A Companion to Epistemology, org. por J. Dancy e E. Sosa
Epistemologia

Filosofia descartável

Leônidas Hegenberg
A Companion to Epistemology, org. por Jonathan Dancy e Ernest Sosa
Blackwell, 1992, 541 pp.
Comprar

Jonathan Dancy (Keele University) e Ernest Sosa (Brown University) convocaram outros 135 especialistas em questões de conhecimento e organizaram uma importante "enciclopédia" — que se põe ao lado de quatro outras "Companions" anteriormente preparadas pela Editora Blackwell. (As quatro são "companions" para a estética, a ética, a filosofia política e a metafísica.) Os 137 autores são quase todos da Inglaterra e dos EUA. Alguns poucos são de regiões "menos esperadas", Austrália, Israel e Noruega. Isso caracteriza, de imediato, a "orientação" do livro: trata-se de obra de referência que se mantém clara e deliberadamente na "linha" da filosofia analítica, própria da tradição anglo-americana.

Lembremos que após a primeira guerra mundial, houve nítida divergência de interesses, criando-se hiato profundo entre filosofia de "europeus do continente" (sobretudo franceses e alemães) e de "europeus das ilhas" (sobretudo ingleses e escoceses — a que se juntaram os norte-americanos). Em princípio, os pensadores anglo-americanos asseveravam (e continuaram asseverando) que a filosofia, embora não fosse uma ciência, deveria ser cientificamente tratada. Os pensadores continentais, ao contrário, aproximavam (e aproximam) a filosofia da arte, entendendo que deva orientar-se para aspectos "humanos", via de regra alheios à ciência.

Vale a pena recordar alguns aspectos (ou motivos) de tal separação. Bergson e Poincaré receberam alguma atenção de Russell. Ainda nos anos iniciais do século XX, Husserl, Hartmann, Dilthey, Cassirer, Gilson, e Sartre (e mesmo Croce, da Itália) viram suas idéias discutidas nas grandes universidades inglesas. Frege e Heidegger também foram estudados. Posteriormente, todavia, dominou, nas ilhas e nos EUA, a corrente "analítica" — nada apreciada pelos franceses. Acresce que 1) a filosofia continental (na verdade, a francesa) atravessou, sucessivamente, cinco diferentes tendências (fenomenologia, existencialismo, marxismo, estruturalismo e pós-estruturalismo) o que a tornou "estranha" diante do "monolítico" pensamento inglês; 2) as correntes continentais foram defendidas e disseminadas por pessoas que, aos olhos de ingleses, não seriam propriamente filósofos — porque 3) praticamente todos os pensadores continentais se tornavam conhecidos e discutidos em função de alguma atividade paralela, alheia à filosofia. [Recorde-se que não foi incomum, na França, pelo menos, a tentativa de "acabar" com a filosofia, em favor de algo mais abrangente, como a "cultura", envolvendo reformas políticas (marxistas), estudos de cunho antropológico (Lévi-Strauss) ou social (Heidegger), ensaios literários (Barthes), e assim por diante.] Mesmo hoje, cogitando de Derrida e Lacan (grandes nomes do cenário filosófico), nota-se que a fama que os cerca nasce de produções na literatura e na psicanálise, não de produções filosóficas (especialmente se atribuirmos ao vocábulo “filosofia” o sentido que tem na Inglaterra).

É certo que a tendência analítica desta enciclopédia de Dancy e Sosa (especialmente se contemplada como "tendenciosidade") poderá afastar, de imediato, leitores de formação francesa — que costumam dar pouca (ou nenhuma) atenção ao que se produz fora das regiões francofônicas. Aqui, em muitos centros brasileiros de estudos, foi (e, em certa medida, ainda é) "chic" imitar os franceses, estabelecendo rígido contraste entre uma filosofia "continental" (mais propriamente, "francesa"), digna de todos os elogios, e uma filosofia "analítica" (anglo-americana, dando-se ênfase ao "americana"), não raro encarada como produção "descartável".

Superando esses pontos de discrepância, qualquer pessoa mais ou menos esclarecida notará que a obra de Dancy e Sosa não pode ser ignorada. Entre os colaboradores há professores de renome, como, digamos, — citando os que já tiveram suas obras traduzidas ou comentadas em nosso idioma — Chisholm, Cohen, Grayling, Hintikka, Lehrer, Pears, Skyrms. Os autores prepararam 250 "verbetes". Estão dispostos em duas colunas, em cada página. Os verbetes se apresentam em ordem alfabética, desde "a priori" até "Wittgenstein". Variam de tamanho. Os mais curtos têm cerca de meia coluna. Os mais longos, 3.500 palavras (perto de cinco páginas). Notável é o fato de que os comentários se mantêm, rigidamente, no campo da teoria do conhecimento. Manter-se nesse campo não é fácil, tendo em conta que as áreas da filosofia se interpenetram. [A epistemologia está (no mínimo) intimamente ligada à metafísica, à filosofia da ciência e à filosofia da mente ("philosophy of mind", na terminologia inglesa)]. Assim, a consideração da epistemologia, sem invasões em áreas vizinhas acarreta, em certa medida, uma dose de artificialismo. Em conseqüência, é possível que alguns verbetes tenham sido aqui tratados com menor precisão, em vista de já terem sido mais amplamente discutidos nos outros "Companions" da Editora Blackwell. A par disso, convém acentuar que os registros a respeito de autores (Descartes, Leibniz, Mill, Platão, Vico, etc.) também se voltam, na medida em que isso é viável, apenas para suas contribuições no âmbito da epistemologia — sem atentar para o que eles poderiam significar em contextos mais largos.

O organizador Dancy nota, no prefácio, que o livro pode ser examinado, em tese, por leitores sem preparo filosófico. Dado, porém, o nível de especialização que a epistemologia contemporânea alcançou, a consulta acaba, em termos práticos, restrita a estudantes que possuam alguma base em filosofia e, naturalmente, aos estudiosos que almejam aperfeiçoar ou rever conhecimentos a respeito da matéria. É esse público, em suma, que a obra contempla.

Há verbetes que parecerão confusos, se lidos isoladamente. Exigem "apoio" de outros verbetes. Por isso, é indispensável, diversas vezes, fazer consultas "simultâneas", a fim de bem compreender certos tópicos. Preocupado com tais referências cruzadas, o organizador usou dois recursos apropriados. Em cada verbete, palavras escritas em letras maiúsculas se prestam para lembrar o leitor de que correspondem a uma "entrada" independente, na própria enciclopédia. [Ocasionalmente, após uma sentença oportuna, remete-se o leitor a outros verbetes.] Além disso, quase todos os verbetes se encerram com uma lista de termos "associados" — que o leitor faria bem em examinar, para melhor análise do item em tela. Enfim, para facilitar ainda mais o trabalho dos leitores, há 14 páginas, no final, reservadas para um ótimo índice remissivo de nomes e assuntos — capazes de orientar as consultas, por mais "esdrúxulas" que possam parecer.

Por todos os prismas, uma obra indispensável nas estantes de estudiosos de filosofia.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

Instituto Brasileiro de Filosofia
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte