Heidegger's Children: Sins of the father, de Richard Wolin
29 de Setembro de 2004 ⋅ História da filosofia

A vida prática

Leônidas Hegenberg
Heidegger's Children: Sins of the father, de Richard Wolin
Princeton University Press, 2001, 312 pp.
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Iniciemos com alguns dados a respeito de Martin Heidegger. Viveu entre 1889 e 1976. Lecionou em Freiburg (1915-23), Marburg (1923-28) e, de novo, em Freiburg (1928-1945). A parte inicial de seu livro mais famoso, Sein und Zeit, foi publicada em 1927. O restante, escrito de modo menos sistemático, apareceu em décadas posteriores.

O apoio que Heidegger ofereceu a Hitler, em 1933, resultou em suspensão que lhe foi aplicada entre 1945 e 50. Nesse período, escreveu muitos trabalhos. De modo mais ou menos insistente, afirmava que olvidamos a finitude do ser humano e do mundo, finitude responsável por um niilismo de dimensões planetárias. Embora não se considerasse um pessimista, Heidegger imaginava que o niilismo só poderia ser superado aceitando o "nada" que nos atinge — que nos torna seres que nada sabem de si e do local em que se encontram.

Professor carismático, Heidegger encantou uma apreciável quantidade de alunos, sobretudo na década de 20 do século passado. Lembremos que antes de se tornar reitor da Universidade de Freiburg (1933), graças ao apoio das autoridades nazistas, foi orientador de quatro estudantes muito especiais, de origens judaicas. Hannah Arendt (1906-75) viria a tornar-se uma das mais famosas estudiosas de política do século XX. Registre-se que ela manteve, com o mestre, mais ou menos entre 1924 e 27, uma relação amorosa intensa. Herbert Marcuse (1898-1979) tornar-se-ia uma espécie de "guru filosófico" da Nova Esquerda, ganhando fama como porta-voz da Escola de Frankfurt. E Hans Jonas (1903- ) seria, depois, um apreciado teórico do ambientalismo, elemento-chave do Partido Verde da Alemanha. Enfim, Karl Lowith (1897-1973), historiador da moderna consciência histórica, destacar-se-ia como um dos pensadores de grande projeção na Alemanha. Esses são, de acordo com Wolin, "os filhos de Heidegger". Três desses nomes são bem conhecidos e foram objeto de muitas investigações. Jonas, no entanto, menos conhecido, recebeu a devida atenção neste livro de Wolin — que tem o mérito de lançar mais luz sobre suas idéias.

Examinando as diversas obras de Heidegger, nos dias de hoje, leitores de formação britânica (filosofia analítica) acham difícil entender como puderam ter a influência que tiveram. Leitores que, ao contrário, apreciam a filosofia chamada continental — e que têm em alta conta a produção de seus discípulos — colocam Heidegger entre os mais importantes filósofos do século XX.

Isso posto, vale a pena dizer alguma coisa a respeito de Richard Wolin. É historiador, filiado ao Graduate Center, da City University, de New York. Escreveu diversos livros. Entre eles, Cultural Criticism (1992), em que analisa a Escola de Frankfurt; uma obra dedicada a Walter Benjamin (1994), outra a Heidegger e o nihilismo europeu (1998). Em 1992, pela MIT Press, publicou longo estudo (327 páginas) intitulado The Heidegger's Controversy.

Aqui, Wolin caracteriza, na Introdução, o "National Sozialismus" de Heidegger. Na parte I reúne vários trabalhos do filósofo alemão. Na parte II, comenta aspectos do contexto em que tais trabalhos foram elaborados. Na parte III, corrobora suas impressões com o testemunho de vários pensadores. Aí figuram textos de K. Lowith (implicações políticas do existencialismo heideggeriano); J. Habermas (aulas do biografado); O. Poggeler (a política de Heidegger) e E. Tugedhat (a noção de verdade em Heidegger). O próprio Wolin encerra as considerações, escrevendo a respeito das "guerras francesas" de Heidegger.

