Fevereiro de 2003   Lógica

A lógica só é interessante quando se cala?

Artur Polónio
O Lugar da Lógica na Filosofia
de Desidério Murcho
Plátano, 2003, 167 pp.

A lógica só é interessante quando se cala: eis a tese que a presente obra claramente refuta. Nunca, até O Lugar da Lógica na Filosofia, se tinha publicado em língua portuguesa uma obra que, de maneira simultaneamente acessível e rigorosa, apresentasse os elementos básicos da lógica — formal e informal — e, ao mesmo tempo, estabelecesse claramente o lugar da lógica na filosofia. Esta pequena obra vem preencher essa grave lacuna.

Numa época em que o ensino da filosofia parece finalmente dar indícios de querer libertar-se do irracionalismo e do relativismo que o têm dominado nas últimas décadas, esta obra vem ao encontro das expectativas de todos os que querem dar ao ensino da filosofia seriedade e rigor. Mas vem igualmente ao encontro das necessidades dos estudantes que, cada vez mais, procuram afastar-se de uma filosofia dogmática e panfletária, fechada na paráfrase acrítica, no delírio lexical e no vazio de ideias.

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A posição do autor, relativamente à ideia de filosofia, é clara: a filosofia é actividade crítica. Ora, não é possível, afirma o autor, ter uma atitude crítica em filosofia sem compreender o que é a argumentação; e não é possível compreender o que é a argumentação sem dominar os elementos básicos da lógica formal; logo, não é possível ter uma atitude crítica em filosofia sem dominar os elementos básicos de lógica formal. É este argumento, que o autor nos convida a avaliar, que estabelece o lugar da lógica numa filosofia inequivocamente entendida como actividade racional e crítica, na melhor tradição socrática.

Há uma longa tradição de ensino da lógica, em Portugal. Também do ensino da filosofia há, em Portugal, uma longa tradição. Paradoxalmente, tem subsistido, em Portugal, uma incompreensão básica quanto ao papel da lógica na filosofia. Frequentemente tem-se reduzido o ensino da lógica a um estrito formalismo. Parece que a lógica não se aplica a nada que não seja o mero exercício escolar. Nunca antes se percebeu claramente o que fazer com ela a partir do momento em que se esgotam os exercícios e se encetam os textos dos filósofos. Desidério Murcho mostra claramente que não há leitura crítica dos textos filosóficos sem o domínio dos elementos básicos da lógica formal: sem esse domínio não é possível avaliar — na verdade, nem sequer compreender — os argumentos dos filósofos.

Um preconceito muito vulgarizado é o de que a lógica espartilha o pensamento e anula a criatividade. A isto, o autor objecta que, em filosofia, a criatividade está na procura de alternativas. Ora, o estudo da lógica obriga-nos à consideração de possibilidades e habitua-nos a considerar circunstâncias que, de outro modo, não teríamos em consideração. Logo, o estudo da lógica não só não anula a criatividade, em filosofia, mas é, ao contrário, condição necessária da criatividade, em filosofia.

Subsiste, ainda, entre os professores de filosofia, a ideia de que a lógica é coisa de matemáticos; logo, a lógica não tem a ver com a filosofia. O autor mostra claramente que este argumento não colhe. A leitura de O Lugar da Lógica na Filosofia habilita o leitor a compreender que este argumento tem uma premissa suprimida: “Se a lógica é coisa de matemáticos, então não tem a ver com a filosofia”; que o argumento é válido; mas que essa premissa suprimida é altamente discutível — com efeito, tanto ou mais discutível do que a conclusão; logo, não se trata de um bom argumento. Mais: que não há melhores razões para acreditarmos na premissa “Se a lógica é coisa de matemáticos, então não tem a ver com a filosofia” do que para acreditarmos na sua negação — que o autor explica, aliás, como fazer correctamente —: “A lógica é coisa de matemáticos, mas tem a ver com a filosofia”. A filosofia é actividade crítica e é, como a matemática, pensamento rigoroso. Não há que ter medo, diria Blackburn.

