11 de Janeiro de 2017   Filosofia da mente

Hebb e uma resposta negativa ao problema de Molyneux

Ronaldo Pimentel

Criador do termo “População neuronal” ou “Rede neural”, o psicólogo canadense Donald Hebb revolucionou o campo da psicofisiologia com tais noções. Perceber para Hebb é “treinar” reiteradamente uma rede neural no reconhecimento de um objeto, ou seja, pela experiência. Mas o desenvolvimento empírico da rede neural precisa de uma predisposição inata para a sua formação ou se baseia na formação de populações neuronais anteriormente dadas. É com esse pensamento, tanto inatista quanto empirista, que vamos mostrar que é possível a partir de Hebb elaborar uma resposta negativa para o problema de Molyneux.

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I.

Imagine um cego de nascença com catarata congênita venha a ser operado e a sua moléstia é totalmente extirpada de seu aparelho visual. Imagine que essa pessoa saiba diferençar pelo tato o que é um cubo e o que é uma esfera. Será possível que, ao abrir os olhos pela primeira vez depois da cirurgia, essa pessoa conseguirá diferenciar o cubo e a esfera colocados à sua frente? Esse é o problema de Molyneux. Ou ainda podemos perguntar se a pessoa conseguirá descobrir o que é um círculo e o que é um quadrado à sua frente, ou ainda, se a pessoa conseguirá distinguir corretamente qualquer figura geométrica previamente conhecida pelo tato, como um triângulo por exemplo, posta à sua frente no primeiro momento em que ela venha a enxergar.

Estudos de caso evidenciam por unanimidade que a resposta ao problema da Molyneux é negativa. Experiências de confinamento em laboratório levam a uma resposta negativa convincente tais como experiências com ratos, chimpanzés ou humanos. Refletir sobre essas experiências nos leva, numa generalização estatística, à conclusão que, mesmo que uma pessoa tenha a sua visão totalmente retomada, ou seja, venha a enxergar como um humano normal, a resposta seria negativa. Segundo esses testes, ratos e chimpanzés com a visão perfeita que passaram por um período de confinamento na escuridão, tiveram dificuldades em resolver testes de labirinto ou reconhecimento de objetos (Cf. Hebb, 1980/2009, pág. 94–7). No caso dos seres humanos, um grupo de pessoas que foram convidadas para se manterem confinadas por um determinado período de dias por cerca de 22h/dia, sem estímulo ambiente; obtiveram ao final do teste mudanças neurológicas consideráveis em relação a seus aparelhos perceptuais e lentidão na resolução de problemas ou ainda:

The experimental subjects were more vulnerable to propaganda than the control subjects who where hired to listen to the same stuff, advocating belief in ghosts and poltergeists as well as clairvoyance and telepathy. (Hebb, 1980/2009, pág. 97)

Se argumentarmos com Lakatos que devemos adotar como programa de pesquisa científica aquele que possui maior quantidade de sucessos previsivos/explicativos, partir para a teoria neurocientífica de Donald Hebb para atacar o problema seria uma atitude correta e, nessa disciplina, podemos dizer que a questão de Molyneux deixou de ser um problema; e a resposta é não. Temos de dizer ainda que o problema de Molyneux na forma de relatos clínicos feitos por von Senden (1932) no livro intitulado Raum und Gestaltauffassung, traduzido para o inglês em 1960, recebeu o título Space and Sight incentivou os estudos de Hebb, o que podemos comprovar na seguinte citação autobiográfica:

[…] in fact I had reared rats in darkness myself and tested their vision, as the basis of a Ph.D. thesis. When I recalled that work I recalled too a feeling that there was something peculiar, something remarkable, about a book I had read at the time. The book was von Senden’s (1932, 1960) valuable compilation of all the published reports of people who were born blind, with cataract, and who were later made able to see by removing the cataract. I looked at von Senden again and I was astonished at what I found. His subjects were in effect blind at first […]. A prolonged learning process was needed after operation before the patient began to see the world in the way that a normal person does. (Hebb, 1980/2009, pág. 90)

