Como se Faz um Filósofo
28 de Março de 2007 ⋅ Filosofia

O filósofo surfista

Rolando Almeida
Como se Faz um Filósofo, de Colin McGinn
Tradução de Célia Teixeira
Revisão de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, 2007, 252 pp.
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Imagine um filósofo sentado num caiaque a fazer surf nas praias de Long Island. Será esta uma questão filosófica? Não. Quando muito trata-se de uma questão sobre a vida de um filósofo. É a partir desta curiosidade pela vida de um filósofo — a sua própria vida — que Colin McGinn parte para expor ao leitor relativamente informado algumas questões centrais da filosofia. Nas palavras do próprio McGinn,

"Sempre valorizei a clareza da escrita, e isto era uma oportunidade para levar essa clareza a pessoas que poderiam sentir-se excluídas pela terminologia técnica obscura habitualmente usada (ou excessivamente usada) por filósofos académicos. Penso que a filosofia possa interessar a toda a gente, mesmo o tipo de filosofia mais "seca" como a que tenho vindo a apresentar neste livro. Quero levar às pessoas a coisa em si, e quero que se sintam envolvidas na filosofia." (p. 205)

A obra inaugural da colecção Filosoficamente da editora Bizâncio, vale por três razões de peso: 1) para satisfação da nossa curiosidade em relação à vida de um filósofo; 2) para aprender alguns dos principais avanços da filosofia contemporânea; 3) e para os professores universitários portugueses perceberem o lugar da disputa e exigência filosófica.

Pelas razões expressas se compreende que esta obra se destina, assim, a um amplo público, desde o leitor de filosofia mais incauto, até ao professor universitário e ao simples curioso de vidas alheias. É um livro que soa a literatura mas que expõe, sempre, os problemas filosóficos de uma forma estimulante uma vez que não se resume à exposição histórica do que os filósofos pensaram, mas antes entra directamente nos problemas, desafiando o leitor e mostrando a relação intrínseca que a filosofia tem com a vida humana, no caso, na pele do próprio autor.

Quanto à razão 1, o livro é divertido mostrando-nos, por exemplo, o momento em McGinn tenta refugiar-se nos jogos de computador para aliviar a tensão que os problemas filosóficos suscitam na consciência e também para fugir a uma momentânea solidão. Segundo McGinn, os jogos de computador foram uma má solução e o desporto constitui um ponto de fuga revitalizante para as actividades cerebrais, como a filosofia.

Mas também, quanto à razão 2, aprendemos muita filosofia com a obra e é verdadeiramente viciante seguir a carreira académica deste filósofo que, curiosamente, não começa na filosofia mas sim na psicologia. Os problemas da filosofia da mente e da linguagem merecem uma ampla exposição no livro. Mas a riqueza da filosofia é inesgotável e McGinn vai por outros caminhos, parando na filosofia da literatura. A determinado momento quase asfixiamos pensando que o autor nos conduziu à morte da filosofia. A desolação desaparece. Mas desaparece como? Pensando filosoficamente. E é isto a filosofia: sermos capazes de pensar e argumentar com clareza e rigor, emancipando-nos progressivamente das confusões iniciais.

O livro levanta ainda outra questão muito importante e que o meio académico e filosófico português deveria tomar exemplo. McGinn, enquanto académico, teve os seus troféus e derrotas. Muitas das vezes foi injustiçado pela inveja dos seus pares. E o leitor entra, pela mão do autor, nos bastidores das maiores universidades do mundo, como Oxford. O autor é terrivelmente honesto na forma como faz a sua autobiografia. O interessante de notar é que a inveja existe em todos os meios académicos. Segundo o autor, as universidades norte-americanas são mais livres nestas questões e Oxford mais fechada. Mas o curioso, dizia, é que a inveja se passa num ambiente de intensa disputa e labor. E as universidades produzem exactamente na mesma proporção em que esta liberdade de disputa crítica existe. Esta é, aliás, a explicação dada para que as universidades americanas produzam mais e melhor. E é uma grande lição que temos da leitura deste livro: o saber só se desenvolve e progride num ambiente de liberdade e confronto crítico de ideias. Esta é uma das mais importantes condições necessárias ao progresso do saber. O saber não se desenvolve num clima de abanar afirmativamente a cabeça a ideias com "buracos negros", nas palavras de McGinn, só porque se é amigo ou não se deseja ser inimigo.

Um filósofo faz-se com níveis de exigência ao ponto do fuzilamento intelectual, níveis desconhecidos na academia portuguesa. A exigência é muito grande, mas as recompensas são enormes.

Rolando Almeida
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