The Cambridge Companion to Logical Empiricism
2 de Fevereiro de 2012 ⋅ Filosofia da ciência

“Esse gênero de imagem quotidiana do positivismo lógico”

Thomas Kuhn e o declínio da filosofia da ciência do empirismo lógico
Alan Richardson
Tradução de Luiz Helvécio Marques Segundo

No século XXI ninguém é empirista lógico.1 É certo que há não poucos filósofos cujo trabalho se assemelha em aspectos relevantes ao trabalho dos empiristas lógicos e que, de fato, se tivesse sido feito na década de 1950, seria um trabalho empirista lógico. Mas ninguém apresenta tal trabalho sob a rubrica “empirismo lógico”. Na verdade, ninguém poderia tentar fazer tal coisa de maneira plausível — ser um empirista lógico não é realmente uma opção viva para um filósofo do século XXI.2

É uma questão de algum interesse histórico e filosófico pensar por que razão o empirismo lógico veio a perder o seu estatuto de projeto filosófico a adotar, e como tal aconteceu. Afinal, como este volume amplamente demonstrou, o empirismo lógico foi um projeto de ponta na filosofia analítica num passado não tão distante, e, de fato, o projeto preeminente em certos ramos da filosofia, como a filosofia da ciência. Algo de substancial tem de ter acontecido para tal projeto ter declinado tão consideravelmente em influência que mesmo o trabalho mais técnico em áreas como a teoria da confirmação ou a filosofia da física não possa hoje ser considerado um exemplo da filosofia da ciência do empirismo lógico.

A perspectiva comum

Se limitarmos a nossa perspectiva do empirismo lógico à filosofia da ciência, há uma história prontamente disponível do declínio e queda do empirismo lógico. O empirismo lógico foi o projeto de ponta na filosofia da ciência por todo o mundo anglófono, especialmente na América do Norte, do início da década de 1930 até ao final da década de 1950. Mas no final desta década, surgiram vários projetos alternativos na filosofia da ciência. Em 1959 a obra mais importante de Karl Popper na filosofia da ciência, Logik der Forschung, de 1935, foi finalmente traduzida para o inglês como The Logic of Scientific Discovery (Popper 1959). A despeito das afinidades de tópico e método entre Popper e os empiristas lógicos, Popper foi um crítico famoso e explícito de muitos aspectos do projeto empirista lógico, especialmente o indutivismo e o eliminativismo no que diz respeito a questões metafísicas. A filosofia de Popper ofereceu uma alternativa falsificacionista e realista ao empirismo lógico. Outras versões de realismo científico, como o realismo crítico de Wilfrid Sellars (Sellars 1963), estavam também sendo desenvolvidas no final da década de 1950 e no início da de 60. Outros filósofos ofereceram alternativas não-empiristas na filosofia da ciência, como a filosofia da ciência “pós-crítica” desenvolvida na década de 1950 pelo químico que se tornou filósofo Michael Polanyi (Polanyi 1958). Esta abordagem do conhecimento científico dava ênfase ao conhecimento tácito codificado nos detalhes da prática científica e ao compromisso do cientista com a verdade das afirmações científicas — aspectos da ciência que Polanyi explicava de maneira quase-fenomenológica. Este interesse na prática encontrava-se também no trabalho de 1950 de Russell Hanson, cujo Patterns of Discovery (Hanson 1958) pareceu tornar disponível, em bases psicológicas e wittgensteinianas, um interesse genuinamente filosófico na abordagem da descoberta científica. É claro que se considerou que isto entrava em conflito com as censuras dos empiristas lógicos à inclusão do “contexto de descoberta” na filosofia da ciência. Similarmente, na metade da década de 1960, os fundadores de uma nova “perspectiva semântica das teorias” argumentavam, com plena consciência do que faziam, contra uma abordagem das teorias científicas como sistemas formais de axiomas, associada ao empirismo lógico (Suppe 1972; 1977).

Todos estes desenvolvimentos colocaram o empirismo lógico, de maneira mais ou menos explícita, em causa. Todos pretendiam ir além do empirismo na doutrina ou no método. Todos desempenharam um papel na diminuição do domínio e, em última instância, na influência do empirismo lógico. Mas todos os filósofos e movimentos mencionados até agora perdem importância quando comparados com a filosofia histórica da ciência de Thomas Kuhn, apresentada na sua monografia de 1962 A Estrutura das Revoluções Científicas (Kuhn 1962 [1996]). De fato, foi o “papel dado à história” e o enquadramento naturalista e social de Kuhn para dar conta do desenvolvimento histórico da ciência que, mais do que qualquer outro fator, teve como resultado, de acordo com as histórias comuns e informais da filosofia da ciência, o declínio e a eventual derrocada do empirismo lógico.3

É fácil ver por que a obra de Kuhn foi tão eficaz em tornar o empirismo lógico problemático: a abordagem de Kuhn da ciência nos pede para tomar o desenvolvimento histórico efetivo da ciência como o explanandum primário de uma filosofia da ciência. Kuhn afirmou, além do mais, que a história, considerada desse modo, conduziria a uma “transformação decisiva da imagem da ciência de que somos reféns” (Kuhn 1962 [1996], 1). Essa imagem está conectada a algumas perspectivas amplamente associadas aos empiristas lógicos: a teorização científica é indutiva e cumulativa; o cientista individual contribui apenas com novas descobertas e novas teorias para abranger os dados disponíveis, e as teorias que são então testadas e justificadas por via de argumentos lógicos explícitos os ligam a resultados experimentais antecipados. A ciência é também isolada de outras formas de cultura: o cientista não precisa procurar conceitos fora da ciência na sua teorização; a ciência é autônoma e justifica-se a si mesma. Contra essas teses, Kuhn argumentou a favor de várias teses. Primeiro, a autonomia da ciência é evidente apenas em tempos de normalidade, quando os conceitos e as teorias científicas não estão em crise, e é autorizada mais pelas tradições implícitas da prática do que por regras rígidas de lógica científica. Além do mais, quando os paradigmas da ciência normal não estão ativamente sob disputa, as teorias não são testadas de fato contra os dados experimentais no sentido de que os desacordos poderiam levar à derrocada genuína das teorias. Os desacordos têm o estatuto de problemas a serem resolvidos — e resolvidos de acordo com os meios que o paradigma postula. Não é a teoria, mas o estatuo do praticante como um cientista competente que é testado. E, mais importante, Kuhn postula um desenvolvimento histórico da ciência pontuado por momentos de crises revolucionárias e durante as quais está aberto ao cientista procurar ajuda conceitual em qualquer campo. Assim, em tempos de revolução, as condições normais da racionalidade científica já não operam, e o envolvimento da ciência num amplo contexto social se torna importante para que a revolução seja levada a cabo.

Um exemplo poderia ajudar a clarificar o ponto. Um projeto na filosofia da ciência que, como o empirismo lógico, procura distinguir nitidamente entre ciência e metafísica e que quer especificar as relações lógicas precisas entre as teorias científicas propriamente ditas e a experiência, não teria de levar em conta, ao que parece, qualquer abordagem histórica do trabalho dos cientistas de ponta que os declare motivados por doutrinas metafísicas, e que use tais doutrinas para encontrar e justificar as suas afirmações teóricas. Contudo, ainda antes de Estrutura, já Kuhn oferecia freqüentemente uma abordagem desse tipo dos heróis da revolução científica. A sua abordagem de Johannes Kepler em The Copernican Revolution (Kuhn 1957, 209-19), por exemplo, compara as três leis do movimento planetário que são a contribuição duradoura de Kepler para a ciência da astronomia, a outras doutrinas keplerianas, como o modelo do universo baseado nos seis sólidos platônicos. Kuhn também argumenta que a derivação da segunda lei do movimento — a lei das áreas iguais — depende da sua abordagem da anima motrix do Sol como o agente causal do movimento dos planetas. Mais geralmente, Kuhn argumenta que todo o programa astronômico de Kepler se baseia numa fé metafísica nas harmonias matematicamente expressas na natureza; escreve Kuhn:

“A aplicação que Kepler fez da fé nas harmonias pode parecer ingênua, mas a própria fé não é essencialmente diferente da que motiva fragmentos da melhor pesquisa contemporânea. Certamente que a atitude científica demonstrada nas “leis” de Kepler que descartamos agora não é distinguível da atitude que o conduziu às três Leis que agora preservamos. Ambos os conjuntos, as “leis” e as Leis, surgem da mesma fé renovada na existência da harmonia matemática que teve um papel tão grande em levar Copérnico a romper com a tradição astronômica e se persuadir que a Terra estava de fato em movimento.” (Kuhn 1957, 219)

Aqui, Kuhn parece ilustrar a produtividade histórica da doutrina metafísica na pesquisa científica e afirmar que tal doutrina metafísica continua tendo um papel a desempenhar na pesquisa ainda hoje. Além do mais, quer negar que se possa dividir nitidamente o trabalho efetivo de Kepler nas partes cientificamente aceitáveis que conduzem às Leis que ainda aceitamos e as partes metafisicamente contaminadas que rejeitamos. As doutrinas metafísicas motivaram e deram forma a toda obra de Kepler; um Kepler metafisicamente purificado não teria alcançado os resultados científicos do Kepler histórico.

À luz de tais fatos sobre a abordagem de Kuhn da ciência, considerou-se desde muito cedo que a Estrutura tinha conseqüências importantes para a possibilidade de uma filosofia da ciência continuar o curso delineado pelo empirismo lógico. Já em 1963, Mary Hesse, numa resenha do livro de Kuhn para a revista de história da ciência Isis, afirmou o seguinte sobre a obra de Kuhn:

“Não se pode disputar que esta é a primeira tentativa, desde há muito tempo, de usar insights históricos para informar a abordagem da ciência feita pelos filósofos, e quaisquer que sejam os quebra-cabeças que falta resolver, Kuhn pelo menos delineou um novo paradigma epistemológico que promete resolver algumas das crises que atualmente perturbam as filosofias empiristas da ciência. As suas conseqüências serão de longo alcance.” (Hesse 1963, 287)

Dentre os menos favoráveis à obra de Kuhn, houve também a sugestão desde o início de que o principal alvo do seu livro era o positivismo lógico. A famosa resenha de Dudley Shapere do livro de Kuhn (Shapere 1964) sugere que isso é verdadeiro, e o torna bastante explícito num artigo subseqüente (Shapere 1966), que enquadra a discussão de Kuhn e Feyerabend sob a rubrica geral de “revolta contra o positivismo” (que é o título da primeira seção do artigo).

Em 1976, o empirismo lógico foi considerado uma coisa do passado, mesmo na organização profissional dos filósofos da ciência na América do Norte, a Philosophy of Science Association (PSA). Nos encontros da PSA de 1976, Lindley Darden deu uma conferência sobre a “herança” do positivismo lógico e falou sobre os empiristas lógicos como os “avós” daqueles que entraram na filosofia depois de 1968 (Darden 1976, p.1). Todo o seu artigo voltou-se para a questão de saber se houve algo de valor nos interesses dos empiristas lógicos na distinção entre teoria e observação, na distinção entre descoberta e justificação, e na unidade da ciência. Similarmente, na introdução da sua antologia sobre as revoluções científicas, Ian Hacking (1981) citou nove doutrinas que constituíam a “imagem da ciência” que Kuhn procurou rejeitar. Ao fazer notar cuidadosamente que nenhum filósofo da ciência adotara claramente todas as nove doutrinas, Hacking afirmou que a coleção formava “uma colagem não apenas da discussão filosófica técnica, mas também de uma concepção de ciência amplamente popular” (Hacking 1981, 2) e ilustrou a sua abordagem indicando quais das nove doutrinas eram mais centrais a Popper, Carnap e Hans Reichenbach. Essa perspectiva das relações de Kuhn com o empirismo lógico entrou substancialmente no inconsciente coletivo da comunidade de filósofos profissionais da ciência.

Dúvidas recentes acerca do entendimento comum de Kuhn e o empirismo lógico

O relato que repetimos até agora tem, nas suas linhas gerais, uma vigência ampla na comunidade dos filósofos da ciência. Nos anos recentes, no entanto, com o surgimento de uma bibliografia especializada substancial, reavaliando os projetos do empirismo lógico, levantaram-se dúvidas acerca da sua adequação para dar conta de alguns detalhes da recepção da obra de Kuhn em relação ao empirismo lógico. Um modo de se motivar essas novas dúvidas é fazer uma pergunta: Não podemos usar a distinção entre descoberta e justificação (contra a qual Kuhn certamente também argumentou) para explicar por que as doutrinas kuhnianas esboçadas não são objeções ancoradas em princípios ao empirismo lógico? Por exemplo, com o que teria um empirista lógico de discordar com respeito à abordagem de Kepler feita por Kuhn que discutimos acima? Faz parte da doutrina dos empiristas lógicos que qualquer cientista pode usar teorias não científicas no seu trabalho — Kepler, ao se preparar para descobrir as suas leis dos movimentos planetários, tem toda a liberdade. Tudo o que se pede é que a leis por ele enunciadas tenham conteúdo empírico, como certamente as três leis que continuamos a aceitar (como idealizações) têm. O mesmo acontece como o seu modelo do sistema solar com base nos sólidos platônicos, embora esse modelo tenha sido subseqüentemente falsificado precisamente devido ao seu conteúdo empírico. Similarmente, o próprio argumento de Kepler a favor da Segunda Lei poderia ter recorrido ao anima motrix do Sol, mas o que essa Lei diz pode ser retirado do enquadramento do qual Kepler a derivou. De fato, isto tem de ser assim para que a Lei possa persistir na nossa época, uma vez que as dinâmicas dos movimentos planetários do próprio Kepler foram rejeitadas por todas as teorias relevantes dos movimentos planetários subseqüentes, dos vórtices cartesianos à teoria da gravitação de Newton e à teoria geral da relatividade de Einstein. Que as generalizações empíricas são deriváveis de teorias falsas é uma verdade da lógica que nenhum filósofo da ciência empirista lógico desejaria rejeitar. E nem desejaria negar que alguém comprometido com uma teoria falsa poderia estar interessado, por razões teóricas, em áreas de estudo que produzem generalizações empíricas firmes e permanentes.

Na verdade, o ataque de que uma concepção positivista da ciência não poderia dar conta da atividade criativa do cientista era bem conhecida dos empiristas lógicos — tais argumentos remontam ao século XIX. Por exemplo, Phillip Frank, décadas antes de 1962, tinha respondido aos argumentos de Max Planck de que um cientista machiano não conseguiria usar o principio de economia de pensamento para gerar teorias científicas. Planck, de maneira interessante, citou nos seus argumentos cientistas como Copérnico, Kepler e Newton e atribuiu um papel positivo à “crença inabalável — repouse ela em bases artísticas ou religiosas — na realidade da sua imagem do mundo” (Planck, 1909, citado em Frank 1917/1949, 63). Planck, então, argumentou que o compromisso com a verdade de uma imagem metafísica de mundo era bastante produtiva para as boas teorias científicas e que se os cientistas tivessem se restringido às exigências positivistas, teriam produzido menos ciência boa. Frank argumentou que, sejam quais forem os fatos históricos sobre as figuras que Planck cita, nenhum positivista fenomenista machiano precisa ser menos teoricamente imaginativo. Ao citar o trabalho teórico de James Clerk Maxwell, por ele considerado um machiano, Frank escreve: “Não se pode dizer que tal adesão incapacitou de algum modo o vôo da sua imaginação; na verdade, foi completamente o oposto. A concepção da falta de valor relativo da teoria em comparação com o fenômeno dá à teorização de um investigador algo de especialmente livre e imaginativo” (1949, p. 63). Mesmo que estejamos convencidos pelos argumentos de Frank, o ponto diante de nós é que as perspectivas que têm uma semelhança de família com os aspectos das perspectivas de Kuhn já eram conhecidas pelos empiristas lógicos décadas antes de Kuhn entrar em cena — e os empiristas lógicos não pensavam que as suas perspectivas fossem substancialmente refutadas por aquelas alternativas.

Podemos aprofundar este tipo de preocupação com a abordagem comum lembrando que os empiristas lógicos, enquanto grupo, rejeitaram um indutivismo ingênuo que alega que uma teoria científica pode ser expressa em linguagens observacionais e derivada dos resultados observacionais. Dado que isto é assim, poderíamos nos perguntar se a metódica e cumulativista “imagem da ciência de que somos reféns” que Kuhn procura abolir pode ser afinal apropriadamente atribuída ao empirismo lógico. Reichenbach introduziu o “contexto de descoberta” exatamente para permitir um tipo de liberdade criativa na ciência para se teorizar de modos que vão além dos dados observacionais. O modo pelo qual a teorização vai além dos dados disponíveis foi um tema comum nas reflexões dos empiristas lógicos sobre a física revolucionária do próprio tempo deles. No caso de Reichenbach, essa liberdade criativa fez parte de um relato histórico que incluía a astronomia revolucionária de Copérnico e Kepler. Já em 1920 Reichenbach discutia as conquistas de Copérnico, Kepler e Newton nestes termos: “A coleção de fatos é o ponto de partida da investigação; mas não marca o seu fim. Apenas quando uma explicação vem como um raio de luz e funde idéias separadas no fogo da síntese cuidadosa, é nesse estágio que temos entendimento e que se satisfaz o espírito investigativo” (Reichenbach 1927/1942, 12-12).

A estes fatos sobre as perspectivas defendidas pelos empiristas lógicos podemos acrescentar certos fatos acerca das suas relações com Kuhn e o seu projeto. Primeiro, nenhum dos empiristas lógicos mais importantes escreveu resenhas do livro de Kuhn em que expressasse desacordo profundo com ele; isso contrasta de maneira importante com a reação de Popper e seus seguidores, que famosamente discutiram com Kuhn publicamente em 1965 (Lakatos e Musgrave 1970), assim como realistas como Shapere (1964). Além do mais, na década de 1950, as relações entre Kuhn e seus colegas historiadores da ciência de Harvard e os empiristas lógicos e seus alunos são exemplos de trocas de idéias e, às vezes, colaboração; certamente que os empiristas lógicos pareciam pensar que os novos historiadores que trabalhavam com James B. Conant estavam fornecendo uma abordagem da história da ciência que ilustrava os seus interesses filosóficos. O protegido de Philipp Frank, Gerald Holton, trabalhou com um protegido de Conant e colega de ensino de Kuhn, Duane Roller, na redação da história da física (Holton e Roller 1958) citada de modo muito aprovador no manual de Hempel sobre o empirismo lógico The Philosophy of Natural Science (Hempel 1966). Neste livro, Hempel cita a obra de Conant ilustrando uma doutrina sobre a ciência que ele próprio adotara (Hempel 1966, 40): “Uma teoria em larga escala que foi bem-sucedida em muitas áreas normalmente será abandonada apenas quando uma teoria alternativa mais satisfatória estiver disponível — e as boas teorias são difíceis de alcançar.” Na nota dessa frase, depois de citar a obra de Conant como “ilustração” desse ponto, Hempel faz a sua única referência no livro à Estrutura de Kuhn, dizendo apenas que o livro de Kuhn fornece uma “concepção geral provocadora da ascensão e queda das teorias científicas” (Hempel 1966, 40). O próprio Kuhn (1964, 258-9) apresentou o seu trabalho sobre experimentos mentais como uma ilustração das observações feitas por Carnap e Hempel sobre a introdução de conceitos por via de frases redutivas.4

Considerações como esta começam a indicar que as relações entre o trabalho de Kuhn e os projetos do empirismo lógico são mais complicadas do que o relato comum admite. Além do mais, as complicações multiplicam-se. Em 1991, George Reisch (Reisch 1991) deu finalmente atenção filosófica séria a um fato curioso sobre o livro de Kuhn de 1962 — este apareceu originalmente como uma monografia na série Foudations of the Unity of Science. Essa série foi o projeto sucessor da International Encyclopedia of Unified Science de Otto Neurath, e ainda foi co-editada por Rudolf Carnap e Charles Morris. Assim, foram os próprios empiristas lógicos que trouxeram a Estrutura ao mundo. Como Reisch descobriu, Carnap escreveu cartas editoriais positivas a Kuhn, louvando o seu livro e encontrando pontos de contato entre as suas perspectivas e a de Kuhn. Na primeira carta, de 1960, Carnap parecia indicar que gostou precisamente da parte mais consideravelmente anticumulativa do aparato conceitual de Kuhn, o modo como os paradigmas produzem novos sistemas de conceitos. Como Carnap escreveu:

“Estou muito interessado nos problemas que você pretende tratar, muito embora o meu conhecimento da história da ciência seja bastante fragmentário. […] Dentre tantos outros itens, gostei de sua ênfase nos novos enquadramentos conceituais que são propostos nas revoluções da ciência e, com base neles, a colocação de novas questões e não apenas a resposta a velhos problemas.” (Reisch 1991, 266)

Uma série de autores, começando com Reisch, e incluindo John Earman (1993), Michael Friedman (1993; 1998; 2001; 2003), e Gurol Irzik (Irzik e Grunberg 1995; Irzik, 2002; 2003) argumentaram que Carnap não estava enganado ao encontrar similaridades importantes entre o seu trabalho e o de Kuhn.