A citação nos mostra que perceber envolve um aprendizado longo. Mas o que é perceber? A percepção não é somente um raio de luz atingir um objeto e então refletir na retina do conhecedor esse objeto. É preciso que, para que haja a percepção de alguma coisa, que alguém tenha o conceito daquilo que está percebendo, por exemplo, você somente saberá que há um Embraer 195 voando sobre sua cabeça se você já possui o conceito “Embraer 195” bem desenvolvido e então consiga varrer o campo visual e identificar esse objeto. Desenvolver esse conceito é muito difícil e demorado. Ele é a reunião de inúmeros conceitos aprendidos previamente. O conceito, de um ponto de vista neurofisiológico, é uma população de neurônios, ou uma vasta conexão de populações neuronais espalhadas pelo córtex que é estimulada especificamente quando determinado objeto está à vista ou é lembrado. O processo de reconhecimento de um objeto na percepção exige que o conceito específico do objeto bem definido seja desenvolvido e excitado na forma de reunião de vários conceitos simples, como notas características. Quando ocorre a excitação por meio da percepção, vem no cérebro uma tempestade de impulsos entre os neurônios conectados, que formam a rede neural. A formação do conceito é feita em experiências reiteradas durante os primeiros processos da aprendizagem e exige uma predisposição inata para a formação do conceito. Na aprendizagem, o sujeito formará o reconhecimento dos objetos a serem percebidos – o que cria dentro de suas estruturas cerebrais um vocabulário interno, modelos representacionais dos objetos a serem reconhecidos na experiência (Cf. Maddy, 2007, pág. 255). Quando alguém percebe um objeto, o que ocorrerá é a aplicação desses conceitos, propriedades ou comportamentos específicos referentes a tais objetos presentes no campo visual.

Hebb introduziu o termo cell-assembly ou população neuronal ou ainda rede neural e que podem ser vistas como conceitos. Sua teoria do cell-assembly faz parte, na neurociência, da derrubada da teoria de que existe um neurônio específico para cada comportamento, função cognitiva, etc. Um exemplo dessa antiga ideia é a existência do “neurônio da vovó”, ou seja, o que mantém vivo na memória de alguém a existência de sua vovó e a possibilidade de perceber na multidão o rosto da sua vovó é a existência de um neurônio da vovó, que é disparado ou excitado no córtex. Portanto, se esse neurônio morrer, morre também a lembrança que o sujeito tem da sua querida vovó; se a vovó estiver viva, o sujeito não a reconheceria. O que Hebb notou foi que pacientes que perderam parte significativa do cérebro em acidentes, AVC, cirurgias, etc., continuam “lembrando da sua vovó”, ou seja, as capacidades cognitivas não são perdidas e, em alguns casos, o paciente chega até a melhorar o resultado em testes de QI. Com essas evidências, Hebb, em 1949/2002, lançou a hipótese do cell-assembly ou população neuronal: As funções cerebrais são desempenhadas por populações de neurônios que se espalham por todo o sistema nervoso central cada função que desempenhamos durante a vida que envolve a cognição é desenvolvida por um funcionamento padrão de uma população de neurônios. A memória da vovó não se perde com a morte de um neurônio específico nem, em alguns casos até certo limite, com a perda de uma quantidade significativa de tecido, já que a informação está espalhada em uma grande população de neurônios (Cf. Hebb, 1949/2002; Cf. Nicolelis, 2011, pág. 45–7)

Neurônios são a via onde a informação viaja pelo sistema nervoso. Eles colhem e enviam informação para todo o corpo. Num exemplo muito rudimentar, nos órgãos dos sentidos, eles basicamente colhem a informação. Nos órgãos responsáveis pelo movimento como os músculos, eles enviam a informação. No caso simples de estímulo e resposta, se encostarmos a mão numa chapa quente, a informação da dor é colhida pelos neurônios. Outros neurônios recebem essa informação e enviam-na para um músculo da mão e então ela imediatamente é afastada da chapa. Eventos como esse não chegam a ser enviados para o SNC e muitas vezes são resolvidos no nível da coluna vertebral.

