Dicionário de Filosofia
10 de Fevereiro de 2012 ⋅ História da filosofia

John Stuart Mill (1806–1873)

Alan Ryan
Universidade de Oxford

John Stuart Mill nasceu em Londres em 1806, filho de James Mill, e foi filósofo, economista e alto funcionário da Companhia das Índias Orientais. Em Autobiography (1873) (Autobiografia 2007), que escreveu nos seus últimos anos, Mill apresentou uma descrição vívida e comovente da sua vida, em especial da sua extraordinária educação. Teve uma carreira activa como administrador da Companhia das Índias Ocidentais, da qual se aposentou apenas quando as funções administrativas da Companhia foram assumidas pelo governo britânico, na sequência do Motim de 1857. Além disso, foi deputado liberal por Westminster entre 1865 e 1868, e em jovem, na década de 1830, dirigiu a London and Westminster Review, uma revista trimestral radical. Morreu em Aix-en-Provence em 1873.

Foi educado pelo pai, com o conselho e ajuda de Jeremy Bentham e Francis Place. Aprendeu grego aos três anos, latim um pouco depois; com doze anos era um lógico competente e aos dezasseis um economista bem formado. Aos vinte teve um esgotamento nervoso que o persuadiu de que algo mais era preciso na vida do que a dedicação ao bem público e um intelecto analiticamente penetrante. Tendo crescido como utilitarista, voltou-se então para Coleridge, Wordsworth e Goethe para cultivar a sua sensibilidade estética. De 1830 até morrer, tentou persuadir o público britânico da necessidade de uma abordagem científica para compreender a mudança social, política e económica, ainda que sem negligenciar as argúcias dos poetas e de outros autores imaginativos.

A System of Logic (1843) (excertos em A Lógica das Ciências Morais 1999) era uma tentativa ambiciosa de apresentar uma explicação não apenas da lógica, como o título sugere, mas também dos métodos da ciência e da sua aplicabilidade quer aos fenómenos sociais, quer os fenómenos puramente naturais. A sua concepção da lógica não era inteiramente a dos lógicos modernos; além da lógica formal, a que chamava “lógica da consistência”, pensava que havia uma lógica da prova, isto é, uma lógica que mostraria como os indícios provavam ou tendiam a provar as conclusões que retiramos deles. Isto levou-o a analisar a causalidade, e a dar uma explicação do raciocínio indutivo que continua a ser o ponto de partida da maior parte das discussões modernas. Em termos gerais, a sua concepção da explicação na ciência era que esta procura as causas dos acontecimentos quando estamos interessados neles; ou procura leis mais gerais quando queremos explicar leis menos gerais como casos especiais das primeiras. A sua discussão da possibilidade de encontrar uma explicação científica de acontecimentos sociais é também ainda hoje relevante; Mill tinha tão pouca vontade de supor que as ciências sociais se tornariam omniscientes quanto ao comportamento humano, como de supor que não haveria maneira de explicar as questões sociais a um nível mais profundo do que o do senso comum. Em todo A System of Logic, atacou a filosofia “intuicionista” de William Whewell e de Sir William Hamilton, que consistia na ideia de que as explicações se baseavam em princípios intuitivamente irresistíveis e não em leis gerais causais, e que em última análise a procura desses princípios intuitivamente irresistíveis dependia de compreender o universo como criação divina, regida por princípios que uma divindade racional teria de escolher. Mill pensava que o intuicionismo era má filosofia, muito cómoda também para o conservadorismo político. An Examination of Sir William Hamilton’s Philosophy (1865) levou a guerra ao campo inimigo com intensidade; provocou uma controvérsia vigorosa durante aproximadamente vinte anos, mas é hoje a sua obra menos interessante.

Para o grande público, era mais conhecido como autor de The Principles of Political Economy (1848), obra que tentava mostrar que a economia não era a “ciência deprimente” que os seus críticos radicais e literários supunham. O interesse filosófico desta obra resulta das suas reflexões sobre a diferença entre o que a economia mede e o que os seres humanos realmente valorizam, levando-o a argumentar que devemos sacrificar o crescimento económico em nome do meio ambiente, e que devemos limitar a população, tanto para nos deixar espaço vital como para afastar o risco de fome entre os pobres já sobrecarregados. Considerava também que a análise económica convencional não poderia mostrar que o socialismo não era exequível, e sugeriu como ideal uma economia de cooperativas que seriam propriedade dos trabalhadores. Os comentadores têm discutido de forma inconclusiva se isto é uma forma de socialismo ou apenas um “capitalismo de trabalhadores”.

