The Cult of Information: A Neo-Luddite Treatise on High Tech, Artificial Intelligence and the True Art of Thinking
25 de Outubro de 2008 ⋅ Opinião

Insight e cognição

Theodore Roszak

1. As ideias-mestras

Se há uma arte de pensar que quereríamos ensinar aos jovens, tem muito a ver com isto — mostrar como a mente se pode mover ao longo do espectro da informação, discriminando generalizações súbitas de pressentimentos, hipóteses de preconceitos irreflectidos. Para o nosso propósito, contudo, quero mover-me para o extremo do espectro, para o ponto limite em que os factos, cada vez mais rarefeitos, desaparecem por fim completamente. O que encontramos quando ultrapassamos tal ponto e entramos na zona em que os factos estão totalmente ausentes?

Aí encontramos as ideias mais perigosas de todas. Que, contudo, também podem ser as mais ricas e as mais fecundas. Pois é aí que encontramos aquilo a que poderíamos chamar as ideias-mestras — os grandes ensinamentos morais, religiosos e metafísicos que constituem os fundamentos da cultura […].

Quero centrar-me nelas porque têm uma relação particularmente reveladora com a informação, que é o nosso assunto principal. As ideias-mestras não se baseiam em qualquer informação. Utilizá-las-ei, portanto, para enfatizar a diferença radical entre as ideias e os dados, que o culto da informação tanto tem feito para obscurecer.

Tomemos uma das ideias-mestras da nossa sociedade como exemplo: Todos os homens nascem iguais.

O poder desta ideia familiar não nos é estranho. A partir dela, surgiram gerações de controvérsia jurídica e filosófica, movimentos políticos e revoluções. É uma ideia que moldou a nossa cultura de tal modo que nos toca profundamente; é parte, e talvez a mais importante, da nossa identidade pessoal.

Mas de onde surgiu esta ideia? Não, obviamente, de um qualquer conjunto de factos. Quem criou a ideia não possuía mais informações acerca do mundo do que os seus antepassados, que, sem dúvida, teriam ficado chocados com tal declaração. Possuíam muito menos informação acerca do mundo do que aquela que nós, no final do século XX, julgamos ser necessária para defender uma declaração tão radical e universal acerca da natureza humana.

2. A antiga magia matemática

O modelo matemático da certeza absoluta é uma das esperanças imortais da nossa espécie. Por mais mentalmente rígidos que a maioria dos cientistas possa ser (ou deseje parecer) na resposta à antiga magia da matemática, esse sonho platónico sobrevive, e em lugar nenhum mais vivamente do que no culto da informação […].

Há ideias de tipo inmatemático (poderíamos chamar-lhes insights ou, talvez, artigos de fé) que subjazem a todo o pensamento científico e o regem. Veja-se a nossa convicção básica de que há uma ordem racional na natureza, um modelo que a nossa mente consegue apreender. Esta é a mais fundamental das ideias científicas.

Mas em que se baseia? É um pressentimento ou uma esperança insistente, criada gradualmente, talvez, a partir de percepções efémeras de simetrias ou regularidades na natureza, ritmos e ciclos recorrentes — as quais se dissolvem todas continuamente na "confusão vibrante e crescente" da vida quotidiana. Utilizando esta ideia como uma espécie de filtro, eliminamos as excepções e as distracções e encontramos regularidades mais profundas, que se começam a parecer com a ordem das coisas.

Mas que tipo de ordem? A nossa ciência decidiu procurar a ordem dos números. Trabalhamos a partir da ideia poderosa de Galileu segundo a qual "o grande livro da natureza está escrito em linguagem matemática". Mas poderíamos ter escolhido outro tipo de ordem. Existe a ordem da música (e assim o astrónomo Kepler gastou a maior parte da sua vida à procura da harmonia das esferas); existe a ordem da arquitectura e do teatro; existe a ordem de uma história (um mito) contada repetidamente; existe a ordem do comportamento de um deus, em que esperamos a recompensa e a punição, a ira e o perdão.

Qual destas ordens é a mais importante? Fazer essa escolha também é uma ideia para ser seleccionada de entre todas as possibilidades.

Quase toda a ciência moderna foi gerada a partir de um pequeno conjunto de ideias metafísicas e mesmo estéticas, tais como:

O universo é constituído por matéria em movimento. (Descartes)
A natureza rege-se por leis universais. (Newton)
Conhecimento é poder. (Bacon)

Nenhuma destas ideias é uma conclusão a que se tenha chegado através da investigação científica; nenhuma delas resulta do processamento de informação. Constituem antes premissas que tornam possível a investigação científica e conduzem à descoberta de dados confirmativos. De novo, estas são ideias-mestras acerca da realidade e, tal como todas as ideias-mestras, transcendem a informação. Decorrem de uma outra dimensão da mente, de uma capacidade para o insight que é talvez comparável ao poder da inspiração artística e religiosa.

Theodore Roszak

Tradução de Rui Daniel Cunha
Gabinete de Filosofia da Educação
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Retirado de The Cult of Information: A Neo-Luddite Treatise on High Tech, Artificial Intelligence and the True Art of Thinking, de Theodore Roszak (Berkeley, University of California Press, pp. 91-92 e 113-115).
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