O que acontece, então, quando recebemos uma informação complexa como estímulo e a variação do tempo até a resposta é muito longa? Por exemplo: O que acontece, se isso for possível, quando um cego de nascença após ser operado de catarata demora meses a fio para responder que o que está à frente dele é uma esfera à direita e um cubo à esquerda? O estímulo inicial foi dado ao recém operado, a resposta não foi colhida de imediato. A árdua aprendizagem levou meses para o paciente responder corretamente. O que houve nesse período nas suas estruturas cognitivas para que a percepção fosse certeira? O paciente se viu durante meses diante de um cubo e uma esfera e não conseguiu responder corretamente, até que, de repente, o paciente responde corretamente: o que aconteceu para que a percepção fosse correta e a resposta dada fosse certeira? Para responder a essas perguntas é preciso entender o que é a percepção em Hebb e como ela se articula com os conceitos de população neuronal (cell-assembly) e também de sequência de fases.

II.

Quando percebemos alguma coisa no campo visual, obviamente, estamos tendo uma percepção visual. Numa percepção visual, o que ocorre é o envio da informação do olho para o córtex visual. No córtex visual há uma população de neurônios ligada a várias outras populações de neurônios no cérebro como as presentes no córtex motor. É o que basicamente acontece quando você vê um carro vindo na sua direção e você corre para sair do caminho. Obviamente, se não houvesse a percepção de algo, a resposta motora não ocorreria. O que ocorre aqui é a união de vários neurônios. Se isso acontecer repetidamente, um padrão de conexão entre os neurônios ocorrerá, já que neurônios que se ligam frequentemente tendem a formar um padrão de conexão; e o aprendizado será efetivo: você sempre correrá quando um carro vier na sua direção.

A percepção depende de um longo ciclo de aprendizado que envolve o desenvolvimento de um padrão de disparo de uma população de neurônios. Antes desse aprendizado, ver um círculo ou um quadrado não vai fazer sentido para o paciente operado. Ele pode até ver um círculo e um quadrado como objetos coerentemente distintos e que se destacam do fundo do campo visual, ou seja, ele consegue distinguir figuras coerentes do fundo na percepção mas não consegue selecionar “isso aqui é um círculo ou esfera e aquilo ali é um quadrado ou um cubo.” O aprendizado para chegar ao conceito exato de círculo e de quadrado, de triângulo ou do que seja, é árduo. O paciente que chega a diferenciar tais objetos não pode vir a reconhecer a diferença desses objetos posteriormente de as cores desses objetos mudarem ou se forem rearranjados na cena que se apresenta (Cf. Hebb, 1949/2002, pág. 28–9). O paciente passa por um período difícil de adaptação ao mundo dos que enxergam. O pouco que ele aprende com muita dificuldade num dia é completamente esquecido no dia seguinte. Alguns danos, por falta de aproveitamento de janelas de oportunidade, podem vir a ser irreversíveis e a chance de voltar a enxergar o mínimo que seja vem a ser perdida. Diante de tanta dificuldade para aprender alguma coisa, os pacientes se vêm na opção de recuar e viverem como cegos novamente, à procura de uma zona de conforto.1

Um relato trágico e comovente de como isso ocorre está contido em Sacks (1995) no caso de Virgil, um paciente que perdeu a visão na infância e veio a voltar a enxergar depois dos quarenta anos de idade através de uma cirurgia. Durante o processo de aprender a enxergar, Virgil veio a sofrer uma infecção bacteriana, que quase o levou à morte. Nesse quadro fatal, Virgil perdeu completamente a visão novamente, não só a visão mas também o emprego, a casa e a saúde, passando a viver completamente dependente da mulher e de um botijão de oxigênio. Questionado sobre o quadro que se apresentava a ele, Virgil simplesmente respondeu, em conformidade: “These things happen.” (Sacks, 1995, pág. 151) expressando quase que um sentimento de pertença ao mundo da cegueira. Escreve a respeito Hebb:

The learning [process of a blind person after surgery] was so arduous that most of the patients eventually gave up the attempt and returned to living as blind persons. (Hebb, 1980/2009, pág. 90, colchetes nossos)