Os filósofos procuram resolver problemas apresentando teorias. Implícita ou explicitamente, os filósofos defendem as suas teorias com argumentos. Há teorias melhores e há teorias menos boas, porque há argumentos melhores e argumentos menos bons. Sem o domínio dos elementos básicos da lógica não é possível responder à questão fundamental que colocamos a uma teoria filosófica: é ela verdadeira? Se o objectivo do estudo da filosofia não é a paráfrase acrítica das ideias dos filósofos, mas a discussão crítica dessas ideias, então não há estudo da filosofia sem lógica, porque não há estudo da filosofia sem pensamento rigoroso. Discutir ideias é dar conta dos argumentos que podem ser avançados a favor delas, confrontá-los com os argumentos que podem ser levantados contra elas, avaliá-los: são eles válidos? São sólidos? Bons? Ou serão falácias subtis? Isto implica pensamento rigoroso.

A obra desenvolve-se ao longo de treze curtos capítulos, cada um deles tratando de um tema pertinente para o estudo da lógica. O primeiro capítulo mostra a importância da argumentação e apresenta a relação entre lógica e argumentação, bem como algumas noções básicas de lógica: argumento, verdade, validade. No capítulo 2 apresentam-se as relações entre lógica e filosofia, centradas nas tarefas de clarificação do pensamento e de validação do raciocínio; discute-se a questão da criatividade, em filosofia, e a da necessidade de pensar de forma consequente. O capítulo 3 ocupa-se da relação entre frases e proposições, e trata a questão da ambiguidade e da vagueza, bem como a questão do uso filosófico da metáfora.

O capítulo 4 desempenha, no conjunto da obra, um papel absolutamente central. As noções básicas da lógica proposicional são aí apresentadas, bem como os dispositivos nela usados para avaliar proposições e argumentos. Os capítulos 5 e 6 são dedicados, respectivamente, aos aspectos essenciais da lógica clássica e da lógica aristotélica. Os professores que ainda persistam no ensino desta última encontrarão aqui uma compreensão mais alargada da lógica silogística, bem como uma visão nítida dos seus aspectos insatisfatórios. Aos que optam pela lógica clássica são oferecidos os instrumentos necessários à formalização, avaliação e demonstração da validade dos argumentos.

Os capítulos 7, 8 e 9 tratam dos argumentos não-dedutivos. O capítulo 8 oferece um tratamento claro do problema da indução, desde a sua formulação clássica, comummente designada pelo “Dilema de Hume”, até aos seus desenvolvimentos mais recentes, com o “Enigma de Goodman”. O capítulo 9 mostra a importância dos argumentos de autoridade, e fornece ainda algumas regras claras para a análise da qualidade desses argumentos.

O capítulo 10 esclarece a noção de paradoxo, distinguindo paradoxos de falsos paradoxos e corrigindo, nomeadamente mediante a consideração do tradicional “Paradoxo do Mentiroso”, ideias erradas que parecem perpetuar-se sobre o tema. No capítulo 11, o autor discute a relevância da sintaxe, da semântica e da pragmática para a argumentação. O capítulo 12 esclarece a relação entre argumentação e demonstração, e entre retórica e lógica informal. Finalmente, o capítulo 13 fornece uma análise clara de ideias obscuras sobre argumentação e subjectividade.

Apesar do estudo da lógica estar presente desde há muito nos programas de Filosofia no ensino secundário, essa presença parece ter resultado reforçada nos programas actuais da disciplina.

O Lugar da Lógica na Filosofia não se apresenta como um manual escolar, mas desfaz equívocos e corrige erros que subsistem no ensino da lógica — e que, lamentavelmente, parecem perpetuar-se em muitos livros escolares. Para além disso, a obra oferece, para os diferentes itens apresentados em cada capítulo, exercícios de inquestionável qualidade. Destes, muitos destinam-se aos estudantes; alguns, porém, são destinados aos professores, com o intuito de lhes permitir uma compreensão mais correcta da lógica.

Em dois apêndices, a obra apresenta sugestões para fazer exercícios — bem como a análise de erros a evitar — e ainda um percurso possível para a leccionação da unidade III — “Racionalidade argumentativa e Filosofia” do actual programa da disciplina para o 11º ano de escolaridade. São oferecidas ao leitor sugestões de leituras e recursos que, para além da qualidade e adequação, têm ainda o mérito de se encontrarem quase todos facilmente disponíveis. Finalmente, a obra apresenta um glossário rigoroso dos termos básicos imprescindíveis ao estudo da lógica.

O Lugar da Lógica na Filosofia representa um contributo decisivo para colocar o ensino da lógica — e da filosofia — no caminho certo, que é o da discussão racional e crítica das ideias filosóficas.

Artur Polónio