Introdução à Estética
27 de Fevereiro de 2008 ⋅ Estética

Introdução histórica à estética

George Dickie
Universidade de Illinois, Chicago

Os problemas que fazem parte da estética são vários e parecem heterogéneos. Isto torna o estudo da bibliografia sobre a estética um assunto que levanta perplexidades. Um dos principais objectivos da primeira parte será delinear as vertentes históricas básicas ao longo das quais os problemas da estética evoluíram desde a Grécia antiga até meados do século XX. Tal esboço servirá para orientar o leitor e mostrar como vários problemas se encontram histórica e logicamente interligados. Sem tal guia, os problemas da estética parecem uma série de questões sem grande relação entre si.

As questões que fazem parte do campo da estética desenvolveram-se a partir de preocupações congénitas na história do pensamento: a teoria da beleza e a teoria da arte. Estas duas preocupações filosóficas foram pela primeira vez discutidas por Platão. Embora os filósofos tenham discordado acerca da teoria da arte (em resumo, discordaram sobre o modo como se deve definir a arte), continuaram até muito recentemente a debater a teoria da arte mais ou menos nos mesmos termos em que Platão o fez. A teoria da beleza, contudo, sofreu uma transformação drástica no século XVIII. Ao passo que os filósofos anteriores discutiram apenas a natureza da beleza, os pensadores do século XVIII começaram a interessar-se por conceitos adicionais: o sublime, o pitoresco, e por aí em diante. Esta nova actividade pode ser entendida quer como uma divisão da beleza nas suas partes constituintes quer como um modo de complementar a beleza com conceitos adicionais.

Ao mesmo tempo que a beleza sofria esta transformação, ocorria um desenvolvimento relacionado com este — o conceito do gosto estava a ser trabalhado no pensamento de filósofos como Shaftesbury, Hutcheson, Burke, Alison e Kant. Em geral, estes filósofos procuravam desenvolver uma teoria do gosto que lhes permitisse fazer uma análise adequada da experiência da beleza, do sublime, do pitoresco e de outros fenómenos relacionados, tal como ocorrem na natureza e na arte. A noção de desinteresse constitui o centro destas análises e é o núcleo do conceito de gosto em tais filósofos. Depois do século XVIII, a teorização sobre o gosto foi substituída pela teorização sobre o estético. A palavra "beleza" passou então a ser usada como sinónima de "ter valor estético" ou como um dos muitos adjectivos estéticos ao mesmo nível de "sublime" e "pitoresco", que são usados para descrever a arte e a natureza. Do final do século XVIII a meados do século XX, as preocupações congénitas dos estetas têm sido a teoria do estético e a teoria da arte.

Pode parecer que a teoria do estético se tornou a preocupação dominante dos estetas e que a teoria da arte e a questão das qualidades estéticas são simplesmente subsumidas nessa teoria. O conceito de arte está seguramente relacionado em aspectos importantes com o conceito do estético, mas o estético não pode absorver completamente o conceito de arte.

As discussões que faço da beleza, das teorias setecentistas da arte e da filosofia da arte são, na sua maior parte, desenvolvidas examinando e esboçando as teorias de figuras históricas. Isto permite ao leitor ter uma ideia sobre as teorias da arte de, por exemplo, Platão, Aristóteles, Shaftesbury, Kant e, ao mesmo tempo, ter noção de como os problemas e teorias da estética evoluíram ao longo da história.

O tema da estética do século XX será aqui apresentado e dividido em três áreas: 1) a filosofia do estético, que no século XIX substituiu a filosofia da beleza, 2) a filosofia da arte e 3) a filosofia da crítica ou a metacrítica. Esta terceira vertente da estética foi produzida pelos desenvolvimentos na filosofia e no pensamento dos críticos de arte (na sua maior parte críticos de literatura) do século XX. A filosofia da crítica ou metacrítica é concebida como uma actividade filosófica que analisa e clarifica os conceitos básicos que os críticos da arte usam quando descrevem, interpretam ou avaliam obras de arte em particular. O desenvolvimento na filosofia que conduziu à metacrítica na estética foi a influência generalizada da filosofia analítica linguística, a qual concebe a filosofia como uma actividade de segunda ordem, que toma como seu objecto a linguagem de qualquer actividade de primeira ordem. O desenvolvimento relevante na crítica da arte que conduziu à metacrítica foi a ênfase renovada que críticos como I. A. Richards e a escola de críticos conhecida como Nova Crítica1 deram à importância de se fazer incidir a atenção crítica nas próprias obras em vez de na biografia do artista e em coisas semelhantes. O surgimento da Nova Crítica foi importante para o desenvolvimento da metacrítica porque os conceitos usados pelos Novos Críticos na descrição, interpretação e avaliação das obras de arte foram adoptados pelos metacríticos (os filósofos) como seu objecto de estudo. Exemplos de conceitos que um crítico de arte poderia usar são a representação ("A pintura é uma representação da ponte de Londres"), a intenção do artista ("O poema é bom porque o poeta foi bem sucedido ao cumprir a sua intenção") ou a forma ("Esta peça musical tem a forma de sonata").