Tudo isso ocorre porque o processo de aprender a perceber coisas é lento e difícil para o paciente. Nas pessoas normais não se nota essa lentidão, porque isso acontece logo na infância, onde inclusive as janelas de oportunidade são aproveitadas. Mas no paciente recém-operado é notável a necessidade de aprender a perceber as coisas pela visão porque isso é urgente. A percepção visual se inicia com a diferenciação de cores e o reconhecimento de padrões de cores distintas. Em seguida, é identificado partes periféricas de figuras das coisas que se apresentam no mundo, não a figura como um todo. Por exemplo, aquele que está aprendendo a ter uma percepção visual, aprenderá a reconhecer os lados ou ângulos de um triângulo antes de reconhecer a figura do triângulo por completo. Esse paciente não é capaz de dizer “triângulo” de uma vez em relação ao triângulo que ele está vendo. Ele se atentará para a periferia da figura, as linhas e os ângulos e fará uma varredura visual pelo perímetro do triângulo. Quando o paciente conseguir reunir todas as partes da figura que se apresenta na sua varredura visual pelo perímetro, ele conseguirá dizer, numa única olhada, que ele está vendo um triângulo, mas reunir todas as partes num objeto distinto exige tempo e não ocorre de uma única vez.2

Nos pacientes adultos a aprendizagem é mais demorada ainda, é como se aprendesse uma língua estrangeira: para as crianças é muito fácil, o aparelho cognitivo está apto para receber a aprendizagem, mas no adulto é difícil e demorado. Tudo isso pode ser explicado pela frequência de disparo dos neurônios: Um neurônio A que dispara no B com mais frequência tenderá a estabelecer uma conexão AB, mas se a frequência de disparo é curta ou nunca ocorreu, como nos adultos cegos, em que o córtex visual não consegue se conectar com outras funções cognitivas do cérebro, a aprendizagem vai ser lenta ou em alguns casos impossível de formar uma ligação AB, o que é frustrante para o paciente. A criança com um aparelho perceptivo perfeito tem mais chances de aumentar essa frequência de conexão entre os neurônios. Isso pode ser resumido e explicado no postulado neurofisiológico proposto por Hebb:

When an axon of cell A is near enough to excite a cell B and repeatedly or persistently takes part in firing it, some growth process or metabolic change takes place in one or both cells such that A’s efficiency, as one of the cells firing B, is increased. (Hebb, 1949/2002, pág. 62)

Pessoas com o SNC e com os aparelhos de sentidos intactos têm mais chance de estabelecer conexões neuronais entre as áreas do cérebros responsáveis pela cognição e os neurônios vindos do córtex visual. A percepção visual é uma condução da informação do córtex visual para as demais áreas do cérebro onde outras redes neurais estão lá formadas. Essas redes neurais são conceitos, verdadeiras ideias. A excitação de uma rede neural fora do córtex visual por uma informação vinda do córtex visual é a percepção visual. É por isso que a percepção visual é a aplicação de um conceito. Neurônios do córtex visual conduzem a informação para diferentes áreas, conforme vamos ilustrar na figura a seguir:

Figura 1

Essa figura mostra a difusão da informação a partir do córtex visual para as demais áreas do SNC. A célula 1 ao disparar pode excitar a célula 2 que por sua vez pode disparar e excitar a célula 3, que por sua vez reenvia a informação para outra célula do córtex visual, se for ligada a uma outra célula. A célula 1 pode também excitar a célula 4 que por sua vez pode excitar a célula 5 que excita a célula 6 no córtex motor. A célula 5 também pode excitar uma célula no córtex visual, enviando informação para a visão. Isso é um exemplo de população neuronal de acordo com a teoria proposta por Hebb, 1949/2002 e assim a informação é espalhada no cérebro. Isso mostra também que a percepção visual depende de estruturas fora do córtex visual. O sujeito que está aprendendo a perceber pela visão precisa estabelecer essas ligações, é isso que falta ao “ex-cego” e ao recém-nascido. É o que passou Virgil, e que vamos exibir na citação a seguir:

But when Virgil opened his eye, after being blind for forty-five years – having had little more than an infant’s visual experience, and this long forgotten – there were no visual memories to support a perception; there was no world of experience and meaning awaiting him. He saw, but what he saw had no coherence. His retina and optic nerve were active, transmitting impulses, but his brain could make no sense of them; he was, as neurologists say, agnosic.(Sacks, 1995, pág. 115)