Como curiosidade, note-se que Derrida considerou "Controversy" uma espécie de "máquina de guerra", pensando inclusive em impedir, pelas vias jurídicas, as reedições da obra. Em resposta, Wollin acusou seu crítico de abrigar ridículas opiniões acerca do nazismo de Heidegger. Em verdade, o filósofo francês estaria apenas tentando fugir de uma importante questão — a de saber se ele mesmo e os admiradores de Heidegger teriam também abraçado a discutível política heideggeriana.

"Filhos de Heidegger" estuda a maneira pela qual os quatro famosos discípulos judeus de Heidegger enfrentaram as idéias nazistas do mestre e até que ponto essas idéias os afetaram. Talvez involuntariamente, a pendência Wollin-Derrida parece estar de volta. Esperemos que não resulte em discussões estéreis.

Wolin retrata os quatro discípulos com mais simpatia do que a devotada ao famoso mestre. Isso não o impede de dizer que eles (assim como Derrida) tomam atitudes preconceituosas cuja origem estaria no próprio Heidegger. De acordo com Wolin, os discípulos Arendt, Marcuse, Jonas e Lowith não deixaram de focalizar os grandes males do século XX — principalmente a administração dos campos de concentração dos nazistas, os ataques da tecnologia ao meio ambiente e a conformidade social das massas. Viram esses males como decorrência de certos ideais democráticos. Em verdade, os "filhos de Heidegger" não perceberam que sua filosofia podia acarretar deletérios efeitos quando estendida para a política.

Até a época de sua morte, imaginava-se que o pensamento de Heidegger permaneceria intocado, pairando acima de considerações políticas. Em 1980, porém, revendo os arquivos heideggerianos, foi possível notar que o famoso pensador pendia fortemente para o anti-semitismo. Tornou-se claro que ele via o pensamento ocidental inutilmente preocupado com "abstrações fantasiosas", de que a lógica seria a mais notável. Opondo-se a Descartes (pensar é o traço que caracteriza a existência), Heidegger via as decisões do dia-a-dia como aspecto fundamental da vida humana.

Wolin, apoiando-se em vasto material — livros, ensaios, cartas — defende uma tese específica. Está certo, aparentemente, ao acentuar que Heidegger focalizava a vida prática. Discutível, porém, pode ser sua afirmação de que o famoso filósofo seria um defensor da vida prática hitlerista. Como discutível é a tentativa de atribuir as falhas políticas dos quatro importantes discípulos apenas aos ensinamentos do mestre.

Em verdade, Marcuse, Arendt, Jonas e Lowith eram judeus que se haviam "aclimatado" às tradições culturais da Alemanha. Assimilando essas tradições e vendo em Heidegger um pensador talentoso que se auto-proclamava "herdeiro" desse pensamento, não hesitaram em acompanhá-lo, mesmo que isso representasse uma negação de suas posições políticas.

Estudiosos que analisaram o livro de Wolin ressaltam que ele errou ao considerar Arendt, Jonas, Lowith e Marcuse como discípulos de Heidegger, pois, na verdade, eles foram frutos de sua época. Errou, ainda, ao deixar de lado Leo Strauss (1899-1973), um dos mais importantes judeus que estudaram com Heidegger. O erro mais grave, porém, seria o de supor que Heidegger adotava certos princípios morais que, aparentemente, na opinião desses críticos, ele de fato não teria abraçado.

Em suma, o livro de Wolin traz algumas contribuições interessantes para quem aprecia a chamada Filosofia Continental (francesa e germânica). Não agradará, estou certo, aos adeptos da Filosofia Analítica (dos países de fala inglesa). Agradará aos estudiosos de política e de questões sociais. Não agradará a quem prefere filosofia da matemática e das ciências naturais. Agradará, talvez, aos judeus desejosos de entender um pouco do "pseudo-nazismo (?)" dos discípulos de Heidegger. Não agradará aos leitores que pouco se interessam pelas noções políticas defendidas por filósofos.

Leônidas Hegenberg
Instituto Brasileiro de Filosofia
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