolvimento. Pareceu-me que as ciências cognitivas prometiam um corte com o behaviorismo estéril que afligia a psicologia que era feita nas universidades. Mas infelizmente, pelo menos nos seus primeiros dias, sofria de uma incompreensão do relacionamento entre os computadores e o cérebro. Refutei a ideia de que o cérebro é um computador digital e que a mente é um programa de computador num artigo, "Minds, Brains and Programs" (Behavioral and Brain Sciences 1980), que se tornou o alvo de muita controvérsia e debate. Neste artigo apresentei o agora famoso argumento do quarto chinês. O argumento é este: Se a implementação de um programa de computador fosse suficiente para a compreensão, então implementar um programa de computador que responda a perguntas de chinês deveria ser suficiente para se compreender chinês. Contudo, tal não se verifica, como se pode comprovar pelo facto de podermos imaginar uma pessoa que não saiba chinês, tal como eu, fechado num quarto, seguindo regras que permitem dar respostas usando símbolos chineses a perguntas que foram colocadas usando símbolos chineses; não há maneira, somente com base no programa de computador, de eu começar a compreender chinês. De exterior do quarto pode parecer que tenho um conhecimento perfeito de chinês, mas visto de dentro, onde a compreensão toma lugar, nada compreendo de chinês.
A força deste argumento tem sido debatida intensamente na literatura e deve haver pelo menos umas duas centenas de artigos publicados a discutir este problema, mas nada nesta bibliografia me levou a supor que o argumento do quarto chinês é algo menos do que uma refutação decisiva das proclamações mais ambiciosas da inteligência artificial.
Os meus debates sobre a inteligência artificial, bem como outros trabalhos em filosofia da mente, conduziram às BBC Reith Lectures de 1984, publicadas como Minds, Brains and Science. Aqui, não só continuei o debate acerca do quarto chinês, como lidei com vários outros problemas mais tradicionais da filosofia da mente, como o problema da mente-corpo, e o problema do livre-arbítrio.
Em 1992 publiquei The Rediscovery of the Mind, onde continuo a desenvolver as minhas ideias no que respeita à filosofia da mente. Neste livro, e numa série de artigos que o precederam, defendo a tese de que compreender a consciência é essencial para uma compreensão do fenómeno mental e que muito do que está mal nas ciências cognitivas contemporâneas e na filosofia da mente deriva de não se aceitar o facto de a consciência ser um fenómeno biológico qualitativo e subjectivo.
Acerca do problema da mente-corpo, defendi a tese de que este problema tem uma solução simples: os estados mentais são causados por processos neurofisiológicos do cérebro e são eles mesmos propriedades de nível superior do cérebro. Chamo a esta teoria, "naturalismo biológico". Este livro também alarga as minhas críticas à teoria computacional da mente: exceptuando aqueles casos raros onde um agente consciente está a computar uma função, digamos, resolvendo problemas de aritmética, a "computação" não refere um processo intrínseco que se desenrola na natureza, mas sim um fenómeno que é relativo a um observador. Um sistema só computa uma função relativamente à atribuição de uma interpretação computacional por um observador exterior ao sistema. Isto mostra que a tese de que o cérebro é um computador digital é incoerente: se afirma que o cérebro é um computador digital, então é trivialmente errada, pois nada é intrinsecamente um computador digital; se afirma que uma interpretação computacional pode ser atribuída ao cérebro, então é vazia visto que uma interpretação computacional pode ser atribuída a qualquer processo.
O meu livro mais recente The Construction of Social Reality 1995, usa materiais meus prévios para tentar responder a algumas questões basilares sobre os fundamentos das ciências sociais. Qual é a ontologia da realidade social? E em particular, com pode existir uma realidade objectiva para coisas como dinheiro, propriedade, casamento, governo, etc., que em certo sentido só existem por contrato ou convenção humana? Este livro fornece uma análise pormenorizada da ontologia da realidade social e institucional. Também inclui uma defesa do realismo externo, a ideia de que há um mundo real que existe independentemente das nossas representações, e uma defesa da teoria da verdade como correspondência, a ideia de que as afirmações são normalmente verdadeiras, se e só se, correspondem a factos no mundo independentes da afirmação.
Além do trabalho profissional puramente filosófico, tenho participado em polémicas de uma relevância cultural mais vasta. Publiquei vários artigos sobre a educação no ensino superior, um livro sobre a agitação estudantil, The Campus War 1971, e entrei em debates com críticos literários.
John R. Searle
Nota do tradutor
- Termo pelo qual são referidos os professores universitários em Oxford.
Retirado de Dictionary of Philosophy, org. por Thomas Mautner (Penguin, 2005)
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