Talvez o ponto de contato mais importante entre o trabalho de Carnap e Kuhn que foi sugerido nessa nova bibliografia seja uma similaridade estrutural nas suas posições epistemológicas, mais diligentemente explorada por Michael Friedman. O trabalho de Friedman sobre as origens do positivismo lógico tem revelado a importância para Carnap e Reichenbach, pelo menos, da noção do a priori relativizado ou variável (Friedman 1999; este volume). Esta noção foi primeiramente invocada no seu trabalho inicial sobre a metodologia da física e era algo como uma versão kantiana de convencionalismo. Na obra de Carnap, a idéia geral funcionava como um tipo de relatividade de enquadramento lingüístico do conhecimento científico: as frases analíticas que constituem uma linguagem bem formada servem para estipular os significados empíricos dos termos para essa linguagem. Juntamente com os princípios formais da lógica dedutiva e da teoria da confirmação, esses princípios primeiro induzem uma noção de conseqüência lógica e, depois, a confirmação e a infirmação à luz da experiência. Assim, aquilo que pode ser dito e conhecido na ciência é relativizado a um enquadramento lingüístico — um enquadramento constituído por frases analíticas. Essas frases analíticas são então as precondições a priori do conhecimento científico para essa linguagem; mas a multiplicidade das linguagens possíveis indica que o a priori não é entendido aqui como absolutamente necessário ou imutável. Na verdade, nas suas observações sobre o desenvolvimento da ciência, Carnap sugeriu que a mudança revolucionária na ciência ocorria exatamente quando havia uma mudança na linguagem subjacente da ciência. Uma vez que a passagem de um enquadramento lingüístico a outro não é uma mudança de força probabilística de um enquadramento, não há racionalidade regida por regras que possa explicá-la. Assim, o próprio Carnap sustentou que só se poderia usar considerações práticas para sugerir uma mudança de linguagem, e que uma mudança dessas não seria um tópico de epistemologia propriamente dito.

A conexão com Kuhn poderia agora ser evidente. Substitua nesse relato “enquadramento lingüístico” por “paradigma” e terá um sumário razoável das perspectivas de Kuhn na Estrutura. Os paradigmas, como os enquadramentos lingüísticos, constituem as condições do conhecimento científico — a produção de conhecimento científico ocorre sem problemas apenas quando um paradigma está disponível. Os paradigmas, além disso, regulam os padrões de prova, fazendo uma mudança de teoria racional num paradigma racionalmente inteligível. As revoluções científicas, no entanto, envolvem mudança de paradigma e, conseqüentemente, não pode assegurar qualquer noção de racionalidade no seio de um paradigma. Do ponto de vista da ciência normal, então, a mudança de paradigma na ciência revolucionária parece irracional. A revolução é então afetada pela “persuasão” ao invés dos padrões de prova disponíveis num paradigma científico.

Os paralelos aqui podem ser aprofundados. Como Friedman, Reisch, e especialmente Irzik e Grunberg fizeram notar, a controversa noção de Kuhn da incomensurabilidade de paradigmas encontra um paralelo em Carnap. A incapacidade de um enquadramento lingüístico para expressar precisamente o que pode ser expresso noutro é uma característica da metalógica de Carnap. De fato, este apoiara-se em tal incompletude de comunicação para explicar as características de debates como os que ocorrem entre os intuicionistas e os matemáticos clássicos quanto aos fundamentos da matemática. Uma vez que o enquadramento lógico do intuicionismo era mais fraco do que o dos matemáticos clássicos, fazia perfeito sentido no enquadramento intuicionista dizer que porções da matemática clássica eram destituídas de significado — nenhuma frase na linguagem intuicionista poderia captar o significado de alguns teoremas clássicos. Carnap, no entanto, abjurou de quaisquer conclusões absolutistas disso: havia outras linguagens nas quais todos os teoremas da matemática clássica poderiam ser de fato expressos. A escolha entre tais linguagens era determinada por aquilo que se pretendesse que a matemática fizesse para uma ciência.

Estas conexões entre o trabalho de Carnap e de Kuhn se tornaram crescentemente visíveis no início da década de 1990, quando Kuhn discute o seu trabalho em termos neokantianos. Este afirmou em seu discurso de 1990 na PSA que a sua posição era “um tipo de kantismo pós-darwinista”, o qual explicou como se segue: “Como as categorias kantianas, o léxico fornece as precondições da experiência possível. Mas as categorias lexicais, ao contrário das ancestrais kantianas, podem mudar e mudam, tanto com o tempo como com a passagem de uma comunidade para outra” (1990, 104). Mas o kantismo com categorias mutáveis foi, como já fizemos notar, o ponto de vista filosófico no qual Reichenbach e Carnap tiveram os seus primeiros contatos no início da década de 1920. Além do mais, como Friedman (2003) notara, diversos historiadores da ciência que Kuhn cita como influência no prefácio da Estrutura — dentre eles Alexander Koyré, Anneliese Maier, Hèlené Metzger, e Emile Meyerson — participaram ou foram influenciados pelos mesmos argumentos dos neokantianos que influenciaram Carnap e Reichenbach. Em seu artigo da enciclopédia sobre a história da ciência, Kuhn afirmou que a própria atitude histórica perante o trabalho técnico dos cientistas do passado estava presente na comunidade de historiadores da ciência dos filósofos, todos de tradições idealistas kantianas e hegelianas:

“Parcialmente, aprendeu-se com homens como [Friedrich] Lange e [Ernst] Cassirer, que trataram historicamente pessoas ou idéias que foram também importantes para o desenvolvimento científico (Metaphysical Foudations of Modern Science de [E. A.] Burtt e The Great Chain of Being de [A. O.] Lovejoy foram, nesse aspecto, especialmente influentes.) E parcialmente aprendeu-se com um pequeno grupo de epistemólogos neokantianos, particularmente [Leon] Brunschivicg e Meyerson, cuja procura de categorias do pensamento quase-absolutas nas idéias científicas mais antigas produziu brilhantes análises genéticas dos conceitos que a principal tradição na história da ciência compreendeu mal ou rejeitou.” (Kuhn, 1969, 108)

Lange e Cassirer foram os dois membros mais sensíveis à história da Escola de Marburg de neokantismo; Brunschwicg e Meyerson foram filósofos neokantianos de ponta no início do século XX na França; Burtt e Lovejoy foram praticantes de ponta da história intelectual idealista no início do século XX no mundo anglófono.

Estes fatos sugerem que há um pano de fundo intelectual partilhado do qual surgiram tanto o projeto histórico de Kuhn como o projeto formal do empirismo. Friedman (2003) tem argumentado persuasivamente que, na verdade, o histórico e o formal são dois modos de radicalizar os insights sobre as condições de objetividade que formava o locus do interesse epistemológico dos neokantianos e conduziu às suas maiores polêmicas internas. Poder-se-ia acrescentar que as relações entre o histórico e o formal — e as complicadas relações de ambos ao psicológico — foram também importantes para a tradição fenomenológica, especialmente depois da viragem transcendental de Husserl e mais tarde da sua viragem histórica.

Os nossos quebra-cabeças históricos, no entanto, parecem estar se multiplicando.5 Pois argumentou-se nos últimos parágrafos que há uma conexão profunda entre as preocupações do empirismo de Carnap e de Kuhn no que diz respeito às condições de possibilidade do conhecimento científico. Contudo, vimos também que se considerou quase sempre que Kuhn alterou consideravelmente a direção da filosofia da ciência ao rejeitar as características fundamentais do empirismo lógico. Isto é agora um genuíno quebra-cabeças histórico. O seu aspecto mais forte é este: por que o empirismo lógico teve uma reputação que estava em desacordo com alguns dos compromissos mais fundamentais de pelo menos um dos seus principais praticantes?6 Esta é uma questão histórica bastante ampla cujas respostas são difíceis de encontrar. Podemos abordar a questão fazendo uma pergunta histórica bastante direta: considerava Kuhn que estava a argumentar contra o empirismo lógico, na Estrutura? Se sim, contra o que pensava ele que estava argumentado?

