A Coisa Mais Preciosa que Temos, de Carlos Fiolhais
Julho de 2003 ⋅ Livros

O admirável mundo da ciência

Aires Almeida
A Coisa Mais Preciosa Que Temos, de Carlos Fiolhais
Gradiva, 2002, 216 pp.

Qual é a coisa de que este livro nos fala e que é a mais preciosa que temos? Trata-se de uma coisa frequentemente desprezada, e até maltratada, sobretudo em países como o nosso, que tanto dela carecem: a ciência. A ciência, muito mais do que se imagina, é desprezada nas nossas escolas, nas quais a velha história da maçã de Newton parece constituir um dos momentos mais estimulantes dos programas oficiais; maltratada na prosa de certas luminárias pós-modernas que nela vêm apenas mais um discurso entre outros e, frequentemente, um cruel limite ao "livre pensamento"; despromovida pelo sucesso popular da pseudociência com os seus "poderes ilimitados"; e até esquecida nas nossas universidades, onde tantas vezes "investigar significa o mesmo que ler". Enfim, a ciência parece ter mesmo má reputação. E, contudo, é com os países cientificamente desenvolvidos que tanto gostamos de nos comparar e aos quais vamos buscar os exemplos que habitualmente tomamos como referência.

Parece contraditório? Parece e é mesmo! É tão contraditório que nos apressamos a importar a ciência que não promovemos cá dentro. Por isso este livro põe o dedo na ferida da incultura científica portuguesa, mas também não deixa de dar, pela positiva, o exemplo do que pode ser feito. Um exemplo raro no nosso país. Carlos Fiolhais procura, afinal, despertar-nos para esse tesouro, fruto do espanto e da inteligência humanas, e que é simultaneamente uma inesgotável fonte de imaginação e de progresso.

O livro de Fiolhais é constituído por uma selecção de pequenos textos publicados no suplemento "Das Artes e das Letras" de O Primeiro de Janeiro, o jornal portuense em que a divulgação científica tem, pelos vistos, o relevo que nem sempre se lhe reconhece. Em Portugal, como já Antero de Quental e Eça de Queirós lamentavam, a cultura nunca incluiu a ciência. Como afirmou Antero, citado por Fiolhais, "a Europa culta engrandeceu-se, notabilizou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos". Mas não se pense que o livro não passa de um melancólico e resignado desabafo sobre a forma como tratamos a ciência em Portugal. A maior parte dos textos são pequenos aperitivos que nos cativam com aquilo que a ciência tem de mais estimulante e que mostram pelo exemplo aquilo que devia ser feito para alterar o panorama.

Assim, numa primeira parte o autor procura esclarecer a diferença entre a actividade científica e outras actividades humanas e, em especial, demarcar a ciência da pseudociência. A segunda parte ocupa-se principalmente da forma como se ensina e se aprende a fazer ciência, não deixando de aproveitar para, de caminho, denunciar os efeitos perniciosos do "eduquês" reinante. A terceira parte debruça-se sobre um aspecto que serve de complemento à aprendizagem formal das ciências; o da sua divulgação junto do grande público. A quarta é sobre diversos aspectos das ciências físicas, nomeadamente a relação da física com a matemática, com a biologia e com o ambiente. A quinta faz-nos sonhar com os "desafios do espaço". A sexta fascina-nos com o universo dos computadores e com a engenharia do futuro, a nanotecnologia. Na sétima e última parte, volta ao caso português, à sua aversão pelo rigor e pela velocidade (a não ser nas estradas), entrando mesmo no pachorrento mundo das universidades portuguesas que, quem sabe, talvez comece finalmente a despertar para a investigação a sério.

Todos os textos estão escritos numa linguagem directa e acessível, com humor quanto baste e algumas curiosidades interessantes pelo meio. Frequentemente o autor faz referências à literatura, ao cinema e às artes em geral, mas raramente tais referências são despropositadas ou sequer forçadas. Além disso, Carlos Fiolhais consegue falar de ciência, utilizando de forma imaginativa os exemplos retirados do nosso quotidiano. Por isso este livro não destoa numa colecção com a qualidade da "Ciência Aberta", onde se incluem alguns dos mais fascinantes livros de ciência (e não só) que se encontram à disposição do leitor português, como é o caso de obras de Sagan, Dawkins, Hawking, Feynman, Weinberg, Ridley e muitos outros. Felizmente o caso de Carlos Fiolhais já não é um caso isolado no panorama da divulgação científica feita por cientistas e autores portugueses. Se pensarmos em outros casos como, por exemplo, o livro de Jorge Buescu, O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, recentemente publicado nesta mesma colecção, somos levados a pensar que afinal as coisas talvez estejam a mudar. Se isso se confirmar, é a cultura portuguesa que acaba por ganhar; e não apenas a cultura científica.

Aires Almeida

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