O Cérebro Humano
27 de Outubro de 2004 ⋅ Livros

Com o cérebro em mente

Pedro Galvão
O Cérebro Humano: Uma Visita Guiada, de Susan A. Greenfield
Tradução de Francisco Gonçalves
Lisboa: Temas e Debates, 2002, 170 pp.

Susan Greenfield é professora de Farmacologia, Medicina e Física em três universidades inglesas, tem-se afirmado como uma neurocientista de relevo e ainda consegue encontrar tempo para a divulgação científica. Além de ter realizado em 1994 as célebres Royal Institution Christmas Lectures, fundadas por Michael Faraday, nos anos seguintes deu regularmente conferências introdutórias sobre o cérebro. Este contacto com o público teve como resultado O Cérebro Humano, um livro acessível que nos proporciona uma visita guiada às neurociências — uma visita bastante breve, mas muito informativa e bem estruturada.

Neste livro Greenfield apresenta-nos o cérebro de vários pontos de vista, começando pelo mais intuitivo. Nos dois primeiros capítulos ocupa-se do cérebro tal como o podemos ver a olho nu e explora as suas regiões principais. Mostra-nos que este não funciona como uma espécie de colecção de pequenos cérebros, cada um com a sua função, deixando claro como, embora ainda haja muito para saber a este respeito, mais de uma região cerebral contribui para a mesma função. No primeiro capítulo, é de destacar a descrição das diversas técnicas de visualização do cérebro que têm permitido avanços decisivos nas neurociências.

O terceiro capítulo convida-nos a apreciar o cérebro à escala microscópica. Greenfield, para além de explicar com algum detalhe o que são os neurónios e como comunicam entre si, diz-nos como esta comunicação é afectada por muitas das drogas mais conhecidas. O quarto capítulo introduz uma nova mudança de perspectiva: dá-nos a oportunidade de seguir o desenvolvimento do cérebro a partir de um óvulo fertilizado. Greenfield tenta mostrar como o cérebro muda em função da experiência para dar origem a um indivíduo único. O quinto e último capítulo, "Com a Mente em Mente", lida com um dos tópicos mais complexos e fascinantes das neurociências: a memória.

O Cérebro Humano, que beneficia de uma boa tradução de Francisco Gonçalves, apresenta várias qualidades que importa sublinhar. Greenfield faz uma apresentação criteriosa de casos clínicos, realiza várias incursões oportunas na história da ciência e enriquece a sua exposição com frequentes comparações com o cérebro de outros animais. No entanto, o estilo de Greenfield não é dos mais cativantes, e a autora revela uma certa ingenuidade filosófica nas raras ocasiões em que se afasta dos tópicos estritamente científicos. Podemos encontrar o melhor exemplo disto nos três últimos parágrafos da conclusão, que se resumem a considerações vagas e confusas sobre a natureza da consciência. Mas este é um mal menor: estamos seguramente perante um livro que pode ser caracterizado como uma boa introdução concisa às neurociências.

Pedro Galvão
Originalmente publicado no jornal Público
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