Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, John Losee

Criteriologia de segunda ordem

Pedro Galvão
Uma Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, de John Losee
Tradução de Carlos Lains
Terramar, 1997, 296 pp.

Acompanhar a filosofia da ciência numa perspectiva primariamente histórica, e não temática, tem os seus atractivos. John Losee adoptou essa perspectiva na sua "Introdução Histórica à Filosofia da Ciência" e soube explorar esses atractivos. Com este livro podemos ver não só como os filósofos foram respondendo às propostas dos seus contemporâneos e antecessores, mas também como a filosofia da ciência evoluiu de acordo com os desenvolvimentos mais significativos na história da própria ciência. Este último aspecto é o mais interessante, pois faz-nos compreender como os problemas filosóficos resultaram de teorias científicas específicas e foram fecundamente discutidos no contexto que elas proporcionaram.

Losee começa por considerar o problema da natureza da filosofia da ciência. Esta, declara, não deve ser confundida com qualquer investigação sociológica sobre a comunidade científica, nem com a elaboração de visões do mundo altamente especulativas que pretendem basear-se em resultados científicos. A filosofia da ciência apresenta-se como uma "criteriologia de segunda ordem", pois ao fazer do conhecimento científico o seu objecto de estudo o filósofo tenta encontrar critérios de cientificidade marcadamente normativos. Procura saber, por exemplo, quais são as características que uma explicação científica "deve" ter ou que estrutura "deve" ter uma teoria científica. Obviamente, este tipo de estudo não pode ser bem sucedido sem um amplo conhecimento da história da ciência.

Nesta sua "Introdução Histórica", Losee percorre a filosofia da ciência com um poder de síntese admirável que nunca envolve qualquer sacrifício na clareza da exposição. Se o leitor desejar saber o que pensaram Aristóteles, Kant ou Popper sobre o conhecimento científico, poderá informar-se com brevidade e rigor sem recear a ausência de conhecimentos técnicos. Mas, para além de abranger os autores mais conhecidos, o livro de Losee tem o mérito de não menosprezar os episódios menos estudados da filosofia da ciência. Nesses episódios podemos encontrar grandes surpresas. Podemos verificar, por exemplo, que a filosofia da ciência medieval está longe de ser uma simples nota de rodapé a Aristóteles. O método da falsificação de Grosseteste, assim como a controvérsia sobre as verdades necessárias, contam-se entre as contribuições mais interessantes do pensamento medieval. A filosofia inglesa do século XIX, em que se destacam autores como Herschel ou Whewell, também é digna de mais atenção do que a habitual. Mesmo quando considera os filósofos mais conhecidos, como Descartes ou Kant, Losee consegue surpreender o leitor ao destacar aspectos do pensamento desses autores que geralmente são secundarizados.

É pena que a tradução portuguesa não faça inteira justiça à qualidade deste livro de Losee. Para além de revelar algumas incompreensões lógicas, contém demasiadas escolhas infelizes na tradução de termos importantes. É de mau gosto usar "teorético" em vez de "teórico" ou "causação" em vez de "causalidade". Os casos mais graves são aqueles em que o mesmo termo é traduzido de maneiras diferentes sem que haja qualquer razão para isso. O termo "explanation", por exemplo, não é traduzido por "explicação", mas umas vezes por "explanação" e outras por "interpretação", o que deixará o leitor atento compreensivelmente confuso. Para além disso, não se percebe o que terá levado a Terramar a publicar a 2.ª edição do livro, quando a 3.ª edição já existe desde 1993 e é francamente melhor. Ainda assim, a tradução é minimamente aceitável, e vale a pena mencionar que, ao contrário do que muitas vezes se verifica em Portugal, não se excluíram os índices de autores e assuntos.

Pedro Galvão
Texto originalmente publicado no Público.
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte