Lâmpada, de Alícia Solário
10 de Dezembro de 2011 ⋅ Opinião

Como não justificar a filosofia

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Uma confusão comum no que respeita à justificação da filosofia é que muitas vezes o que se visa, sem que a pessoa se aperceba disso, não é exactamente a justificação da filosofia.

É importante distinguir cinco ideias bastante diferentes: 1) a justificação fraca da actividade filosófica; 2) a justificação forte dessa actividade; 3) a justificação do ensino da filosofia; 4) a justificação do ensino obrigatório da filosofia; e 5) a justificação do financiamento da filosofia com o dinheiro dos contribuintes.

A justificação fraca da actividade filosófica é muito simples: há pessoas que gostam de fazer isso, e ninguém tem o direito de interferir, em condições comuns. Do mesmo modo, o que justifica a prática, tão comum, de ficar em casa a beber cerveja e a ver futebol, ou de ficar a ver telenovelas, é que as pessoas gostam de fazer isso e ninguém tem o direito de interferir, em condições comuns.

Evidentemente, esta é uma justificação muito fraca; podemos desejar saber se, para lá do mero gosto pessoal, tais práticas são recomendáveis à luz da nossa reflexão mais ponderada. Neste caso, a filosofia sai-se bastante melhor do que a maior parte das coisas a que tanta gente dedica tanta energia e tempo na sua vida (às vezes parece até que as pessoas são imortais, ou se julgam imortais, dado perderem tanto tempo com actividades que elas mesmas irão desprezar cinco anos depois). A filosofia sai-se bastante melhor do que muitas outras actividades precisamente por ser uma actividade tão estimulante e cognitivamente relevante; ajuda-nos a compreender melhor vários aspectos importantes da realidade que de outro modo não compreendemos, e é um desafio permanente às nossas capacidades cognitivas. Quem tem uma curiosidade intelectual profunda por certo tipo de problemas insusceptíveis de resposta científica, sente-se fascinado pela filosofia e dedica-se-lhe com gosto, fazendo do seu estudo a parte mais importante da sua vida. Quem o faz tem certamente o direito de o fazer e ninguém tem o direito de interferir, em condições comuns. Evidentemente, o mesmo se aplica a quem não o faz e despreza a filosofia, preferindo ficar a ver hóquei em patins na televisão.

Quando se procura justificar a filosofia publicamente, contudo, não é isto que pode estar em causa — pois é demasiado óbvio que quem quiser fazer filosofia tem o direito de o fazer, em condições comuns. O que está em causa é a justificação do ensino da filosofia. Mas também aqui, se não distinguirmos 3 de 4, a justificação é óbvia: se há quem quer ensinar filosofia e há quem quer aprender filosofia, ninguém tem o direito de interferir, em condições comuns. Nada há de tão especial para justificar porque a justificação parece óbvia, e é óbvia.

Os verdadeiros problemas da justificação da filosofia surgem em 4 e 5: não é óbvio que as pessoas devam pagar do seu bolso, através dos seus impostos, o ensino de algo que desprezam, nem que seja legítimo que os seus filhos sejam obrigados a estudar filosofia, quer queiram quer não, durante dois anos. Contudo, se olharmos para as coisas desapaixonadamente, não vemos uma diferença crucial entre tantas outras disciplinas obrigatórias nos planos de estudos das crianças e jovens e a filosofia. Na verdade, se compararmos a filosofia com muitas outras das chamadas “humanidades”, a filosofia tem um rigor, sofisticação e relevância cognitiva que muitas das outras não têm. E se estes aspectos contam para esta discussão, e devem certamente contar, então a justificação da filosofia não é particularmente difícil.

