O Enigma de Aristóteles
21 de Agosto de 2006 ⋅ Livros

O verdadeiro enigma

Desidério Murcho
O Enigma de Aristóteles, de Margaret Doody
Tradução de Maria Luísa Santos
Parede: Saída de Emergência, 2006, 285 pp.

Para resolver o enigma deste livro talvez seja realmente necessário o génio de Aristóteles. Só que o verdadeiro enigma deste livro não é o que a autora descreve, mas antes a razão de ser da sua entusiástica recepção na imprensa cultural inglesa. O crítico do prestigiado Times, maravilhado, pergunta-se "Porque é que ninguém ainda tinha pensado em nada assim?" e o crítico do ainda mais prestigiado TLS declara que se trata de um romance "idílico, violento, nostálgico para os amantes da Grécia Antiga, divertido para os classicistas". Não sei se será divertido para os classicistas, mas é possível que este romance seja divertido para crianças de 12 anos; contudo, talvez não seja fácil encontrar muitos classicistas com essa idade.

O romance desenrola-se nas ruas de Atenas e arredores, e trata exclusivamente da investigação policial levada a cabo por um nobre ateniense, para "limpar" o nome do seu primo, acusado de homicídio voluntário. Aristóteles é apenas um engodo para nos fazer comprar o livro, desempenhando um papel secundário no romance. Pior, Aristóteles é retratado como um mestre-escola dos anos 50 do passado século, pois essa é obviamente a imagem que a autora guarda de um professor imponente. Absolutamente patético. A semelhança mais marcante entre este romance histórico e romances como Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, ou O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é o facto de estar escrito com substantivos, adjectivos, verbos e complementos. A semelhança não é animadora.

As personagens são ocas, o protagonista parece uma criança, o enigma policial é infantil, a descrição da vida ateniense praticamente não existe. Não há um único insight sobre o que seria viver em Atenas no tempo de Aristóteles, sobre as mentalidades da época, os seus costumes, o seu modo de ver o mundo. Qualquer pessoa ligeiramente analfabeta poderia escrever este romance desde que tivesse menos de 16 anos e pudesse consultar a Encarta durante cerca de 24 minutos. Este romance é para crianças e adolescentes não muito espertos. Devia vender-se na secção infanto-juvenil, ao lado do inefável Harry Potter. Que a autora seja professora de literatura na prestigiada Universidade de Notre Dame é outro mistério que talvez nem Aristóteles consiga esclarecer.

Que o romance se lê bem é verdade. Até porque podemos ao mesmo tempo planear mentalmente um artigo que há imenso tempo queríamos escrever e não temos tido tempo. Ideal para viagens longas de avião, quando o cérebro se desliga automaticamente, subsistindo apenas as suas funções mais básicas. Quando saímos do avião e o acabámos de ler, deitamo-lo fora tranquilamente, devolvendo o romance ao seu lugar natural.

Desidério Murcho
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