Virgil passa por um quadro de agnosia: os órgão sensoriais da visão estão intactos, enviando informação para o córtex visual, porém, a informação não tem como ser enviada, pelo menos no início, a outras populações neuronais, o que faz com que o que Virgil enxerga não tenho sentido algum. É preciso juntar várias populações neuronais distintas para que tudo ganhe sentido e isso será feito num processo chamado sequência de fases. A sequência de fases permitirá unir, numa sequência, várias populações neuronais para formar um conceito mais complexo. Cada população neuronal é responsável pelo reconhecimento de um padrão na percepção visual. Parte mais importante da teoria da população neuronal, a noção de sequência de fases permitirá reunir na teoria da percepção o inatismo com o empirismo. Diz Hebb a respeito:

Students of perception have traditionally included toward nativism, and any theory is unpalatable that makes the ease of perception of common objects the result of a long process of learning. They have also inclined toward denying that the perception of the whole depends on perception of parts, and thus assembly theory is at best unattractive because, although it does reduce the whole to a sum of sensory elements, it does argue that any but the simplest of objects is first perceived (in the course of the child’s development) as consisting of parts, the whole being perceived as such only later. The theory has experimental support, and it is possible that human perception actually does have the kind of complexity that the theory requires […] (Hebb, 1980/2009, pág. 83)

A citação mostra que a preocupação de Hebb em estabelecer uma sequência de fases é que para perceber o todo no campo visual é preciso perceber as partes, assim como no caso em que se percebe um ambiente tato após tato, mas isso não é uma redução da percepção visual ao empirismo. Primeiro, do ponto de vista inatista, porque os seres humanos são capazes de reconhecer determinados padrões sem a experiência como a linha reta na vertical ou na horizontal, e o acúmulo das experiências permitirá uma combinação desses padrões perceptuais onde outros padrões podem ser construídos sobre esses. Segundo, do ponto de vista empirista, percepções mais complexas dependem da experiência do sujeito, ou seja, entrar em contato reiteradamente com um padrão visual que possua algo já aprendido por percepção anterior ou inata mas que possibilite, com as condições dadas, formar a percepção de algo novo com a junção de tudo que foi percebido. É esse processo que se assemelha ao tato: colher vários padrões distintos pela experiência, mas só que pela visão. Por exemplo, para perceber um quadrado, será necessário ao percebedor ter a capacidade de perceber linhas verticais e horizontais, que formam os lados do quadrado, para então avançar na percepção da figura como um todo. A noção de sequência de fases se relaciona bem também com o que é descrito em Merleau-Ponty (1945/2011, pág. 301).3

A junção de várias populações neuronais para a formação de um conceito maior é a sequência de fases. Na verdade, o reconhecimento de um quadrado ou de um círculo é uma sequência de fases, ou seja, a reunião de vários conceitos como os de linha horizontal e vertical. O começo é a percepção imediata de linhas na horizontal e na vertical, que pela experiência mostrará ser possível a formação e o reconhecimento de padrões mais complexos.

No reconhecimento de um padrão, o olho passa então a checar a periferia das figuras na busca de tais padrões, como se fosse mesmo um cego a tocar as figuras (Cf. Merleau-Ponty, 1945/2011, pág. 301). Busca-se com isso fixar várias partes do contorno de um objeto e as intersecções das linhas desses objetos (Cf. Hebb, 1949/2002, pág. 82). Diz Hebb que a percepção de um padrão linear deve excitar ao mesmo tempo um conjunto de células no córtex visual que, quando a percepção não é mais a respeito de uma linha, deixam de ser excitadas ao mesmo tempo. A formação da percepção de um triângulo é complexa: primeiro, o percebedor rastreará as linhas de contorno, depois, verificará que existe entre cada linha uma interseção que forma um ângulo, e isso acontece três vezes na figura.