É na área da filosofia moral e política, contudo, que Mill está mais perto de ser nosso contemporâneo. Utilitarianism (1861) (Utilitarismo 2005) continua a ser a defesa clássica de que devemos visar a maximização do bem-estar de todas as criaturas sencientes, e que esse bem-estar consiste na sua felicidade. A defesa de Mill da ideia de que devemos procurar a felicidade porque de facto a procuramos tem sido objecto de violentos ataques de, entre outros, F. H. Bradley, Ethical Studies (1874) e G. E. Moore, Principia Ethica (1903) (trad. 1999). Mas outros filósofos argumentaram que, neste ponto particular, Mill foi deturpado pelos críticos. A sua insistência de que a felicidade deveria ser avaliada não apenas pela quantidade mas também pela qualidade — a doutrina de que um Sócrates insatisfeito é não apenas melhor do que um tolo satisfeito, mas de algum modo mais feliz também — levantou perplexidades a gerações de comentadores. E a sua tentativa de mostrar que a justiça pode ser explicada em termos utilitaristas é ainda importante como réplica a autores como John Rawls, A Theory of Justice (1971) (Uma Teoria da Justiça 2008).

Durante a sua vida, foi o ensaio On Liberty (1859) (Sobre a Liberdade 2006) que deu origem à maior controvérsia, e às mais violentas expressões de aprovação e desaprovação. O ensaio nasceu do sentimento que Mill e a sua esposa, Harriet Taylor, expressavam constantemente nas suas cartas: que viviam numa sociedade em que os indivíduos corajosos e aventurosos se estavam a tornar demasiado raros. Os críticos pensaram por vezes que Mill temia a possibilidade de uma democracia de massas na qual a opinião das classes trabalhadoras seria opressiva e talvez violenta. A verdade é que Mill temia muito mais um conformismo de classe média do que algo que viesse de uma classe trabalhadora poderosa. Tratava-se de um receio com que ficara aquando da sua leitura de De la démocratie en Amerique, 1835–1840, de Alexis de Tocqueville (A Democracia na América 2005); os EUA eram uma próspera sociedade de classe média, e Mill receava que fossem também uma sociedade que não prezava a liberdade individual.

Mill apresenta “um princípio muito simples” para reger o uso da coerção na sociedade — e por coerção Mill quer dizer não apenas as sanções legais mas também a influência da opinião pública. Trata-se do princípio de que só podemos exercer coerção sobre alguém em autodefesa — quer para nos defendermos, quer para defender terceiros de qualquer dano. O crucial deste princípio é excluir intervenções paternalistas para salvar as pessoas de si próprias, e intervenções idealistas para fazer as pessoas comportar-se “melhor”. Tem sido desde há muito um desafio explicar como pode um utilitarista subscrever tal princípio de contenção; um utilitarista está obrigado a sustentar o princípio de que devemos exercer a coerção sobre os outros sempre que isso faz mais bem do que mal. Mill percebeu o problema, argumentando que era devido aos seres humanos serem criaturas “progressistas” que a própria utilidade exigia essa contenção. No fundo, argumenta que só adoptando o princípio da contenção podemos procurar a verdade, ter experiência da verdade como “nossa” e desenvolver completamente eus individuais.

Das suas obras de menor dimensão, há duas que merecem menção. The Subjection of Women (1869) (A Sujeição das Mulheres 2006) era considerada demasiado radical no tempo de Mill, mas é hoje vista como uma afirmação clássica do feminismo liberal. O argumento essencial é que se a liberdade é boa para os homens, também o é para as mulheres, e que todos os argumentos contra este ponto de vista que se baseiem numa suposta “natureza” diferente entre homens e mulheres são superstições tendenciosas. Se as mulheres têm uma natureza diferente, a única maneira de a descobrir é pela experiência, e isso exige que as mulheres tenham acesso a tudo o que os homens têm acesso. Só depois de tantos séculos de liberdade quantos séculos houve de opressão saberemos realmente o que são as nossas naturezas. Mill publicou The Subjection of Women tardiamente, para evitar controvérsias que enfraqueceriam o impacto das outras obras. Escolheu não publicar em vida Three Essays on Religion (1874). Nestes, argumenta, entre outras coisas, que não é impossível que o universo seja governado por um Deus omnipotente e benevolente, mas que não é improvável que uma força não completamente benigna opere no mundo. Desapontou assim os seus admiradores que esperavam um agnosticismo mais estrito e abrasivo, ao mesmo tempo que não agradou os críticos que deploravam o facto de ele ser como que um agnóstico. Mas constituem ainda hoje modelos de discussão calma de tópicos polémicos, de excelente leitura nos nossos dias.

Edição canónica: The Collected Works of John Stuart Mill (University of Toronto Press). Leitura: The Cambridge Companion to Mill 1998.

Alan Ryan

Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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