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Crítica
10 de Novembro de 2014   Filosofia

Entrar na casa da filosofia

Carlos Pires
Janelas para a Filosofia
de Aires Almeida e Desidério Murcho
Lisboa: Gradiva, Novembro de 2014, 311 pp.

Como deve a riqueza ser distribuída para que haja justiça social? Imagine dois romancistas: um vende muitos livros e por isso tem muito dinheiro e o outro vende pouco e por isso vive com dificuldades. Os filhos do romancista rico frequentam uma excelente escola privada, inacessível aos filhos do romancista pobre. Terá o romancista rico a obrigação de pagar a educação dos filhos do romancista pobre? Ou seja: deverá o estado cobrar ao romancista rico e aos outros ricos impostos suficientemente elevados para financiar escolas públicas de qualidade? O filósofo libertário Robert Nozick achava isso injusto: comparava os impostos ao trabalho forçado e considerava-os uma violação dos direitos à liberdade e à propriedade legitimamente adquirida. John Rawls, que defendia um liberalismo igualitário, pelo contrário, considerava justo cobrar tais impostos, pois isso permitiria redistribuir a riqueza, ajudar os mais pobres e promover a igualdade de oportunidades. Quem tem razão?

Este é um dos problemas filosóficos discutidos no livro Janelas Para a Filosofia, de Aires Almeida e Desidério Murcho. Na introdução e nos seus nove capítulos o livro apresenta os problemas centrais de várias disciplinas filosóficas: ética, filosofia política, filosofia da arte, filosofia da religião, filosofia do conhecimento, filosofia da ciência, lógica e metafísica. Por exemplo: os valores são relativos ou objetivos? Haverá casos em que violar deliberadamente a lei é moralmente aceitável? O que é a arte? A existência de um Deus bom e omnipotente será compatível com a existência de mal no mundo? O que é conhecer? Como se podem diferenciar teorias científicas e teorias não-científicas? A vida tem sentido ou é absurda?

Janelas Para a Filosofia inspira-se em duas obras anteriores dos autores: os manuais 50 Lições de Filosofia destinados ao 10.º e 11.º anos do ensino secundário. Apesar de alguns acrescentos os temas são os mesmos e o texto de muitas explicações é semelhante, embora existam também diversos aspetos que são mais aprofundados. A organização dos temas e a linguagem foram adaptadas para um público não-escolar, mas, como reconhecem os autores no prefácio, este livro “vai buscar a sua espinha dorsal” a 50 Lições de Filosofia.

Tal como sucede com esses manuais, Janelas Para a Filosofia está escrito de uma maneira clara e simples e pode ser compreendido por leitores que pouco ou nada saibam de filosofia. Está escrito de maneira simples mas não simplista, conseguindo um notável equilíbrio entre o rigor conceptual e a simplicidade requerida por uma obra destinada a leitores não-especialistas. A filosofia é por vezes associada a um discurso obscuro e vago em que não se percebe muito bem o que cada frase quer dizer, não conseguindo o leitor ou o ouvinte perceber se concorda ou discorda. Infelizmente, foi esse discurso que muitas pessoas ouviram nas suas aulas de Filosofia. Contudo, não é esse o género de filosofia que Aires Almeida e Desidério Murcho praticam: aquilo que escrevem exprime literalmente e sem vagueza as ideias em causa, pelo que os leitores poderão discuti-las e concordar ou discordar delas.

E esse é mesmo o seu objetivo confesso: querem divulgar a filosofia e apresentar os seus problemas ao leitor comum de uma maneira crítica e não dogmática, querem que o leitor pense acerca dos problemas filosóficos e tente formar opiniões informadas acerca deles — querem, em suma, fazê-lo filosofar.

“Procurámos abrir caminhos de reflexão e dar instrumentos de autonomia intelectual. […] Esperamos que as janelas abertas tenham permitido ficar com uma ideia razoavelmente precisa da natureza e da importância da filosofia. E que, além disso, tenham estimulado o leitor a participar […] na discussão filosófica”. (pp. 12 e 300)

Para interpelar os leitores desse modo é necessário apresentar a filosofia como uma discussão crítica e racional e não como um museu de filósofos que é preciso venerar e de teorias que é preciso repetir. Os problemas filosóficos são problemas em aberto: os especialistas não estão de acordo acerca das soluções (muitas vezes não estão sequer de acordo acerca da formulação dos problemas). Por isso, é necessário comparar as diferentes teorias e avaliar tanto os argumentos que existem a seu favor como as objeções que suscitam, para que o leitor possa descobrir por si próprio quem tem razão e qual é a teoria mais plausível. É precisamente esse o método seguido nestas Janelas Para a Filosofia, que, por isso, convidam o leitor não só a espreitar como a entrar na casa da filosofia.

Carlos Pires
Sábado (19 de Fevereiro de 2015).
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ISSN 1749-8457