Figura 2

Vamos esquematizar como isso acontece na figura. O que temos dentro do círculo na figura é o ponto que mais chamou a atenção do percebedor, as setas para cima e para baixo indicam quais as possíveis direções de rastreio da periferia o percebedor pode tomar com o olho: contornar a figura até o ângulo b‘’’ ou até o ângulo b‘’. Com o movimento do olho, ele percorrerá essa linha até a próxima interseção e então formará uma sequência de percepções linha-ângulo. Na figura, a é uma linha e b é um ângulo formado pela intercessão. Só aí já temos no mínimo seis populações de neurônios distintas a ativar: três de linhas e três de ângulos da figura, que forma a seguinte sequência de fases: b'-a'-b''-a''-b'''-a''' onde a é uma população neuronal que percebe uma linha e cada ’ significa uma população neuronal distinta e b é uma população neuronal de intersecção de linhas. b'-a'-b''-a''-b'''-a''' é uma sequência de fases que no final o percebedor terá de unificar numa única população neuronal que formará o conceito complexo de triângulo. Isso é muito difícil e toma um tempo considerável, já podemos imaginar o quanto de atividade cerebral está inserido nesse processo de reconhecimento do triângulo. Realizar isso pode ser em alguns casos impossível para o paciente: Ele pode vir a reconhecer cada parte do triângulo mas nunca formar a ideia de triângulo, dependendo da sequela que a cegueira deixou em seu aparelho cognitivo. Cada população agirá sozinha até o momento em que o percebedor terá o insight de unir todas as populações neuronais numa única população. Quando as conexões sinápticas forem suficientes, então a inferência poderá ser feita: “é um triângulo” ou “um cubo, uma esfera, etc.”. Isso ocorrerá após muitas tentativas, muitas vezes frustrantes, do paciente. Tal processo pode ser resumido no seguinte texto de Hebb:

Perception depends on learning first to see the parts of an object clearly, a process involving a series of visual fixations, and proceeds from seeing, at first, an amorphous mass containing several foci (the corners), to seeing a distinctive figure at a glance. Even at this final stage we know that perception of the whole is dependent on eye movement for maximal clarity (Chapter 2). According to the schema, the perception is constituted by a temporal sequence of activity in suprassensory (or association-area) structures, which owe their organization to changes at the synapse: it is an irregular cycle of recurring events which can continue momentarily without the corresponding stimulations, but which is reinforced by them and by the appropriate eye movements. (Hebb, 1949/2002, pág. 101–2)

O paciente aqui, ao chegar a dizer “é um triângulo”, portanto, estará aplicando o conceito de triângulo. Mas, como explicado na situação acima, o conceito precisa ser formado primeiro com aquilo que o paciente já conhecia, depois, com a junção das experiências perceptuais que ele obteve no momento em que o triângulo entrou no campo visual do paciente e ele agiu como explicamos na sequência de fases. Em seguida, num trabalho interno neurofisiológico, as conexões neurais entre populações neuronais distintas da sequência de fases se uniram e formaram um conceito complexo de triângulo. Esse conceito pode se unir com o conceito de triângulo que ele já havia quando percebia esse objeto com o tato, ou seja, uma outra população neuronal distinta da que acabou de ser formada. Aqui, a sequência de fases conseguiu englobar notas características do conceito de triângulo que vêm tanto do córtex visual quanto do córtex motor numa única população neuronal. Esse é poder da sequência de fases: permitir várias conexões entre as redes neurais que vão se conectando umas com as outras. Tais conexões vão se tornando mais fáceis quanto mais os neurônios realizam disparos em neurônios mais próximos, reforçando o conceito de triângulo, inclusive com a união de conceitos de triângulo aprendidas em outros sentidos.4 Até que o paciente um dia não precise mais fazer uma busca visual pelas laterais da figura para perceber um triângulo e sim perceber o triângulo numa única visada. Portanto, podemos dizer com isso que perceber não é aplicar um único conceito e sim aplicar vários conceitos num único conceito mais complexo e ao mesmo tempo e que pode inclusive envolver conceitos vindos de outros sentidos como o tato ou a audição. Ocorrendo isso, podemos dizer, não apenas com Hebb, mas também com Merleau-Ponty (1945/2011), que o cego aprendeu a ver.

