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Fevereiro de 2003   Lógica

Lógica, para que te quero?

O Lugar da Lógica na Filosofia
O Lugar da Lógica na Filosofia
de Desidério Murcho
Plátano, 2003, 167 pp.
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A lógica é leccionada em Filosofia, no ensino secundário e nas universidades. Todavia, subsistem muitas incompreensões quanto à sua natureza e ao seu papel na filosofia e na argumentação. Este livro esclarece estes e outros aspectos relacionados com o ensino da lógica. Fruto do trabalho do autor no Centro para o Ensino da Filosofia (Sociedade Portuguesa de Filosofia), e da sua experiência como Formador de professores de filosofia, trata-se de uma obra imprescindível para professores e estudantes que desejem transformar a lógica numa experiência enriquecedora, criativa e crítica.

Excerto

A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objectivos; não podemos sequer determinar com rigor quais serão os melhores objectivos a ter em mente. Os seres humanos estão sós perante o universo; têm de resolver os seus problemas, enfrentar dificuldades, traçar planos de acção, fazer escolhas. Para fazer todas estas coisas precisamos de argumentos. Será que a Terra está imóvel no centro do universo? Que argumentos há a favor dessa ideia? E que argumentos há contra ela? Será que Bin-Laden é responsável pelo atentado de 11 de Setembro? Que argumentos há a favor dessa ideia? E que argumentos há contra? Será que foi o réu que incendiou propositadamente a mata? Será que o aborto é permissível? Será que Cristo era um deus? Será que criaremos mais bem-estar se o estado for o dono da maior parte da economia? Será possível curar o cancro? E a Sida? O que é a consciência? Será que alguma vez houve vida em Marte? Queremos respostas a todas estas perguntas, e a muitas mais. Mas as respostas não nascem das árvores nem dos livros estrangeiros; temos de ser nós a procurar descobri-las. Para descobri-las temos de usar argumentos. E quando argumentamos podemos enganar-nos; podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a lógica é importante. A lógica permite-nos fazer o seguinte:

  1. Distinguir os argumentos correctos dos incorrectos;
  2. Compreender por que razão uns são correctos e outros não; e
  3. Aprender a argumentar correctamente.

Os seres humanos erram. E não erram apenas no que respeita à informação de que dispõem. Erram também ao pensar sobre a informação de que dispõem, ao retirar consequências dessa informação, ao usar essa informação na argumentação. Muitos argumentos incorrectos não são enganadores: são obviamente incorrectos. Mas alguns argumentos incorrectos parecem correctos. Por exemplo, muitas pessoas sem formação lógica aceitariam o seguinte argumento:

Tem de haver uma causa para todas as coisas porque todas as coisas têm uma causa.

Contudo, este argumento é incorrecto. A lógica ajuda-nos a compreender por que razão este argumento é incorrecto, apesar de parecer correcto. Chama-se «válido» a um argumento correcto e «inválido» a um argumento incorrecto. Do ponto de vista estritamente lógico não há qualquer distinção entre argumentos inválidos que são enganadores porque parecem válidos, e argumentos inválidos que não são enganadores porque não parecem válidos. Mas esta distinção é importante, e por isso alguns autores reservam o termo «falácia» para os argumentos inválidos que parecem válidos. (Distingue-se por vezes falácias de sofismas, havendo no segundo caso intenção de enganar; mas esta distinção é irrelevante para a compreensão da argumentação.) Como é evidente, são as falácias que são particularmente perigosas. Os argumentos cuja invalidade é evidente não são enganadores e se todos os argumentos inválidos fossem assim, não seria necessário estudar lógica para saber evitar erros de argumentação.

Há muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela lógica; por exemplo, alguns aspectos psicológicos. Algumas pessoas aceitam argumentos inválidos pensando que são válidos; outras, recusam argumentos válidos pensando que são inválidos. Há vários tipos de factores que explicam estas atitudes: factores psicológicos, sociológicos, históricos, patológicos, etc. A lógica não estuda estes aspectos da argumentação, que são estudados pela psicologia, sociologia, história e psiquiatria.

A lógica também não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, tal como a história não estuda o que as pessoas pensam sobre o passado. A história estuda o próprio passado e não o que as pessoas pensam dele, se bem que tenha em conta o que as pessoas pensam do passado — nomeadamente para determinar se o que as pessoas pensam do passado é ou não verdadeiro. Do mesmo modo, a lógica não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, mas a própria argumentação válida, se bem que tenha em conta o que as pessoas aceitam como argumentação válida — nomeadamente para determinar se o que as pessoas aceitam como argumentação válida é ou não efectivamente argumentação válida.