Os representantes da teoria do estético no século XX são os filósofos que usam e defendem uma noção a que chamam "a atitude estética". Tais filósofos afirmam a existência de uma atitude estética identificável e que qualquer objecto, artificial ou natural, relativamente ao qual uma pessoa adopte a atitude estética pode tornar-se um objecto estético. Um objecto estético é o foco ou a causa da experiência estética e portanto será também o objecto apropriado da atenção, da apreciação e da crítica. Nada há na metacrítica, isto é, na análise dos conceitos usados pela crítica, que esteja efectivamente em contradição com a teoria da atitude estética. Na verdade, Jerome Stolnitz, que tem sido um dos mais proeminentes teorizadores da atitude estética, concebe a estética e apresenta-a no seu livro2 como a junção da teoria da atitude estética com a metacrítica. Contudo, Monroe Beardsley, que foi o defensor mais proeminente da metacrítica, desenvolveu toda a sua teoria sem recorrer à noção de atitude estética.3 Outros argumentaram explicitamente que a noção de atitude estética é indefensável.4 Examinarei detalhadamente a teoria da atitude estética no Capítulo 3.

Como foi mencionado, irei apresentar a estética do século XX dividindo-a em três áreas: a filosofia do estético, a filosofia da arte e a filosofia da crítica. A arte e os seus conceitos subsidiários, contudo, são conceitos que os críticos usam e por essa razão pode pensar-se que são simplesmente conceitos da crítica e que a filosofia da arte é subsumível na filosofia da crítica. Mas os filósofos têm manifestado um interesse directo pelo conceito de arte desde o tempo de Platão, muito antes de ter surgido a ideia da filosofia da crítica. Se este argumento não for convincente, a independência da filosofia da crítica e da filosofia da arte é demonstrada pelo facto de alguns dos aspectos essenciais das obras de arte não serem coisas do tipo que a crítica possa abordar. Este assunto será discutido em capítulos posteriores.

Recebi uma grande ajuda na compreensão de todas as fases da história da estética a partir da obra Aesthetics from Classical Greece to the Present, de Monroe Beardsley.5 A minha discussão do desenvolvimento da teoria estética na filosofia britânica do século XVIII apoia-se substancialmente numa série de estudos incisivos de Jerome Stolnitz: "On the Significance of Lord Shaftesbury in Mordern Aesthetic Theory",6 "Beauty: Some Stages in the History of an Idea",7 e "On the Origins of "Aesthetic Disinterestedness"".8 A obra The Beautiful, The Sublime, and the Picturesque in Eighteenth-Century British Aesthetic Theory, de W. J. Hipple9, ajudou-me em muitos aspectos. Nos anos que decorreram desde a publicação da primeira versão deste livro, trabalhei de tempos a tempos sobre as teorias setecentistas do gosto; esse trabalho acabou por resultar no meu livro, The Century of Taste: The Philosophical Odyssey of Taste in the Eighteenth Century.10

George Dickie

Notas

  1. Ver I.A. Richards, Practical Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1929), The Philosophy of Rhetoric (Nova Iorque: Oxford University Press, 1965), Principles of Literary Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1950), pp. 298fl.; William Empson, Seven Types of Ambiguity (Nova Iorque: Meridian Books, 1955): Cleanth Books, The Well Wrought Urn (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1947); e Rene Welleck e Austin Warren, The Theory of Literature (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1949).
  2. Jerome Stolniz, Aesthetics and the Philosophy of Art Criticism (Boston: Houghton Mifflin, 1960).
  3. Monroe Beardsley, Aesthetics: Problems in the Philosophy of Criticism (Nova Iorque: Harcourt Brace, 1958).
  4. Ver Joseph Margolis, "Aesthetic Perception", The Journal of Aesthetics and Art Criticism (1960), pp. 209-13, reimpresso in Margolis, The Language of Art and Art Criticism (Detroit, Wayne State University Press, 1965), pp. 23-33; e George Dickie, "The Myth of the Aesthetic Attitude", American Philosophical Quarterly (1964), pp. 56-65, reimpresso in Joseph Hospers, org., Introductory Readings in Aesthetics (Nova Iorque: Free Press, 1969), pp. 28-44.
  5. Monroe Beardsley, Aesthetics from Classical Greece to the Present (Nova Iorque: Macmillan, 1966).
  6. Jerome Stolnitz, "On the Significance of Lord Shaftesbury in Modern Aesthetics Theory", The Philosophical Quarterly (1961), pp. 97.
  7. Stolnitz, "Beauty: Some Stages in the History of an Idea", Journal of the History of Ideas (1961), pp. 185-204.
  8. Stolnitz, "On the Origins of "Aesthetic Desinterestedness"", The Journal of Aesthetics and Art Criticism (1961), pp. 131-143.
  9. Walter J. Hipple, Jr., The Beautiful, the Sublime, and the Picturesque in Eighteenth-Century British Aesthetic Theory (Carbondale: Southern Illinois University Press, 1957).
  10. George Dickie, The Century of Taste: The Philosophical Odissey of Taste in the Eighteenth Century (Nova Iorque: Oxford University Press, 1966). Ver também o meu "Taste and Attitude: The Origin of the Aesthetic", Theoria (1973), pp. 153-170; Capítulo 2 de Art and the Aesthetic, (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1974), pp. 53-77; "Hume's Way: The Path Not Taken", in The Reasons of Art (1985), (org.) Peter J. McCormick, (Ottowa: University of Ottowa Press), pp. 309-314; e "Kant, Mothersill, and the Principles of Taste", The Journal of Aesthetics and Art Criticism (1989), pp. 375-376.
Tradução de Vítor Guerreiro
Retirado de Introdução à Estética, de George Dickie (Bizâncio, 2008)
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