O relato de Sacks, 1995, de Virgil se encaixa perfeitamente no nosso exemplo da sequência de fases. Virgil não era capaz de reconhecer uma árvore ou um gato, por exemplo, numa única olhada:

He would pick up details incessantly – an angle, an edge, a color, a movement – but would not be able to synthesize them, to form a complex perception at a glance. This was one reason the cat, visually, was so puzzling: he would see a paw, the nose, the tail, an ear, but could not see all of them together, see the cat as a whole. (Sacks, 1995, pág. 124)

Quanto à possibilidade de unificar a sequência de fases num único conceito e perceber um objeto numa única olhada, escreveu a esposa de Virgil à Sacks: “Virgil finally put a tree together – he now knows that the trunk and leaves go together to form a complete unit.” (Sacks, 1995, pág. 125) O caso de Virgil, assim como tantos outros na literatura, é uma confirmação da teoria da percepção de Hebb. E assim o progresso na aprendizagem no “ex-cego” caminha, não como numa pessoa normal, mas como num recém-nascido e com muito mais dificuldade. No recém-nascido, a aprendizagem é mais rápida porque, pelo postulado neurofisiológico enunciado por Hebb, o recém-nascido possui mais probabilidade de realizar conexões neuronais mais rapidamente: o SNC está pronto para estabelecer todas as conexões que ele irá utilizar por toda a vida. O “ex-cego” já possui muitas conexões estabelecidas, mas não possui conexões estabelecidas por estimulação de neurônios do córtex visual, o que dificultará a sua aprendizagem pela percepção visual na vida adulta. Porém, a aprendizagem do “ex-cego” é diferente da aprendizagem de um adulto normal. O adulto normal no seu processo de continuação da aprendizagem somente reforçará as conexões neuronais já estabelecidas durante os seus primeiros vinte anos de vida enquanto que o “ex-cego” ainda está aprendendo a fazer essas conexões (Cf. Hebb, 1949/2002, pág. 132). Substitua o nosso exemplo do triângulo pelo exemplo do cubo e da esfera e submeta ao conjunto de hipóteses da sequência de fases e do postulado neurofisiológico de Hebb e de alguns resultados experimentais e então verá que a resposta negativa ao problema de Molyneux é a única coerente com a experiência.

III.

Para concluir, vamos discutir a resposta negativa ao problema de Molyneux derivada da teoria da percepção de Hebb com Gallagher, (2002). O paciente hipotético tratado aqui não possui danos neuronais tão graves a ponto de impedir que ele venha a fazer distinções entre objetos quando ele ganha a visão. Um sujeito desse, que mantém as suas capacidades cognitivas perfeitas mesmo na cegueira ainda assim nos possibilita inferir que o paciente não conseguirá distinguir de imediato o cubo da esfera. Basta raciocinar sobre os experimentos contidos em Hebb (1980/2009) sobre confinamento de humanos, ratos e macacos: esses animais dos experimentos possuem uma visão perfeita, mas suas capacidades perceptivas se deterioram com o passar do tempo e é preciso formar uma sequência de fases equivalente à percepção da figura geométrica, o que ocorre somente com o passar do tempo.

A resposta ao problema de Molyneux para Gallagher depende do funcionamento neuronal do paciente: Se o paciente for, como o caso de Virgil em que a visão retorna com a possibilidade de reconhecimento de objetos, os danos neuronais não são tão graves, e o sujeito poderá ser submetido à questão de Molyneux. A resposta será negativa dado os resultados dos experimentos de confinamento. Se o paciente possui danos irreversíveis que o impedem de formar populações neuronais capazes de reconhecer um objeto, a resposta será definitivamente não já que seu aparelho perceptual ligado à visão pode se encontrar impossibilitado de realizar ligações sinápticas com outras populações neuronais. Isso ocorre porque uma das decorrências do postulado neurofisiológico de Hebb é que se um neurônio A nunca disparou no neurônio B, a ligação nunca ocorrerá se o processo depender de alguma janela de oportunidade. E Gallagher chega a essa conclusão após analisar trabalhos contemporâneos de neurofisiologia da visão.

