The Turing Option, de Harry Harrison e Marvin Minsky
Livros

A falta de inteligência artificial

Desidério Murcho
The Turing Option, de Harry Harrison e Marvin Minsky
Penguin (ROC Books), 1993, 498 pp.
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Harry Harrison é o autor do melhor livro de história alternativa, a trilogia "A Oeste do Éden", cujo primeiro volume foi publicado entre nós. Marvin Minsky é o grande defensor da exequibilidade do projecto da inteligência artificial: pôr os computadores a pensar como nós. Um livro escrito por duas personagens tão distintas promete.

E a verdade é que cumpre inteiramente. A escrita é clara e eficaz, a narrativa rápida e cheia de "suspense" e a verosimilhança é total: quando acabamos de ler o livro ficamos convencidos de que mais cedo ou mais tarde teremos máquinas que pensam como nós. Toda a história se desenvolve em torno de um génio da informática que desenvolve um protótipo inteligente. Quando está prestes a chegar a resultados interessantes é vítima de uma tentativa de assassínio que o deixa com o cérebro meio desfeito por uma bala. É este personagem renascido das cinzas com a ajuda da implantação de microprocessadores nas zonas danificadas do cérebro — uma espécie de homem-máquina — que acabará por conseguir chegar a Sven, a primeira máquina inteligente. A acção desenvolve-se nos anos 20 do próximo século e está cheia de peripécias que envolvem o complexo militar e industrial, política, alta finança e traições. Uma leitura apaixonante.

O título do romance alude a Alan Turing, que propôs em meados do presente século aquilo que ficou conhecido como o "teste de Turing" para determinar se uma certa máquina pode pensar. Nascia assim o projecto da inteligência artificial. Turing é responsável pela existência dos modernos computadores e deve ter sido o único engenheiro que alguma vez publicou um artigo na "Mind", a prestigiada revista de filosofia inglesa. Mas Turing era uma pessoa optimista e achava que as máquinas inteligentes surgiriam por volta do terceiro quartel do presente século. O desprestígio relativo que a inteligência artificial goza hoje em dia deve-se em parte ao facto de as previsões terem falhado redondamente — e falharam redondamente por serem demasiado optimistas. Por enquanto, a inteligência artificial a sério é uma coisa a brincar — só existe na ficção. Quando essa ficção é boa, como neste caso, já não está tudo perdido.

Desidério Murcho
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