Caravaggio, de Gilles Lambert

O pintor maldito

Célia Teixeira
Caravaggio, de Gilles Lambert
Taschen, 2001, 96 pp.

Michelangelo Merisi (1571-1610), conhecido como Caravaggio, é um dos pintores mais importantes e geniais da história da pintura. Contudo, demorou três séculos para que isto fosse reconhecido. Caravagio teve uma vida desregrada, algo que de algum modo se reflecte na sua obra. Foi um boémio, um provocador, um renegado, e até mesmo um criminoso, o que em nada contribuiu para o retirar da obscuridade em que se manteve durante séculos. “O seu primeiro biógrafo, o pintor Giovanni Baglione, odiava-o, e não poupou a sua memória. A calúnia espalhou-se. Era acusado de plágio e de roubo”. Durante anos ficou conhecido como o pintor maldito, e muitas das suas pinturas chegaram mesmo a ser destruídas pelos seus rivais, num misto de ódio e inveja. Não que ele tivesse bom feitio, pois não o tinha, mas isso é completamente irrelevante para a qualidade dos seus trabalhos. Além de que, aparentemente, muito do seu mau feitio se devia à pressão que sofreu por parte de uma sociedade conservadora e caduca, uma sociedade que em que a liberdade intelectual e artística era proibida, quanto mais a genialidade. Como disse Roberto Longhi, “de Caravaggio, diz-se indiferentemente tenebroso ou luminista. Esquecemo-lo, mas sem ele não teria havido Ribera, Vermeer, La Tour, Rembrandt. E Delacroix, Courbet e Manet teriam pintado de outra forma.”

Apesar de não gostar de trabalhar temas religiosos, a extrema pobreza em que viveu obrigou-o a “vender-se”, aceitando encomendas para pintar tais temas. No seu primeiro quadro do género, escolheu algo peculiar, pouco conhecido e quase nunca representado: São Francisco em Êxtase. Caravaggio não era apenas um pintor hábil, era também muito rápido, pintava sem fazer esboços e em poucos dias quadros de uma complexidade e genialidade assombrosa. E quando se tratava de quadros religiosos, a velocidade do seu pincel tornava-se inversamente proporcional ao seu gosto pelo tema. Depressa se desembaraçava da maçada: “Pintará uma obra-prima que lhe abrirá as portas das grandes colecções romanas. E que, ao trazer-lhe a notoriedade e a estima dos poderosos, marca o fim do seu período de juventude.” Infelizmente essa notoriedade durou pouco tempo, e não se livrou do epíteto de pintor maldito. Mas de facto a sua genialidade trouxe-lhe alguns amigos poderosos, pessoas que lhe reconheceram o génio e que o ajudaram ao longo da sua curta vida. No entanto, Caravaggio morreu aos 39 anos na mais profunda miséria, depois de anos a fugir da justiça.

Apesar de ter aceite muitas encomendas, muitos dos seus quadros acabam por ser rejeitados, pois nunca cedendo totalmente à imposição feita, adiciona sempre elementos considerados vulgares, brutais, demasiado realistas. Por exemplo, quando lhe foi dada a oportunidade da sua vida de se tornar um artista consagrado, pintando uma Virgem para São Pedro, para a maior igreja do mundo, Caraggavio não resiste à tentação. Faz uma obra de um realismo tal — classificado por alguns de vulgarismo — que assusta os religiosos. Essa obra é a Nossa Senhora dos Palafreneios. Nossa Senhora é representada como um vestido arregaçado como uma lavadeira e Santa Ana com um aspecto absolutamente miserável. Obviamente que o quadro foi rejeitado. Veja-se o que escreveu o secretário de um dos cardeais: “Dir-se-ia uma obra de um pintor que sabe pintar, mas cujo espírito está obscurecido e afastado há muito de Deus…”. Quer saber mais? Leia o livro, pois vale bem a pena; e as reproduções das pinturas valem mais do que mil palavras!

Célia Teixeira
Texto publicado na revista Livros (n.º 23, Agosto de 2001)
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