Gallagher acredita que ainda é possível responder positivamente ao problema de Molyneux se o aparelho cognitivo do paciente se encontra intacto e se aplicar um experimento hipotético descrito em Evans (2002, pág. 339). Nesse experimento, o paciente cego antes de ser operado sofreria estímulos de fosfeno no córtex visual que geraria padrões visuais como quadrado ou triângulo parecidos com o que nós enxergamos. Então, após ser operado, o paciente seria capaz de reconhecer o que é um quadrado à sua frente. Afirmamos que esse experimento apenas muda a questão de Molyneux para outro momento anterior: Se na primeira estimulação de fosfeno que gerasse uma atividade no córtex visual do paciente ele seria capaz de dizer se é um cubo. Obviamente que não. Se ele fosse treinado com tal aparato, se uma vez operado, ele seria capaz de responder, mas aqui a estrutura do problema mudou e não é mais o problema de Molyneux original: Problemas diferentes, respostas diferentes.

O esquema proposto acima de acordo com Hebb (1949/2002 e 1980/2009) possibilita uma resposta negativa para o problema de Molyneux não somente por concepções filosóficas com respeito à mente como a apresentada em Hebb (1980/2009) mas também com respeito a dados neurocientíficos empíricos e as suas hipóteses neurocientíficas apresentadas em Hebb (1949/2002) que vem sendo confirmadas nas teorias neurocientíficas posteriores. Para elaborar uma resposta negativa nesses moldes é preciso pressupor que (i) o paciente possui conceitos espaciais básicos perceptíveis na visão como o reconhecimento de linhas sem experiências anteriores por exemplo; (ii) que os conceitos mais complexos de objetos perceptíveis visualmente são formados numa sequência de fases a partir de conceitos primitivos inatos; e (iii) que os conceitos de objetos no espaço mais complexos vindos do tato, apesar de serem os mesmos objetos que o paciente perceberá com a visão, não se comunicam e precisam ser relacionados numa sequência de fases pela experiência reiterada/estimulação neuronal.

Ronaldo Pimentel

Referências

Notas

  1. A respeito disso, escreve Merleau-Ponty (2011) em relação ao paciente recém-operado, que não consegue distinguir bem as coisas: “Primeiramente, tudo está misturado e tudo parece em movimento. A segregação das superfícies coloridas, a apreensão correta do movimento só vêm mais tarde, quando o paciente compreendeu “o que é ver”, quer dizer, quando ele dirige e passeia seu olhar como um olhar, e não como uma mão" (pág. 301). Veremos o que é esse passeio do olhar como uma mão quando analisarmos o conceito de sequência de fases de Hebb mais abaixo. O que fica claro aqui é que o paciente não possui conceitos exatos bem desenvolvidos para aplicar na percepção visual e ainda precisa agir como um cego. ↩︎

  2. É o que é exposto com respeito à Virgil, quando ele abriu o olho pela primeira vez na frente de seu cirurgião: “There was light, there was movement, there was color, all mixed up, all meaningless, a blur. Then out of the blur came a voice that said, ”Well?" Then, and only then, he said, did he finally realize that this chaos of light and shadow was a face – and, indeed the face of his surgeon”. (Sacks, 1995, pág. 114) ↩︎

  3. A descrição da sequência de fases se encaixa bem à descrição de um limbo que passa o recém-operado como diz Merleau-Ponty (2011): “O próprio fato de que a verdadeira visão se prepara no curso de uma fase de transição e por uma espécie de toque com os olhos não seria compreensível se não houvesse um campo tátil quase espacial em que as primeiras percepções visuais pudessem inserir-se.” pág. 301 Ou seja, o varrimento visual periférico das figuras que o recém-operado faz é muito parecido com o toque mas é feito com o olho e, na teoria de Hebb, isso compreende à formação de uma sequência de fases. ↩︎

  4. Para exemplificar o que ocorre aqui, imagine que alguém precise identificar o avião Embraer 195 no ar, nesse caso, pode ser que a percepção visual não seja suficiente e que talvez o barulho dos motores a jato mais agudos que o do Airbus A–320 o ajude na identificação. Então, o percebedor necessitará de um estímulo E1 visual, que iniciará um processo cognitivo no SNC que somente poderá emitir uma resposta na presença do estímulo auditivo E2 de onde ele emitirá como resposta o juízo “É um Embraer 195”. Podemos cogitar que mesmo acontece com o recém-operado: ele precisa de dois estímulos distintos para emitir um juízo a respeito de uma percepção: um tátil e um visual, mesmo que ainda estejam desconexos no processo de aprendizagem que ele esteja passando. ↩︎

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