A Ideia Perigosa de Darwin, de Daniel C. Dennett

A revolução darwiniana

Desidério Murcho
A Ideia Perigosa de Darwin: Evolução e sentido da vida, de Daniel C. Dennett
Tradução de Álvaro Augusto Fernandes
Temas e Debates, 2001, 588 pp.

A Temas e Debates acaba de lançar A Ideia Perigosa de Darwin, do filósofo contemporâneo americano Daniel C. Dennett, na cuidada tradução de Álvaro Augusto Fernandes. Este livro exibe em 580 páginas o alcance e o poder da filosofia no seu melhor. Mas não se pense que é uma obra só para especialistas. Apesar de ter muitas ideias para serem estudadas e discutidas pelos especialistas, é uma obra que se dirige ao grande público, alheio às disputas filosóficas. O problema abordado é um dos mais enigmáticos que os seres humanos jamais enfrentaram, se me é permitido o dramatismo pedante. Em termos simples, podemos formulá-lo assim: "Como entram os fenómenos não físicos no mundo físico?"

Mas o que quer dizer "fenómenos não físicos"? O melhor é pensar em exemplos: os fenómenos mentais, o pensamento, os princípios éticos, mas também os fenómenos químicos e biológicos em geral não são, aparentemente fenómenos físicos. Mas como podemos compreender a sua natureza? Durante séculos, a visão religiosa do mundo habituou-nos a olhar para a vida, a alma e a ética como artefactos do Grande Arquitecto. Mas, a pouco e pouco, à medida que a nossa compreensão desses fenómenos foi crescendo, fomos percebendo que afinal podemos compreender também esses fenómenos à luz da ciência. A redução da química à física impressionou sobremaneira os filósofos; e agora trata-se de procurar saber se é possível reduzir os fenómenos biológicos, mentais e outros também à física.

Esta tentativa de reducionismo tem caracterizado grande parte da melhor filosofia do século XX. Mas podemos distinguir dois tipos de reducionismo: o radical e o moderado. O radical pretende que tudo se poderá reduzir à física no sentido em que compreender todos os fenómenos físicos implica compreender todos os fenómenos do universo. Duvido que tal coisa venha a acontecer e penso que esta visão sofre de cientismo. O reducionismo moderado tem uma pretensão muito mais razoável, e a meu ver incontornável: é preciso explicar as relações existentes entre as diferentes categorias de fenómenos. Isto é: os fenómenos mentais ou biológicos têm de poder ser integrados no mundo natural. Mas daqui não se segue que tudo se possa explicar em termos exclusivamente físicos; significa apenas que terá de haver um fundamento físico para os fenómenos mentais, biológicos e outros.

A ideia de evolução por meio da selecção natural, de Darwin ajuda-nos a compreender os fenómenos biológicos e a integrá-los no mundo físico; e podemos aplicar a ideia original para compreender melhor os fenómenos mentais e a natureza da ética.

Dennett divide o livro em 3 partes e 18 capítulos. A primeira parte apresenta as ideias básicas da teoria de Darwin e mostra as suas ramificações. A segunda, explora o darwinismo no pensamento biológico. A terceira, mostra como se pode aplicar a ideia fundamental de Darwin para compreender os fenómenos mentais, a linguagem, a matemática e a moral.

Muitos estudantes de filosofia, ao ler a Crítica da Razão Pura de Kant, habituaram-se a falar da revolução copernicana, que consistiu em deixar de considerar que a Terra está no centro do universo. Agora, poderão compreender ao ler este livro que a revolução darwiniana é muito mais profunda, pois mostra como a ordem da natureza pode surgir do caos, dando origem a fenómenos como o pensamento, a moral e a arte. A cada página encontramos ideias e argumentos engenhosos, que nos fazem pensar e reagir: um convite ao pensamento autónomo. É uma leitura obrigatória, mesmo para quem tem estado à margem de um dos temas fundamentais da actual discussão internacional de ideias.

Desidério Murcho
Texto publicado na revista Livros, n.º 19, Abril 2001
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