«Argumento», «inferência», e «raciocínio» são termos praticamente equivalentes. Fazer uma inferência é apresentar um argumento, e raciocinar é retirar conclusões a partir de premissas. Pensar é em grande parte raciocinar. Um argumento é um conjunto de afirmações de tal forma organizadas que se pretende que uma delas, a que se chama «conclusão», seja apoiada pelas outras, a que se chamam «premissas». (Um argumento só pode ter uma conclusão, mas pode ter várias premissas.) O que se pretende num argumento válido é que as suas premissas estejam de tal forma organizadas que «arrastem» consigo a conclusão. Uma boa analogia é pensar nas premissas e na conclusão como elos de uma corrente; se o argumento for válido, «puxamos» pelas premissas e a conclusão vem «agarrada» a elas; se for inválido, «puxamos» pelas premissas mas a conclusão não vem «agarrada» a elas.

Eis alguns exemplos de argumentos:

  1. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.
  2. Dado que os artistas podem fazer o que muito bem entenderem, é impossível definir a arte.
  3. Considerando que sem Deus tudo é permitido, é necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida.
  4. Se Sócrates fosse um deus, seria imortal. Mas dado que Sócrates não era imortal, não era um deus.

Nem sempre é fácil determinar qual é a conclusão e quais são as premissas de um dado argumento; mas esse é o primeiro passo para que o argumento possa ser discutido. No caso do argumento 1 a conclusão é «Não podemos permitir o aborto» e a premissa é «O aborto é o assassínio de um inocente». No caso do argumento 2 a conclusão é «É impossível definir a arte» e a premissa é «Os artistas podem fazer o que muito bem entenderem». O argumento 3 é mais prolixo: tem como conclusão «É necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida» e como premissa «Sem Deus tudo é permitido».

Para tornar a discussão de argumentos mais fácil podemos reformulá-los, separando claramente cada uma das premissas da conclusão. Chama-se «representação canónica» a esta maneira de representar os argumentos. O argumento 4 pode ser canonicamente representado como se segue:

Se Sócrates fosse um deus, seria imortal.
Sócrates não era imortal.
Logo, Sócrates não era um deus.


É evidente que esta forma de apresentar argumentos é artificiosa. Mas é o primeiro passo para que se possa discutir argumentos, pois só assim se torna claro quais são as premissas e qual é a conclusão. Esta forma de representar argumentos é já fruto do trabalho de análise de argumentos.

Reformular argumentos, apresentando-os na sua forma canónica é um exercício imprescindível no estudo da lógica. Claro que os argumentos dados para reformular não poderão ser demasiado complexos, pois só alguém já familiarizado com a lógica ou um especialista poderá reformular argumentos cuja estrutura seja demasiado complexa. Mas não poderão ser tão simples que surjam como artificialismos sem qualquer relação com a argumentação real que se encontra nos ensaios dos filósofos. O objectivo do estudo da lógica é desenvolver as seguintes capacidades, face a um ensaio filosófico ou outro:

  1. Identificar a conclusão ou conclusão principal;
  2. Identificar as premissas, incluindo eventuais premissas implícitas;
  3. Distinguir diferentes argumentos, explícitos ou aludidos, que o ensaio apresenta.

Estas capacidades permitem discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica. Sem ela, resta a paráfrase e o monólogo sem rumo, a que habitualmente se chama «comentário de texto» e «problematização».

Índice

Prefácio

  1. Lógica e Argumentação
  2. Lógica e Filosofia
  3. As frases e o que elas dizem
  4. Forma Lógica
  5. Lógica Clássica
  6. Lógica Aristotélica
  7. Argumentos Não-Dedutivos
  8. O Problema da Indução
  9. Argumentos de Autoridade
  10. Paradoxos
  11. Sintaxe, Semântica e Pragmática
  12. Argumentação e Demonstração
  13. Argumentação e Subjectividade

Apêndice 1: Como fazer exercícios
Apêndice 2: Percursos de ensino da lógica

Leituras e recursos
Glossário
Índice analítico

Gralhas (versão impressa)

Caso encontre outras gralhas, contacte o autor (desiderio@ifac.ufop.br).