É certo que obrigar as pessoas a financiar algo que desprezam, por meio dos seus impostos, e obrigar os seus filhos a ter aulas de algo que consideram irrelevante, está longe de ser facilmente defensável. Mas se atacamos a filosofia devido a tal coisa, temos de atacar tantas outras disciplinas precisamente devido ao mesmo. E, neste caso, a solução óbvia, que hoje não é óbvia porque herdámos o dogma do ensino financiado publicamente, é a completa liberalização e privatização do ensino. Desse modo, cada escola ofereceria aos alunos currículos diferentes, e os pais escolheriam o que considerassem melhor, e financiariam as suas escolhas apenas. O ensino seria diversificado e a qualidade melhoraria quase inevitavelmente porque haveria competição entre escolas e professores para fazerem algo que os pais e as crianças e jovens valorizassem. Mas o sonho da completa liberalização e privatização do ensino demorará a ser alcançado — lembrando todavia que só a cegueira histórica faz as pessoas pensar que tal coisa é inalcançável, uma vez que até há muito pouco tempo todo o ensino era privado e nem por isso as pessoas deixavam de estudar. Pode ser verdade que um ensino publicamente financiado seja um passo necessário para cumprir o ideal iluminista de levar a educação a todos, mas certamente não era um ideal iluminista que tal ensino fosse dirigista, centralizado, igual para toda a gente e pensado de cima para baixo; e agora que atingimos o ideal de levar o ensino a todos, é tempo de repensar, sem preconceitos, o modo como financiamos e organizamos o ensino. Mas isto é outro tema; o que importa é que se aceitamos o financiamento público e a obrigatoriedade de tantas outras disciplinas, só um profundo desconhecimento das coisas pode fazer pensar que a filosofia é de algum modo cognitivamente deficitária face às outras áreas curriculares.

Curiosamente, a justificação da filosofia por parte de quem depende dela para viver não é isenta de hipocrisia. Fala-se por vezes como se sem a obrigatoriedade da filosofia no ensino secundário fosse o caos, a barbárie e a miséria; mas isto é falso, pois muitos dos mais desenvolvidos e civilizados países do mundo não têm filosofia como disciplina obrigatória no ensino secundário, e têm departamentos de filosofia bem menores, nas universidades. Ironicamente, alguns países que têm departamentos de filosofia de dimensão desproporcionalmente grande, relativamente a outros, têm uma produção filosófica irrelevante e incomparável com as dos países que têm departamentos de filosofia mais magros e esparsos. De modo que uma parte importante das defesas mais histéricas da filosofia, por parte dos profissionais da área, os professores de filosofia, é apenas a defesa encapotada do seu interesse em ganhar bem e sair cedo, sem nada devolver de valor aos contribuintes que lhes financiam a vida folgada.

A hipocrisia talvez resulte da genuína perplexidade quanto ao real valor da filosofia. Afinal, a esmagadora maioria dos professores de filosofia não parece ter realmente escolhido a sua profissão; o indício favorável a esta asserção é que fazem exactamente o mínimo que for possível fazer sem serem despedidos: não se interessam por livros nem revistas da sua área, dedicam muito mais tempo a actividades paralelas do que à filosofia ou ao seu ensino, e entusiasmam-se muito mais a falar de qualquer inanidade da vida contemporânea do que de filosofia.

E, no entanto, a justificação da relevância cognitiva da filosofia é ridiculamente simples — desde que se conheça razoavelmente a filosofia. Basta dar alguns exemplos e mostrar que em filosofia estudamos problemas reais e importantes, e que a única esperança de ter respostas amplamente consensuais para eles, como acontece nas ciências, é tentar ter respostas amplamente consensuais para eles, pelo que é uma boa ideia continuar a tentar. Além disso, compreendemos muito melhor um problema importante depois de o estudar e de estudar as diferentes tentativas de resolução, mesmo que não tenhamos chegado a resultados amplamente consensuais. O nosso alargamento cognitivo é justamente valorizado pelos seres humanos — pelo menos, por aqueles que não se renderam ainda completamente às inanidades televisivas — e a filosofia tem desempenhado um papel fundamental nesse mister. Esta é a justificação apropriada da filosofia.

Desidério Murcho
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