A imagem da ciência de que somos reféns: o empirismo lógico?

O oponente de Kuhn na Estrutura é um pouco obscuro — é uma imagem da ciência, uma imagem que Kuhn não identifica cuidadosamente. Em primeiro lugar, a imagem da ciência como disciplina cumulativa é, para Kuhn, uma imagem que se encontra nos manuais de ciência. Além do mais, uma vez que a característica crucial dessa imagem é a que ciência é cumulativa, a preocupação principal que Kuhn tinha com essa imagem era historiográfica. Kuhn começa o livro discutindo as tarefas que tal imagem atribui aos historiadores da ciência e como a historia recente da ciência tinha revelado que essas eram tarefas desinteressantes e enganadoras para se atribuir a um historiador da ciência. Os empiristas lógicos notavelmente não eram autores de manuais de ciência — tais autores eram e são primariamente cientistas — e os empiristas lógicos poderiam ser perdoados por pensar que a imagem da ciência atacada no capítulo 1 da Estrutura não era principalmente da sua responsabilidade.

Não obstante, há sinais já no capitulo 1 da Estrutura de que Kuhn associava essa imagem da ciência ao empirismo lógico. Kuhn argumenta já na página 7 que “teoria científica e fato não são categoricamente separáveis, exceto talvez numa tradição singular de prática científica normal”. Torna-se claro, mais tarde, que Kuhn pensa que o empirismo lógico insiste numa linguagem observacional neutra a ser contrastada definitivamente com uma linguagem teórica (cf. Kuhn 1962 [1996], 125ff.). Assim, ele considera que a sua observação sobre as relações entre fato e teoria militam contra um entendimento empirista lógico da ciência. Similarmente, no final do capítulo 1, Kuhn afirma: “Pode até parecer que violei a distinção bastante influente entre “o contexto de descoberta” e “o contexto de justificação”” (Kuhn 1962 [1996], 8). Isto indica que estava ciente da distinção tal como era traçada no empirismo lógico, e que suspeitava que a sua própria perspectiva tinha de a violar.

Além do mais, há sinais adicionais de que Kuhn associou o empirismo lógico com a imagem da ciência que pretendia rejeitar. Assim, por exemplo, a sua abordagem da incomensurabilidade das tradições científicas normais que seguem paradigmas diferentes é encabeçada com uma objeção, que ele associa ao positivismo lógico, à sua alegação de que as revoluções são necessárias na ciência:

“A interpretação contemporânea mais predominante da natureza e função da teoria científica […], associada intimamente ao positivismo lógico e não categoricamente rejeitada pelos seus sucessores, restringiria o alcance e significado de uma teoria aceita de modo a não poder entrar em conflito com qualquer teoria posterior que fizesse previsões sobre alguns dos mesmos fenômenos naturais.” (Kuhn 1962 [1996], 98)

Não é absolutamente claro que perspectiva das teorias Kuhn pretendeu atribuir ao positivismo lógico nesta passagem. Sugiro, com base no seu longo exemplo com respeito à dinâmica newtoniana e einsteiniana, que a perspectiva é esta: Se uma teoria, T, faz previsões exatas sobre uma gama de fenômenos, então de qualquer teoria sucessora, T', de T, que preveja exatamente os mesmos fenômenos não se pode dizer que é semanticamente incompatível ou incomensurável com T. Isso porque têm de ter como conseqüências lógicas as mesmíssimas afirmações sobre os fenômenos, e, além do mais, usando o princípio de verificação, o significado das teorias científicas é dado pelas suas conseqüências lógicas que dizem respeito a fenômenos observáveis. As duas teorias poderiam ser inconsistentes se fornecessem diferentes previsões para alguma outra gama de fenômenos, mas não podem ter as características semânticas peculiares que as teorias em dois paradigmas distintos têm na abordagem de Kuhn. Assim, se as revoluções que envolvem incomensurabilidade ao longo da fronteira revolucionária são efetivas, então as teorias científicas não podem receber o seu significado por via das suas relações com as conseqüências observacionais que são preservadas.7

Já tivemos ocasião para duvidar se a leitura de Kuhn do empirismo lógico estava estritamente correta. A nossa pergunta agora é o que permite a Kuhn atribuir essas perspectivas ao empirismo lógico. O que entendia ele por empirismo lógico? Uma resposta a esta pergunta encontra-se numa entrevista dada em 1995. Eis uma passagem extraordinária dessa entrevista:

“Noto que deixei de lado, anteriormente, algo que deveria ser incluído, que é a questão de onde tirei a imagem da ciência contra a qual me rebelei na Estrutura das Revoluções Científicas. Este é um relato estranho e não completamente bom. Não é completamente bom no sentido de que percebi que fui razoavelmente irresponsável. Como disse, estava muito interessado, tinha um interesse genuíno pela filosofia na minha época de calouro, e não tive a oportunidade de o pôr em prática — pelo menos no início. Ocorreu que, depois de me graduar e ir para o Laboratório de Pesquisa de Rádio, o que continuou pela maior parte do tempo em que estive na Europa — já não tinha tarefas escolares e artigos para escrever — tinha um trabalho que basicamente era das nove às cinco, e repentinamente tinha tempo para ler. Comecei a ler aquilo que considerava filosofia da ciência — parecia a coisa natural para se ler. E li coisas como Knowledge of External World, de Bertrand Russell, e um bocado de outras obras quase populares, quase filosóficas; li algo de von Misses; e certamente li o Logic of Modern Physics, de Bridgman; li algo de Philipp Frank; li um pouco de Carnap, mas não o Carnap que mais tarde apontaram como tendo reais paralelos comigo. Você conhece esse artigo que recentemente apareceu. É um artigo muito bom. Já confessei, um tanto embaraçado, o fato de eu não conhecer [esse Carnap]. Por outro lado, é também verdadeiro que se eu o tivesse conhecido, se tivesse me embrenhado na bibliografia daquele nível, provavelmente nunca teria escrito a Estrutura. E a perspectiva que emerge na Estrutura não é a mesma que a de Carnap, mas é interessante que vindo de uma perspectiva parcialmente diferente […] Carnap, tendo se mantido na tradição, tenha sido conduzido a isso — eu já havia me rebelado e chegado a isso vindo de outra direção, e em qualquer caso éramos ainda diferentes. Mas era esse o estado de coisas no meu espírito naquele momento em que tive a experiência de ser chamado para lecionar no curso de Conant. E foi contra esse gênero de imagem quotidiana do positivismo lógico — nem mesmo por um momento pensei nela como empirismo lógico — que reagi quando examinei os meus primeiros exemplos da história.” (1995, 305-6)

Está Kuhn argumentando contra o empirismo lógico na Estrutura, segundo este relato? Bem, não está manifestamente argumentando contra uma compreensão sofisticada da obra da maturidade de Carnap, por exemplo. Está a argumentar contra uma imagem de algo que considera ser o empirismo lógico, algo que leu em livros quase-populares, algo que ele obteve de um emaranhado confuso de fontes incluindo o atomismo lógico de Russell e o operacionismo de Bridgman. Além do mais, a época em questão na citação é entre o seu recrutamento pelo exército em 1943 e 1947 ou 1948, quando Conant lhe pediu para lecionar no General Science Education Program. Presumivelmente, era uma imagem do empirismo lógico de que Kuhn não viu razão para duvidar ou investigar nos quinze anos seguintes até à publicação da Estrutura. Além do mais, é uma imagem do empirismo lógico que deve ter sido substancialmente similar à imagem nos espíritos de muitos dos seus leitores, que concordam que ele tinha mostrado a pobreza do empirismo lógico.

Este é um fato central para a nossa compreensão do declínio pós-kuhniano do empirismo lógico: da metade da década de 1940 em diante o empirismo lógico já tinha uma imagem que não se diferenciava de outros projetos analíticos, como o projeto do mundo externo de Russell, e nem era muito sofisticado. Em particular, não devemos esquecer que os empiristas lógicos, embora geralmente descritos como os mais profissionais de todos os filósofos e dentre os menos agradáveis de ler, escreveram um grande número de livros bastante populares, livros em que não diferenciavam cuidadosamente os seus próprios projetos dos outros projetos e em que, certamente, não poderiam ser acusados de sustentar as posições filosóficas mais sutis e minuciosas. Reichenbach, por exemplo, produziu várias popularizações a partir das décadas de 1920 e 1930, From Copernicus to Einstein (Reichenbach 1927/1942) e Atom and Cosmos (1930a/1932) até ao seu último livro, Rise of Scientific Philosophy (Reichenbach 1951a). Similarmente, Frank escreveu com freqüência para o público não especializado e o fez de maneira que misturava o empirismo lógico com uma diversidade de escolas filosóficas diferentes como o pragmatismo e o operacionismo. Qualquer abordagem propriamente dita da recepção da filosofia do empirismo lógico certamente tem de começar com uma abordagem das obras que foram mais amplamente lidas entre os especialistas, como Kuhn.

Considere-se por momentos o livro de Frank (1951) Relativity: A Richer Truth. Esse pequeno livro começou como a sua série de palestras nas conferências New York sobre ciência e religião na década de 1949. Lá, Frank apresenta o empirismo lógico como o programa filosófico para a compreensão da ciência que não põe em causa os valores (a preocupação mais importante quanto à ciência entre os religiosos) e que se baseia em insights de movimentos como o pragmatismo e operacionismo. De fato, um leitor do livro pode encontrar esses programas filosóficos e metodológicos nos próprios títulos dos capítulos. Além do mais, o livro de Frank recebeu resenhas proeminentes nas revistas de filosofia, onde foi severamente criticado. Frank era rotineiramente tratado de modo condescendente pelos seus críticos. Um jovem, Stephen Toulmin, pensou que o livro era ingênuo, escrevendo que “o seu subtítulo seria melhor se fosse: Empirismo Lógico para Crianças” (Toulmin 1951, 181), enquanto A. P. Ushenko usou a sua resenha para censurar todo o empirismo lógico: “Estou a incitar os alunos a lerem a primeira parte do livro […] pois a sua simplicidade e clareza de apresentação expõe a inadequação e confusão das afiliações filosóficas do autor, em que os escritos mais técnicos estão protegidos por uma camuflagem de notação simbólica ou pelo abuso pedante de detalhes” (Ushenko 1951, 587). Estas resenhas do livro de Frank sugerem que há algo de consideravelmente errado nas questões sobre o empirismo lógico, antes e depois de Kuhn, que tanto o relato comum como a nova bibliografia sobre o reexame do empirismo lógico tomaram por garantido: ambos os relatos presumem que o empirismo lógico era um compromisso quase universal dos filósofos da ciência na América do Norte nas décadas de 1940 e 1950, datando por isso o declínio do empirismo lógico na América do Norte após o trabalho de Kuhn. No entanto, está longe de ser óbvio em que sentido exatamente o empirismo lógico dominava a filosofia americana ou mesmo a filosofia da ciência americana nas décadas de 1940 e 1950. A resenha de Ushenko (1951, 587), por exemplo, anuncia um “declínio nesse país [os Estados Unidos] do empirismo lógico em 1951 — e essa foi a resenha sobre Frank oferecida à única revista importante de filosofia da ciência na América do Norte na época, a Philosophy of Science.8 Uma leitura liberal das resenhas do livro de Frank indica que não só o empirismo lógico não era aceite, como, às vezes, foi pelo menos objeto de profunda resistência e até ressentimento por parte dos filósofos nas décadas de 1940 e 1950. O relato de Kuhn de quão fácil foi adquirir uma imagem já feita do empirismo lógico na bibliografia popular e não se interessar por uma compreensão profunda dela nos quinze anos seguintes, mesmo depois de se tornar um proeminente historiador da ciência, sugere uma lição similar: o empirismo lógico era visto de fora de modo muito diferente de como era visto por dentro, e pelo menos alguns filósofos da ciência, tal quanto a maioria dos historiadores da ciência, se não todos, situavam-se perfeitamente fora do empirismo lógico.

Estas suspeitas podem ser confirmadas vendo as resenhas de Rise of Scientific Philosophy (1951a) de Reichenbach. Este volume foi também quase imediatamente sujeito a críticas contundentes e resenhas extraordinariamente negativas. Reichenbach foi atacado por todos os lados. Em Philosophy Review, Norman Malcom (1951) levantou a bandeira da linguagem comum, denunciando os pressupostos de Reichenbach (e.g. que a ciência é a forma de conhecimento mais bem-sucedida — Malcolm prefere o seu conhecimento de que o marmeleiro está florido ou que os seus cereais ficarão chochos sem uma pitada de sal) e as suas pretensões (especialmente a sua alegação de estar oferecendo uma filosofia científica; os seus métodos e os seus supostos resultados, de acordo com Malcolm, não são os da ciência). O hegeliano Errol Harris achou que Reichenbach merecia treze vivas e agradáveis paginas na Philosophical Quarterly, concluindo desagradavelmente: “as areias do deserto em que o rio do pensamento filosófico se molda são os abandonos áridos da autodenominada “filosofia científica”” (Harris 1951, 165). Mais relevante para o relato de Kuhn, I. Bernad Cohen, o seu colega de Harvard na época e o homem que tinha sido procurado para escrever a monografia de história da ciência na Encyclopedia e o recusou, repudiou de modo bastante áspero todo o projeto de Reichenbach. A seguinte citação serve para ilustrar o tom da resenha como um todo:

“Admite Reichenbach, muito generosamente: “não quero depreciar a história da filosofia; mas dever-se-ia sempre lembrar que é história, e não filosofia. Como toda a pesquisa histórica, deveria ser feita com métodos científicos e explicações psicológicas e sociológicas”. Uma vez que o arsenal do “filósofo científico” parece incluir muitos episódios da história da ciência, tenho de admitir um preconceito em favor de se ter os fatos corretos em primeiro lugar, e não posso ver como as explicações sociológicas e psicológicas e os métodos científicos tenham qualquer interesse se isso não for assim [...]. Parece uma desvantagem que uma obra que contém tanto sobre a história da ciência e dedicada a substituir o “erro” pela “verdade” acabe por tentar encontrar a verdade repetindo o erro.” (Cohen 1951, 328, 329)

Não pode haver dúvida de que Cohen encontrou razões para suspeitar da compreensão que os empiristas lógicos tinham da história da ciência no modo como esta surgia nos livros semipopulares como The Rise of Scientific Philosophy. Quanto à Philosophy of Science, nenhuma resenha de The Rise of Scientific Philosophy apareceu em suas páginas.9

Qualquer descrição rigorosa das relações de Kuhn com os empiristas lógicos tem de levar em conta a compreensão do empirismo lógico sustentada tanto por Kuhn como pelo seu público em 1962, assim como as maneiras como o empirismo lógico foi controverso dentro e fora da filosofia profissional por mais de uma década, depois de 1962. Assim, por exemplo, o meu esboço nas páginas iniciais deste capítulo precisaria ser expandido para considerar as importantes controvérsias sobre o empirismo lógico bem antes de 1958. A “perspectiva comum” do empirismo lógico por volta de 1962 é um tópico sobre o qual pouco trabalho tem sido feito. Isso não é surpreendente. Quase todo o trabalho na recente história do empirismo lógico tem sido feito por filósofos cujo principal interesse tem sido recuperar a compreensão que os empiristas lógicos tinham de si mesmos e para quem “a perspectiva comum” do empirismo lógico é um mito a ser explorado. Além do mais, não temos uma boa teoria da dinâmica da mudança na história da filosofia em geral — contudo, o declínio do empirismo lógico, devido, pelo menos em parte, à recepção dos trabalhos que o criticavam, incluindo o livro de Kuhn, é certamente um episódio para o qual precisaríamos ter uma abordagem dinâmica decente.

Como uma contribuição menor para uma futura bibliografia sobre este tópico, quero sugerir que o trabalho de Kuhn ajudou a tornar difundida e a estabilizar a própria imagem do empirismo lógico contra a qual ele mesmo procurou argumentar. É bom lembrar a declaração complexa e cuidadosa das suas relações com o empirismo lógico com que Kuhn termina o capítulo 1 da Estrutura. Ao falar das distinções entre descoberta e justificação e entre teoria e fato observável, Kuhn escreveu:

“Tendo-me formado intelectualmente de acordo com estas distinções e outras semelhantes, dificilmente poderia estar mais ciente da sua importância e força. Por muito tempo tomei-as como a natureza do conhecimento, e ainda suponho que, apropriadamente reformuladas, tenham algo de importante a nos dizer. Contudo, as minhas tentativas de aplicá-las, ainda que grosso modo, a situações reais em que o conhecimento é obtido, aceite, e assimilado, têm feito com que pareçam extraordinariamente problemáticas. Ao invés de serem distinções lógicas ou metodológicas elementares, parecem agora parte integral de um conjunto tradicional de respostas substanciais às próprias questões às quais se aplicam.” (1962 [1996], 9)

Esta perspectiva, em que tais distinções são vistas como respostas substanciais às questões sobre a possibilidade do conhecimento científico, abriu para Kuhn a possibilidade de haver respostas melhores que não empregassem precisamente estas distinções. Quais são, então, os indícios com base nos quais essa nova abordagem seria dada e com base nos quais seria ajuizada? Kuhn responde a isso diretamente: “Se têm de ter mais do que pura abstração como conteúdo, então esse conteúdo tem de ser descoberto observando-as com respeito aos dados que pretendem elucidar. Como poderia a história da ciência deixar de ser uma fonte de fenômenos com respeito aos quais podemos exigir com legitimidade que as teorias sobre o conhecimento se apliquem?” (Kuhn 1962 [1996], 9).

Apesar de estar aberto à dúvida se é apropriado conceber a relação entre a história da ciência e a filosofia da ciência como se fosse uma relação entre dados e teoria, há pouca dúvida de que foi a pergunta retórica de Kuhn que venceu. Após a obra de Kuhn e de alguns outros (Hanson, Feyerabend), tornou-se óbvio aos filósofos da ciência em atividade que os seus trabalhos tinham uma responsabilidade maior com a exatidão e esclarecimento científicos do que as abordagens da lógica da ciência do empirismo lógico. Assim, Kuhn ajudou a cristalizar na comunidade profissional de filósofos da ciência a própria imagem do empirismo lógico que procurou rejeitar: depois de Kuhn, tomou-se como garantido que o empirismo lógico era a-histórico, no sentido profundo de não fornecer qualquer esclarecimento acerca do processo histórico do desenvolvimento da ciência. É bastante claro que foi a orientação histórica da filosofia da ciência de Kuhn que Hesse viu já em 1963 como um novo “paradigma epistemológico”. Hacking apresentou essa perspectiva de maneira tipicamente franca na introdução da sua antologia de 1981 sobre as revoluções científicas:

“Talvez o contraste entre a imagem [da ciência na filosofia tradicional da ciência, incluindo o empirismo lógico] e a [imagem da ciência] de Kuhn não repouse tanto na colisão frontal sobre especificidades como numa concepção diferente da relação entre o conhecimento e o seu passado. A velha imagem era a-histórica e usava a história da ciência apenas para fornecer exemplos de pormenores lógicos. Kuhn [...] pensa que os conteúdos de uma ciência e os seus métodos de raciocínio e pesquisa estão integralmente conectados com o seu desenvolvimento histórico.” (Hacking, 1981, 3)

Hacking nota aqui tanto a natureza histórica do raciocínio científico quanto a irrelevância dos meros “pormenores lógicos” em Kuhn. Isso sugere que Kuhn não só foi bem-sucedido em desalojar os tópicos particulares associados no seu espírito e no dos seus leitores da década de 1960 ao positivismo lógico (uma lógica da indução ou da explicação atemporal e universal, digamos), como também foi bem-sucedido em mudar os métodos e instrumentos da filosofia da ciência. Os leitores do livro de Kuhn encontraram uma filosofia da ciência que usava instrumentos da história da ciência, das psicologias genéticas Gestalt e piagetiana, da filosofia wittgensteiniana, da sociologia do conhecimento e da ciência, da retórica, da história da arte, e de outras disciplinas para tentar explicar e fundamentar a visão da mudança epistêmica que está no seu centro. Em 1962, ninguém que lesse a Estrutura pensaria por um momento que um empirista lógico a tivesse escrito. A via que a filosofia da ciência de Kuhn abriu a outras disciplinas certamente explica em parte por que aquelas disciplinas foram receptivas a ela. Mas os filósofos também encontraram um novo conjunto de instrumentos, interesses e modos de pensar. Tudo isto é admitido por um daqueles autores que na década de 1990 veio a ver uma forte conexão entre as filosofias de Kuhn e Carnap, John Earman, que escreveu o seguinte na conclusão do artigo que argumenta a favor de tal conexão:

“Fui estudante distante de Carnap e estudante próximo de Kuhn. Mas os dois me pareciam tão diferentes em estilo e interesses que os coloquei em diferentes partes do firmamento filosófico. Só agora comecei a ver quão errada estava a minha perspectiva e o quanto a filosofia da ciência pode ser enriquecida ao considerar como as idéias desses dois gigantes interagem entre si.” (Earman 1993, 32)

Sem dúvida que há muito a ganhar refletindo nas relações entre as idéias de Kuhn e Carnap. A questão histórica da primeira recepção da obra de Kuhn e da sua relação com o declínio do empirismo lógico tem, no entanto, de dar mais atenção à primeira impressão de Earman de que os dois filósofos eram muito diferentes. Um dos termos do próprio Earman — “estilo” — parece especialmente importante: o modo de Kuhn tratar as questões bem kantianas que ele partilhava com Carnap era antes de tudo, histórico, psicológico e social. A sua filosofia da ciência era em método e estilo caracteristicamente diferente dos métodos e do estilo analítico enxuto que deram fama aos empiristas lógicos. Uma história propriamente dita da recepção da obra de Kuhn terá de investigar o grau de persuasão do seu estilo literário no mundo acadêmico da década de 1960.

A relação da filosofia da ciência com o seu passado

A pesquisa recente sobre o empirismo lógico tem argumentado contra a “imagem comum do empirismo lógico” que Kuhn tomou por certa, contra a qual argumentou e que ajudou a tornar canônica. É por essa razão que pesquisadores contemporâneos como Michael Friedman e Bas van Fraassen podem invocar o empirismo lógico e encontrar recursos nele exatamente quando se interessam pela dinâmica histórica da ciência. Na década de 1960, no entanto, o projeto do empirismo lógico não encontrou uma voz adequada para responder ao “papel para a história” de Kuhn. Este ensaio sugere que em parte isso é devido à impressão, entre os empiristas lógicos, de que a abordagem de Kuhn não os afetava consideravelmente — a imagem que tinham do empirismo lógico era técnica, e não comum — e em parte devido a uma perspectiva amplamente partilhada entre outros leitores de Kuhn de que a obra deste tinha a importância de ter mostrado a pobreza do empirismo lógico (como o entendiam), tanto em conteúdo como em método.

Além de sugerir que os filósofos devem dar mais atenção à recepção da sua própria obra e mostrar-se mais interessados em torná-la, se não popular, pelo menos entendível e persuasiva para uma audiência mais ampla, eu sugeriria dois pontos adicionais. Primeiro, o trabalho no reexame do empirismo lógico tem dado a este uma maior centralidade nas discussões persistentes em filosofia da ciência sobre o desagradável dilema pós-kuhniano: como dar conta da mudança conceitual séria na ciência sem sucumbir a uma versão desesperadora de relativismo. É aqui que as similaridades estruturais entre as abordagens de Kuhn e Carnap são genuinamente importantes — uma vez que eles ou aprofundam o problema ou sugerem que os recursos carnapianos poderiam de algum modo resolver os problemas kuhnianos. Segundo, para fazer eco de Earman num tom mais histórico, poderíamos ser igualmente auxiliados por uma nova bibliografia historicamente rica e intelectualmente responsável sobre o trabalho de Kuhn e outros filósofos da ciência da década de 1940 e 1950 que não eram empiristas lógicos. Uma compreensão mais detalhada dos panoramas filosóficos do passado recente pode revelar recursos para a resolução dos problemas filosóficos atuais.10

Alan Richardson
Extraído de Cambridge Campanion to Logical Empiricism, org. Alan Richardson e Thomas Uebel (Cambridge Unisversty Press, 2007), pp. 346-369.

Notas

  1. Tentei sintetizar neste ensaio coisas relevantes que aprendi com muitas pessoas. Os agradecimentos especiais têm de ir ao meu co-editor Thomas Uebel; ninguém mais do que ele sabe o trabalho que tivemos. Aprendi a ler com novos olhos graças à instrução de Steven Shapin e ao falecido Stephen Straker. O meu entusiasmo neste projeto foi reavivado graças ao encorajamento e aos comentários oferecidos pelos meus colegas no Círculo de Vancouver (também conhecido por Associação Stephen Straker): John Beatty, Keith Benson, Sylvia Barryman, Robert Brain, Adam Frank, Piers Hale, Brandon Konoval, Margaret Schabas, July Segal — e nossos distintos visitantes, Ernst Hamm, Alison Li, e, especialmente, Simon Schaffer.
  2. Mesmo um defensor firme do empirismo lógico com Wesley Salmon foi levado a circunscrever a sua defesa do empirismo lógico a expressões como “o espírito filosófico que animava os protagonistas do empirismo lógico” (Parrini e Salmon 2003, 8).
  3. A Structure foi um dos livros acadêmicos mais vendidos e citados na segunda metade do século XX; por isso, o esboço da filosofia de Kuhn é tão conhecido. Encontra-se algumas abordagens relativamente favoráveis à sua filosofia da ciência em, por exemplo, Nickles (2003), Sharrock e Read (2002), Bird (2000), Hoyningen-Huene, e Horwich (1993). Encontra-se abordagens desfavoráveis das perspectivas de Kuhn, contrastando-as não só com o empirismo lógico, mas também com um Karl Popper idiossincraticamente interpretado, em Fuller (2000, 2004); aviso: essas últimas têm de ser bastante temperadas para serem palatáveis! Hollinger (2003) e Uebel (2003b) fornecem o sal necessário para Fuller (2000).
  4. Uma visão paranóica das relações de Kuhn com Conant é oferecida em Fuller (2000). Ainda aguardamos uma versão imparcial e precisa dessa importante história.
  5. De modo interessante, tanto Reisch (1991) quanto Irzik e Grünberg (1995) terminam os seus artigos sobre Kuhn e Carnap admitindo que não forneceram um relato que explique o declínio do empirismo lógico nem o papel de Kuhn nesse declínio. O trabalho mais recente de Reisch (2005, este volume) oferece uma abordagem do declínio do empirismo lógico, embora trate indiretamente da questão do papel que Kuhn aí desempenhou.
  6. Não pretendo identificar o empirismo lógico com a filosofia de Carnap. O enigma é como as características motivadoras de várias versões do empirismo lógico (Carnap, Reichenbach, e Schlick, pelo menos) e as características persistentes da filosofia de Carnap poderiam ter sido tão difíceis de se entender naquela altura da história da filosofia da ciência. Isso é especialmente estranho no caso de Kuhn, cujo conhecimento de outras versões do empirismo lógico, digamos, a de Neurath, parecia ser quase inexistente.
  7. Duvido que qualquer empirista lógico tivesse usado o princípio de verificação na década de 1950 ou 60 — certamente que uma leitura mais atenta da bibliografia empirista lógica dos princípios de ligação, dos termos teóricos, e assim por diante, poderia ter convencido Kuhn de que os empiristas lógicos não sustentavam uma perspectiva que tornasse impossível a intraduzibilidade entre as linguagens da ciência que se sobrepõem quanto ao conteúdo empírico.
  8. Não sei quem teria concordado com Ushenko em 1951; o que quero dizer é que tais afirmações poderiam ter sido feitas surpresa nas páginas da principal revista de filosofia da ciência da América do Norte, um fato que vai contra qualquer alegação direta de que o empirismo lógico dominava a cena na filosofia da ciência na época.
  9. Reitero que este é um exercício em estudos de recepção: como foi o empirismo lógico entendido por aqueles que o leram em suas formas semipopulares? Que há um lugar para a história no empirismo lógico de Otto Neurath (veja-se, e.g. Uebel, 1991a), por exemplo, não está atualmente em questão, precisamente porque isso parece não ter sido notado de modo relevante por aqueles que forjaram a “perspectiva aceite” do empirismo lógico. Nos estudos da recepção da sua obra, o que os estudiosos de Neurath perguntam é como a sua obra desapareceu de vista.
  10. Não quero sugerir que tal trabalho ainda não apareceu. Para algumas explorações recentes do contexto americano na filosofia da ciência no período de pós-guerra, veja-se Reish (2005) e Howard (2003).

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